Platão e o Primeiro Método de Argumentação (Dialética) para um Conhecimento Objectivo


Com Platão surge o primeiro método sistemático de investigação especulativa, devendo lembrar-se que, já antes, os filósofos físicos (Empédocles, etc., séc. –V) e os médicos hipocráticos (vide Corpus Hipocraticus) tinham desenvolvido, até certo ponto, um modelo inaugural de ciência, uma teoria dedutiva escorada na experimentação e na observação sistemática como método intencional de prova enquanto critério último da verdade das teses e origem dos conhecimentos.
Benjamin Farrington insistiu, nas suas investigações sobre a divisão social do trabalho e a oposição entre teoria e prática na Antiguidade, no facto de que, não obstante, o médico hipocrático «A par de médico mantinha-se trabalhador manual e o seu cérebro orientou-se para objectivos excelentes porque trabalhou sobre materiais fornecidos pela mão.
«Que diferente foi o destino da física e da química! Aqui, a concepção aristotélica da matéria agiu como insuperável barreira contra o progresso.»
Com Pitágoras e Platão, influenciados pelo misticismo oriental, a investigação recai exclusivamente sobre a possibilidade do pensamento apreender a realidade por si mesmo.
Daí o surgimento deste método, aplicado expressamente por Platão na sua obra A República, que irá tornar-se o modelo da atitude filosófica – a dialéctica de teses opostas que resulta na demonstração da verdade de uma por redução ao absurdo ou ao impossível da outra –, assim como da argumentação em geral, e que iremos traduzir em parte no simbolismo da lógica simbólica moderna, dado não ter perdido actualidade quando o caso é o confronto de ideias, fruto ou não da mera reflexão pura, todavia rica de consequências desde que o tema seja nomeadamente a descoberta especulativa em contradições intelectuais de novos padrões e relações, como na matemática, ou a consistência ou inconsistência de teses e seus argumentos, cuja necessidade prática resulta na invenção teórica do próprio pensamento e dos seus processos específicos, não imediatamente idênticos aos da realidade objectiva, pois sujeito e objecto são original e permanentemente, embora não insoluvelmente, contraditórios:
1- Ironia (fase destrutiva):
a) Contra-argumentando uma falácia por contra-exemplo ou “redução ao absurdo”, forma mais elementar de “redução ao impossível”: “se a justiça é a conveniência do mais forte (P), então este nunca se engana contra si próprio (Q); ora, o mais forte, ao praticar a justiça, engana-se por vezes prejudicando-se a si próprio (~Q): logo, a justiça não é a conveniência do mais forte (~P)”.
Deve haver, pois, um conceito de “justiça” diferente do apresentado, uma vez P não ser verdadeiro: [(P->Q; ~Q) -> ~P] (Cf. A República, Livro I, 338 c – 341 a).
b) A “redução ao impossível propriamente dita”, que faz valer princípios lógicos abstractos e definições de um domínio de objectos, e não apenas contra-exemplos, seguida por pitagóricos, por Zenão e filósofos de Mégara, começa a demonstração pela conclusão e não pelas premissas, quer dizer, deriva consequências autocontraditórias das conclusões defendidas pelos adversários: parte-se da proposição contrária à que se pretende demonstrar.
Por exemplo, “Defende-se que possa existir um triângulo ilimitado (~P); ora, por definição, o triângulo é uma figura limitada por três linhas (Q); então, pode existir um triângulo ilimitado limitado por três linhas (~Q): logo, pelo princípio da não-contradição, isso é impossível e o triângulo é uma figura limitada por três linhas (P)”.
Em suma, {[(~P->(Q&~Q)] -> P}.
É, em geral, uma confirmação do que já se tem por adquirido.
2- Douta Ignorância (saber que não se sabe):
Pelo abalo da confiança no pseudo-conhecimento adquirido de maneira aparentemente espontânea, dá-se a necessidade da procura de um método seguro de descobrir a verdade, uma verdade defendida por regras e princípios inabaláveis.
3- Maiêutica (fase construtiva):
a) Para se alcançar esses princípios, a regra não pode ser a da indução, ou definição que aumentaria a sua compreensão por extensão ou integração na definição de novos casos e elementos: a definição seria sempre incompleta, e uma caracterização essencial, necessária e não contingente de uma classe de objectos, só seria pretensamente atingida pela falácia do “salto indutivo”: de um número finito de seres com o mesmo carácter, o que não é suficiente para se concluir sem margem para quaisquer dúvidas, pertencerem à mesma espécie (todos os bípedes do universo são seres humanos?), infere-se o mesmo carácter para todos os seres dessa mesma pretensa espécie (supondo que só o ser humano é capaz de distinguir o “bem” do “mal”, conclui-se que todo ser humano, adulto, distingue o “bem” do “mal”?); por outro lado, definições contraditórias ou bastante distintas de um “mesmo” objecto não podem resultar, pela inexistência dum mínimo denominador comum, num conceito de tal género indutivo (que noção compreensiva se extrairia destes dois juízos: “a justiça é o instrumento legal de preservação duma determinada organização social”; “a justiça é dar a cada um aquilo que lhe pertence”?). Platão apercebeu-se, provavelmente por intermédio de Sócrates, destes limites do método indutivo, ou talvez melhor, da conduta indutiva do pensamento empírico.
