Para uma Crítica do Neo-Positivismo – 3

 

20 de Novembro de 2010
 
Para uma Crítica do Neo-Positivismo – 3

 

Descartes identificava a “razão” com o conhecimento da realidade; a “razão” para os “neopositivistas” é uma “técnica” de manipulação dos dados da experiência abstraída das suas conexões objectivas, na medida em que a razão tem por limite uma forma sem conteúdo, quer da linguagem quer do mundo exterior. Decerto que ela consiste essencialmente na teoria da dedução, mas questionou-se sem grande delonga se é, no seu âmbito mesmo, autosuficiente.
Segundo a lógica simbólica, qualquer que seja a interpretação das variáveis e dos predicados, a dedução é sempre válida.
A formalização não respeita apenas a “teoremas” mas igualmente a frases singulares da linguagem natural. Por isso, um dos exemplos que dá Russell (1905) da “forma lógica” é o da simbolização puramente abstracta da frase “O actual rei de França é calvo”. Também neste nível os operadores usam-se pelo padrão de uso, depurado da sintaxe natural da linguagem, e as variáveis (extra-lógicas) são os lugares na fórmula onde ocorrem os chamados nomes completos, quaisquer que eles sejam.
Mas volta a perguntar-se: é suficiente para darmos conta da “linguagem perfeita”, com as suas “formas exactas”, cingi-la um formalismo puro? E, arriscamo-nos de novo a dizer, será ela possível, e exclusivamente neste molde?
Uma proposição que “reconduz” a expressão verbal, matemática, físico-matemática, biológica, a uma combinação abstracta de variáveis individuais e predicados, como fez Russell?
Uma fórmula “identicamente verdadeira” ou “tautologia”, definida por Wittgenstein (1920), quer dizer um teorema qualquer dum sistema formal, sempre verdadeiro seja qual for a interpretação conferida a cada uma das suas variáveis?
Mas a “forma”, por mais universal e abstracta, e o seu “significado” não terão – para possuírem, além da simbolização trivial e do mecanismo genérico da demonstração, o mínimo sentido cognitivo, pertinência epistemológica e até ontológica – de se referirem às relações objectivas e a modelos de interpretação (na linguagem, na matemática, na física, etc.) sob os quais adquirem valor de verdade objectivo?
É imperativo, pela natureza do seu típico recorte mecânico, que a “lógica” tenha de que se contentar em ser a “teoria geral da dedução” ou da “consequência”?
Decerto, à lógica não compete investigar as leis dos domínios do real – embora se apresentem sob forma de “frases” – mas antes, por um lado, regrar a validade da construção das frases e, por outro, apresentar a teoria geral da dedução.
Mas ela também se ocupa da análise formal dos conceitos, em particular os matemáticos, como o de “número”, um dos enigmas – apesar da sua evidência intuitiva, psicológica – que ocuparam mais Frege. Ora, a dúvida que fica por esclarecer é se, junto com o raciocínio concreto, o conceito, qualquer conceito, cabe nesta moldagem, por mais analítica que se torne a linguagem universal.
Disse Simon Brackburn que, a respeito da existência duma lógica universal, completa, para todos os modelos semânticos, «a confiança original no método revelou-se demasiado optimista. Em primeiro lugar, acontece que só alguns, poucos, conceitos interessantes admitem análises incontroversas [não só nas ciências humanas (o que é uma “classe social”?) como até nas naturais (que entendemos por “causa” num acontecimento físico?; como formalizá-lo inequivocamente, ou são conceitos que, por serem naturais, estão fora do âmbito da lógica?)]. Em segundo lugar, é plausível que existam boas razões para isto, nomeadamente o facto de os conceitos adquirirem a sua identidade não tanto através da sua estrutura interna mas através do seu lugar numa teoria mais vasta, ou numa rede de doutrinas e práticas com as quais esses conceitos estão associados. [É aquilo a que os neopositivistas gostam de chamar “holismo”, que se opõe à conjunção duma “sintaxe universal” molecular com a “semântica atómica”, segundo a qual uma proposição é construída pelos seus termos elementares, retirando o seu valor de verdade e o seu significado da articulação dos mesmos, sob um modelo empirista, e não do contexto, a começar pela própria doutrina da linguagem, que define os princípios sintácticos e de significação, por sua vez ligada a hábitos e dispositivos sociais, históricos e particulares de codificação ou materialização do pensamento.] Em terceiro lugar, à excepção [da crença] do empirismo ou da doutrina atomista, não há qualquer maneira sistemática de determinar onde deve terminar um processo de análise, nem sequer, talvez de determinar que direcção deve tomar [os termos elementares, para modelos físicos e outros, devem designar dados sensíveis atómicos, mas