Elegia pelo Desempregado (Pedro Mota, A Matéria Humana)




XXXII
é tempo de voltar a falar de desemprego
o pão frio que falta
a dignidade sem crédito
 
Julgaram acabada a luta
de classes só adormecida
 
o fim da história atingiu uma recessão
insuportável só em crisálida
 
Queres calar a evidência
por causa de um enfado
inestético de um pudor de solitária
 
Esquece
 
lava-te com o sabonete antibacteriano
todas as vezes que voltares da rua
 
os homens que passam cheiram
terrivelmente
a desespero material
 
Não queres tocar nas fracturas do alimento
jogar a roleta-russa do dia-a-dia
ressentir o medo das vozes patronais
 
num dia noturno de morte vivida
tu sabes a um dia de soterrado
eles fazem as contas de saldo e
despedem-nos graciosamente
como a bestas horizontais e pacientes
de estimação em anúncios de férias
 
Depois declaram falências calculadas
Pensamentos algébricos de futuro
e o futuro é breve em cilindradas
estivais através dum calor proprietário
 
Está tudo nas mãos deles
receberam-no em vénias
de mão-beijada no joelho
por políticos de carreira
 
não pagam mais impostos
do que um mendigo
que dorme livremente
debaixo da sua ponte
 
e do que aqueles que se vendem
por um dia de trabalho
sem poderem pensar mais
do que o curto-prazo do declínio solar
de uma música minimal da folha diária
de oferta de empregos
 
Amanhã quem pode oferecer um jantar
no restaurante chinês à namorada lunar
e dançar a música da moda transeunte
no transe frenético de uma discoteca
receberá uma carta de despedimento
 
e depois pedira crédito ao tio que tem uma moderna reprografia
e o melhor carro das redondezas e só aceita meninas à experiência
com o serviço que a mulher de tetas gastas e pendidas já não merece
 
e sabes se ele acha tudo isso normal é porque
se ele também fosse patrão fixe e moderno
não podia deixar de obedecer à lógica das coisas
não podia virar as costas ao deus-dinheiro
e às responsabilidades da família Um dia
quando puder também sangrará os outros
como porcos de engorda e dirá é pegar ou largar
e comerá ostras com branco de Bordéus
e oferecerá um carro à sua amante
cagará uma merda melhor que a dos outros
manterá a forma num clube-saúde privado
 
e tu
e tu
terás nojo de tudo isso
embora esperes um dia
o anunciado passamento
do teu tio da América


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