Capitão Ahab – Poema (Pedro Mota, A Matéria Humana)

 

 

LXVIII
para haver moral não é preciso um homem
H ponto Cohen fica levantado quando acorda
o Sol pelas sete da manhã
        Um arpão penetra
nos lombos dum cachalote pelo espermacete
O vento de proa contra a cara
              Os sentidos são
dele
partilhando com outros os seus fantasmas
                        H ponto Cohen
                                    arpoa cetáceos sem se tornar marinheiro
Julgou que o seu pai havia fugido dos homens
[…]
mas – ultra-idealista – não compreendeu I. Kant
decretando silêncio à pessoa como coisa em si
desprezando o nó na carne das mãos unas p’lo pão
o que é uma coisa só para si
a consciência espelho de si
é ignomínia dos escribas alugando a palavra
é impostura contra os lavradores do cérebro
imaterializando o arar dedos na autocensura
processos tramitando nos neurónios sedados
mas a realidade insiste sem metafórico curso
na incontinência do Estado a salvar bancos
e fazer agiotas falidos circular os mercados
os elevadores sobem até ao horror do sublime […]
engastado na carne de Ismael o branco in’migo
de Ahab
     interposta pessoa do mal ínsito da vida
para descanso falso da alma
qual o vivido de tudo senão
o tédio e a náusea
a deflação da vontade […]
I. K. viu bem a falta de ar na intempérie de oceanos
e no sublime a chave da respiração da baleia branca
que para haver moral é preciso um homem que se tema
que tudo o que se deva se não faça e que a razão arda
no horizonte arisco colhido na utopia certa do dever
isto é sempre o princípio
e o tempo duma vida não vale nem uma viagem
fulgor da morte sobre terraços uivando a ruínas
de homens sentados numa existência contável
memória do bem escrita a sangue na Escritura
puro imperativo categórico feito espírito à força
Mas o trabalho vai-se na circulação da moeda
Usura bancária de arte e conhecimento
Coleccionadores de obras contra o ágio
Assimiladores do génio para o prestígio
Marchands destroçando o novo respiro
Párias apropriando auto-invenção d’outros
pára prestidigitador da crença empedrada
Ahab perdeu a perna contra o Leviatão

venceu a guerra contra o incomensurável
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