Uma Saída do "Blog" 5dias e a Esquerda Caviar


Eu já tinha saído do “blog” “5dias” desde que argumentei com um sujeito da Academia, de quem já não me lembra o nome, que se diz alto especialista em sovietismo e que apontava Nikolai Bukharine como um exemplo e um modelo de anti-humanismo comunista, da perversidade inerente ao pensamento marxista. Porém, ele não sabia que Lenine tinha afirmado dos escritos de Nikolai Bukharine que estes, com o seu ultra-colectivismo e ultra-esquerdismo, pouco ou nada tinham de marxismo. Ignorância ou má-fé do senhor académico para pôr a descrédito o pensamento marxista. Portanto, não me espanta que mais alguém, Ivo Rafael Silva, tenha saído.

Ponho aqui a sua carta de despedida, por também  ser endereçada publicamente a mim, e mais um comentário – ambos muito esclarecedores – no “blog” Ad Argumentandum para se perceber melhor o motivo deste abandono.
 

A Minha Saída do 5dias

POSTED ON 12/11/2013
Esta nota resulta de eu achar que aqueles que me vão lendo – aqui e lá – merecem mais do que este anúncio meramente lacónico. É importante deixar claro que, quando fui convidado para integrar o 5dias, sabia muito bem ao que ia. Já era um seu leitor regular e conhecia as diferenças e sensibilidades que ‘grosso modo’ norteavam os seus autores. Todavia, sempre achei que essa diferença pudesse ser útil e enriquecedora, dentro de um pressuposto que acreditei poder ser respeitado: haver um ponto de luta e de intervenção comum, sempre mais presente que a natural manifestação das diferenças. No caso, acreditei eu, esse ponto de luta seria o combate – que não deve deixar de ser valorizado por se tratar da blogosfera – contra a direita, a troika, o governo, o capitalismo. Acreditei que poderia dar o meu contributo, a minha opinião, num espaço onde fosse possível haver debate sem tabus, mas sempre sem perder de vista esse ponto central e convergente que é estarmos assumidamente de um dos lados da contenda. Nos últimos tempos, com crescente intensidade, verificou-se que alguns do autores do blogue se afastaram completamente desse tal ponto, embarcando por sua conta e risco numa cruzada sistemática de ataques ao PCP, à sua história e a Álvaro Cunhal, fazendo-o num tom pretensioso, ácido e insultuoso, logo à partida inibidor de qualquer tentativa de discussão séria. É natural e lógico que um blogue colectivo heterogéneo manifeste aqui e ali ‘a diferença’ de cada um; mas é importante que se perceba que na ‘diferença’ de cada um, por se tratar de uma ‘diferença’ manifestada dentro de um espaço que é comum, está sempre pelo menos um consentimento ou uma aceitação implícita ou indirecta de todos os outros. E há (houve) determinadas considerações que nem de forma indirecta a minha consciência me deixa aceitar.
O recurso regular, não sério, à adjectivação e qualificação venenífera do PCP, dos militantes comunistas, ou até do BE e de outras forças de esquerda, não é, contrariamente ao que alguns pretendem fazer crer, «abrir debate à esquerda» para atingir um qualquer objectivo «comum»; é encerrar-se a si próprio numa deriva que na verdade não quer chegar a parte nenhuma. É comportamento típico do culto do individualismo – ainda que inconsciente -, de quem quer centrar-se unicamente em si próprio, nas suas concepções únicas, desprezando e combatendo as demais, almejando secretamente poder um dia ainda vir a ser admirado ou enaltecido por tal facto. Bem sabemos que há «à esquerda» quem não queira comprometer-se com os partidos, e admito que tal aconteça por razões de certo modo compreensíveis. Contudo, a mim sempre me pareceu que a razão maior daqueles que preferem o «não compromisso» com um determinado partido, e que aliás combatem vigorosamente todos os existentes, tem que ver não com uma atitude de legítimo «descomprometimento», mas exactamente com uma atitude de doentio «comprometimento» consigo próprio, melhor dizendo, com o seu próprio espelho. É também esse egocentrismo latente, essa vaidade explícita, essa vontade irresistível de se destacar inter pares, essa necessidade de dizer publicamente que se pertence a um patamar de discussão elevado e que, face a este ou aquele tema, não fala porque não “se mistura” com a ralé “não académica”, que fere de morte qualquer tentativa de conservar vontade, predisposição ou paciência para continuar a partilhar o mesmo espaço.
Estas foram as razões que me levaram a sair do 5 dias. Na ausência dos pressupostos que me levaram a entrar, evidentemente que não me restaria outra alternativa que não a de sair. Importa referir ainda, e com isto termino, que não houve qualquer orquestração face a outros abandonos, nem a minha saída teve que ver com a saída particular de ninguém. Posto isto, resta-me apenas dizer àqueles – poucos – que vão gostando do que escrevo, e que, por isso, fazem questão de me continuar a ler, que, evidentemente, vou estar por aqui. Ponto final neste assunto. Cumprimentos a todos”.
 
Pedro Pinto disse:

12/11/2013 às 20:24

Acho que fizeste bem em sair, camarada.
Só discordo com a ideia do comprometimento com eles próprios de alguns desses de quem falas. A RV sabe muito bem o que quer da Academia e onde pretende chegar e sabe também que, para isso, tem de «lamber» determinados traseiros. Para além da sua tese (é uma tese, aquilo?) sobre o PCP, dirige actualmente uma revista internacional financiada pela fundação Friedrich Ebert, ligada à social-democracia alemã – sim, a do Shroeder. É isto o trotsquismo, o anticomunismo, o anti-sindicalismo – saem-se todos muito bem na vida. E tentam convencer-nos (e a eles próprios?) que é pelas suas qualidades intelectuais…

 

Grande abraço.
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