Platão – Anedota de Panarces e Contradição Dialéctica

 
Na República (Politeia) Platão, após ter demonstrado que, na instância sensível da existência das coisas, as suas qualidades têm cada uma algo das qualificações inversas, faz dizer a Gláucon (479 a-b), anfitrião do grande diálogo, a seguinte fala, como se troçasse de quem reduz a realidade a essa mesma instância ou assemelha a sua dialéctica com o verdadeiro Ser, até certo ponto à maneira de Anaximandro e, sobretudo, de Heráclito:
«Parecem-se com as frases de duplo sentido, que se dizem nos banquetes, e com o enigma infantil do que dá no morcego, em que se manda adivinhar com que lhe bateu e em cima de que é que ele estava. Também estas coisas podem ter dois sentidos, e não é possível ter delas uma concepção fixa como sendo ou não sendo nem como sendo as duas coisas, ou nenhuma dela.»
A solução do enigma é a de um eunuco que faz pontaria para um morcego, imperfeitamente empoleirado numa cana, com uma pedra-pomes, e não lhe acertou. Como todas as boas piadas, esta é uma imagem sugestiva de um grande problema filosófico.
Se Platão não partisse do pressuposto da dualidade do Ser e do Não-Ser e da sua confusão no plano dos objectos da experiência empírica para responder a esta piada, teria evitado mais de dois mil anos de grandiosas disputas acerca da lógica e da sua relação com a realidade. Teria entendido que não há contradição entre o princípio lógico-ontológico da contradição dialéctica e o princípio formal da não-contradição.
Para pôr as coisas de maneira simples e abreviada, diremos que o princípio dialéctico da contradição consiste na natureza relativa de todos os entes ou de todos os fenómenos que não são por si-mesmos, o que, para aqueles que não identificam a lógica formal com a forma onto-lógica da realidade, sucede com tudo o que existe, com tudo o que se expressa sem ser expressão de outra coisa senão isso mesmo que é expressão e expressado.
O princípio da contradição dialéctica, ao contrário de quem o opõe metafísica ou formalmente com a contradição formal, não afirma que uma coisa é e não-é ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto e relação ao seu efeito, que é e não-é simultâneamente nas suas características próprias. Afirma, isso sim, que essas “suas” características, determinações integradas na unidade constitutiva do objecto, são, mas são-no pela sua conexão com o seu não-ser, e nos vários modos pelos quais (podemos dizer assim, apesar da aparente redundância) se opõem aos seus opostos no contexto da sua existência, assim se constituindo, se tornam ser, se mantêm e se transformam.
Portanto, um objecto, um acto, um qualquer fenómeno é, mas é por ser que o princípio formal da identidade e o seu correlativo da não-contradição se apresentam como exigências objectivas da necessidade subjectiva, cognitiva, de argumentar consistentemente. O princípio da contradição dialéctica apenas acrescenta que toda a identidade formal e todo o objecto correspondente do discurso só é um e o mesmo na unidade mais profunda das oposições que o constituem.
Todavia, este reino é para Platão o domínio da percepção, das imagens, da opinião. A opinião (o mundo de Protágoras) é a potência da alma que tem por objecto da sua aplicação, do acto da sua potência, a instância dos objectos e actos relativos (maiores e menores, leves e pesados, úteis e inúteis, poderosos e fracos, justos e injustos), mistura de ser e de não-ser, das determinações contingentes, dos atributos relativos ao contexto.
É apenas com Hegel, e ainda assim, de maneira especulativa e anticientífica, que pela primeira vez se compreenderá a realidade como síntese dos momentos do Ser (da identidade imediata que imediatamente passa ao seu oposto), da Essência (“a essência aparece, a aparência é essencial”) e do Conceito (unidade contraditória do Ser e da Essência).
Enquanto que a sintaxe é a condição de sentido do discurso, a lógica formal é a sua condição de inteligibilidade, a pedra-de-toque da coerência e do não-absurdo do raciocínio. Ora, desde Platão e Aristóteles que a lógica formal, a razão analítica e dedutiva das formas abstractas (sublimadas de todo o conteúdo), gerais, comuns e diferenciadoras, pelas suas dimensões extensionais e intensionais, dos tipos fixos de proposição, determinadoras das suas combinações possíveis e inferências necessárias, prováveis ou condicionais – essa lógica é tomada pela grande maioria dos filósofos, que assim caem no senso-comum mais do que pensam, como a forma geral das relações reais ou, pelo menos, da construção cognitiva ‘a priori’ do mundo dos objectos (do racionalismo dogmático ao positivismo ou empirismo lógico).
A lógica formal é, com efeito, a pura estrutura dos actos de classificação conceptual rígida, estática, nas suas dimensões correlatas da extensão e da compreensão, das operações de conjunção, disjunção, negação, implicação e função predicativa, as quais podem ser reduzidas a duas (disjunção e negação), e da semântica que, de material e expressando o conteúdo determinado do mundo pela abstracção e práxis humanas, se converteu, no cálculo proposicional moderno, em prol da coerência do formalismo lógico, na semântica formal, reduzida ao enunciado do sentido implícito daqueles operadores, sentido definido pelas próprias operações.
A percepção mais ou menos imediata do mundo e a acção mecânica, relativamente simples, sobre os objectos forçam o privilégio da abstracção e do fixismo, da classificação (intencional e extensional) e da distinção das relações funcionais estabelecidas e tipificadas. Todas as ciências se iniciaram por uma taxiologia. A lógica formal é o mapa da percepção e da acção mais ou menos simples do homem. Se não posso afirmar de uma coisa certa propriedade e o seu contrário é porque o falar absurdo resulta de uma linguagem que expressa (por que causa, é assunto ainda debatido, apesar de já sabermos que constituímos um sistema epigenético que assimila a si o meio que em simultâneo o determina na forma e conteúdo dos seus actos e conhecimentos), que expressa, dizíamos, a coerência material do mundo e se constituiu como significativa por força da coerência formal que lhe corresponde.
Mas o mundo não é menos uma coerência em devir, em constante transformação, num processo de mudança que os homens, por imperativo dos seus temores, sempre quizeram demonizar: há confiança na permanência e horror à sua negação, ao vazio que ela deixa no espírito de quem tomou o seu mundo por certo. Por isso, o que nem é nem deixa de ser, deve ser inferior, pelo valor da sua natureza, à estabilidade, à identidade das coisas, das situações e do sujeito consigo mesmo. A autoproposição medieval de Deus – “Eu sou aquele que sou” – denota-o, por um mecanismo desejante. A política e os afectos, o medo da mudança, constituem portanto obstáculos à compreensão dos processos que escapam à modelização funcional e factorial, portanto previsíveis ou, pelo menos, muito prováveis.
Chama-se irracional à realidade ou aos pensamentos que a medida e a lógica da identidade não conseguem traduzir. Mas certos grandes problemas com que, de tempos a tempos, a matemática e a lógica se debatem (por exemplo, a teoria dos conjuntos transfinitos de Cantor, o teorema da incompletude de Gödel) mostram definitivamente como os sistemas formais clássicos não expressam nem a realidade como um todo nem o próprio pensamento na sua complexidade. É que tudo o que é objecto do conhecimento e aquele que nem sequer o é só parecem coerentes consigo mesmos enquanto a contradição imanente e contextual não se manifestar a partir do interior dos seus processos, ocultos à aparente firmeza dos fenómenos e à mente humana, e abalar a coisas e as ideias, produzindo um mundo novo no qual o homem, quer queira ou não, é parte activa.
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