b) É preciso, portanto, tomar as opiniões particulares por aquilo que são – justificações de interesses particulares e de ilusões subjectivas – e procurar a verdade em algo que está acima delas: à imagem da sociedade (da cidade antiga) e do corpo humano, no Todo, na Ideia, que, a partir de si, e não das suas partes, confere coerência aos elementos, que são como órgãos de um organismo superior, os quais funcionam em ordem a este. Por exemplo, se a “justiça” é uma ideia suprema, o que é sugerido pela sua associação com a estrutura social, que os indivíduos servem e da qual recebem o sentido da sua vida, ela deve consistir em algo que tenha a ver com a sua organização.
c) A maiêutica é uma indução especial: tendo sido postas de lado as opiniões individuais, associadas às vivências privadas, aos costumes e às representações do mundo distorcidas pelos modos de vida e preocupações de cada grupo social, não se procede por associação do comum mas por subtracção das diferenças, reduzindo-as a nada; mas como deve ser o caso de um real – e aqui nota-se, mais que em qualquer outro aspecto da doutrina de Platão, a marca do precursor Parménides –, esse nada é um não-ser por si-mesmo, uma diversidade de opiniões em constante mutação que não podem, por isso mesmo, corresponder a nada de real (a verdade é uma e, portanto, constante, é impossível ser e não-ser, quer ao mesmo tempo quer em tempos e lugares diferentes: o que é verdadeiro hoje não pode ser falso amanhã, nem no mesmo instante), pelo que é dever do pensamento elevar-se a algo de eterno, universal e paradigmático.
4- Ciência (Noésis):
a) A verdade é o todo, e este, como esfera das Formas puras, dos modelos dos objectos empíricos, sensíveis, manifesta uma ligação dialéctica entre estes problemas gnoseológicos e o dualismo ontológico, demarcando duas instâncias, entre as quais há a mesma semelhança que entre a alma e o seu fantasma. É com Platão que o Idealismo se converte em sistema metafísico. A realidade é uma trindade de Ideias, cada uma consistindo num aspecto da Ideia Absoluta e originária: A Verdade, o Belo e o Bem. As relações e funções, assim como as personificações míticas de qualidades e de forças, transformam-se em substâncias: o “conhecimento” é algo em si-mesmo, independente do sujeito; a “harmonia” a forma que o Todo ou a Ideia é na sua Forma perfeita; a “justiça” é o modelo terreno, material, mundano, político, da Ideia do Bem, afinal o Todo que tem com aspectos indissociáveis a Verdade e o Belo, superiores, às contingências, aos interesses pessoais, às ilusões e aos erros humanos.
b) Tomemos como exemplo tópico da “justiça” em A República 338 c – 341 a de Platão: O momento Irónico é o de um contra-argumento do tipo empírico de “redução ao absurdo”: reprova-se uma dada tese apresentando uma possibilidade factível que a nega. “Se a justiça é a conveniência do mais forte – tese defendida pelo opositor Trasímaco – então é necessário que este nunca se engane contra si próprio; porém, o mais forte pode tomar decisões que vão contra a sua conveniência: logo, a justiça não é a conveniência do mais forte.” Mas o próprio Platão comete, deliberadamente ou não, uma falácia, confundindo dois termos de significados muito diferentes – “conveniência” e “decisão”, cujo poder pode exercer em prejuízo de si mesmo – o que invalida a contra-argumentação. Além disso, ocorre um outro problema nesta aparente fase destrutiva: a indagação do que se pretende definir já está restringida pela ideia prévia do carácter geral do conceito a definir. Trasímaco poderia retorquir que o “erro contra si próprio” não é a “conveniência do mais forte” e, portanto, não refuta a sua definição de justiça; mas Sócrates tem em mente, à partida, que a “justiça”, como qualquer outra Ideia digna de o ser, precisa de possuir o carácter da “universalidade” e, desse modo, elevando-nos à instância da “maiêutica”, descobre-nos que a “justiça” nunca poderá ser caracterizada como um interesse particular mas, na tese de Platão, discípulo de Sócrates, deve possuir a harmonia das virtudes políticas, da “ciência” ou Ideia universal da cidade perfeita (justiça, ordem ou unidade, da “coragem” – papel dos guerreiros –, da “temperança” – papel dos praticantes das funções artesanais e comerciais – e da “razão” – sabedoria dos governantes – numa sociedade de indivíduos separados em classes e educados desde a nascença e por métodos eugenistas para a sua função específica entre as necessárias à conservação do todo social imutável e eterno): trata-se, pois, de opor uma definição (holística ou orgânica) a outra (timocrática ou tiranocrática) e não de uma autêntica refutação.
– Um exemplo rigoroso da redução ao absurdo seria o seguinte: “1) Todas as guerras são motivadas pelo desejo de expansão territorial duma nação; 2) a guerra civil de Espanha foi motivada pela luta entre os ideais duma democracia socialista e a ideologia fascista; logo, 3) é falso que todas as guerras tenham como motivo a expansão”.
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