a ciência mostrou que o limite mínimo da decomposição dos dados sensíveis depende tanto da acuidade sensorial individual quanto das práticas e tecnologias que fazem recuar esse limite e até das línguas (científicas ou espontâneas), as quais estabelecem diferentes grelhas para a análise dos dados; mostrou também que os dados sensíveis e os seus padrões factuais observáveis estão longe de constituírem os fenómenos últimos do conhecimento (será alguma vez possível observar um “quark”, e um “quark” é mesmo o elemento básico da matéria, ou será uma “corda”, e se não for o caso de existir um dado sensorial mínimo, por mais que a técnica nos ajude?; no conhecimento de um objecto complexo, por onde devemos começar a análise, pelos elementos isolados arbitraria ou abstractamente, pelos factos ou conexões simples observadas ou pelas funções concretas que executam no sistema e seus subsistemas?]. Finalmente, o teste para uma análise bem sucedida, nomeadamente a exibição de uma estrutura complexa que seria de facto um sinónimo do conceito original [segundo Quine, o qual acrescenta todavia não haver qualquer critério de identidade para proposições, portanto uma sua tradução inequívoca; e porque não uma teoria interpretativa da relação entre linguagem e realidade?!], é incerto na sua aplicação e, em vez de ser um árbitro imparcial das doutrina filosóficas, será sempre contestado à luz de tais doutrinas [alternativas].»
A questão que aqui se põe já não é puramente lógica, e também não é só epistemológica: é sobretudo a de como o mundo deverá ser para que uma frase seja verdadeira.
Tratar-se-á de um problema bem colocado?
Não são estas portanto, repetimos, controvérsias “puramente” lógicas, ainda que o “neopositivismo” e a “filosofia analítica” se façam valer duma certa concepção do estatuto “ontológico” e do papel gnosiológico do aparelho logístico para darem a sua interpretação do que é uma proposição verdadeira ou, pelo menos, com significado.
Deveremos concluir que a lógica simbólica terá de se apresentar como completa ‘a priori’, analítica que é, segundo a tese fundadora de Frege?
Para que tal seja satisfeito, pareceria ter de se aceitar a concepção pseudo-ontológica de Scholz (1941), de acordo com a qual as fórmulas lógicas valem para todos os mundos possíveis, portanto constituindo a lógica uma “ontologia mínima”. Contudo, esta seria uma condição suicida, que afundaria consigo qualquer esforço de se dotar a logística duma sintaxe e duma semântica adequadas a todos os domínios actuais e futuros.
Felizmente, não parece ser esse o caso, pois, segundo Mário Bunge, o objecto da lógica geral é o “modelo”, objecto conceptual e não real. A lógica não está em condições de caracterizar um “mundo possível” simplesmente porque, como declara Mário Bunge, «O que a teoria dos modelos assevera é algo mais modesto, a saber, que uma fórmula só é de carácter lógico se satisfeita em todos os modelos, ou seja, se valer sejam quais forem as interpretações dadas às variáveis não lógicas que nelas se contenham. […] Em decorrência, a noção de validade (ou analiticidade) universal não envolve a de verdade factual, que particulariza a semântica da ciência factual.»
Ora, como tal, a lógica abstrai de todo o modelo concreto, determina proposições tautológicas mediante tabelas de verdade e impõe regras de dedução tendo em conta na derivação das proposições apenas as relações que em cada uma delas os functores, ou operadores formais, estabelecem com as variáveis extra-lógicas não interpretadas.
Não é, pois, preciso, analisar, ao menos no nível proposicional, os conceitos controversos das ciências particulares ou do senso-comum, pois a lógica trata apenas das relações válidas em todos os modelos, e basta substituir aqueles por letras extra-lógicas.
Davidson (1967) considera que a “forma lógica” é aquilo em que uma frase tem de ser transformada para ser acessível à “semântica sistemática”, isto é, universal e unívoca. Esta semântica, enquanto sistemática, é ela-mesma imanente à “forma lógica” na medida em que lhe dá um sentido, uma operacionalidade: é, pois, a interpretação duma linguagem formal L, que consiste em estabelecer o sentido operacional ou implícito – não definido por palavras, não intuitivamente – das diversas expressões de L, mediante regras de uso (nomeadamente critérios, como as “tabelas de verdade” de Gottlob Frege (1879), e desenvolvidas por Emil Post e Ludwig Wittgenstein em 1920 como avaliadoras de tautologia; os functores não são evidentemente tautológicos, definindo-se pelos diferentes valores de verdade que apresentam no contradomínio da tabela) que determinam a relação combinatória e dedutiva entre elas.
Contudo, se a lógica é uma sintaxe universal – embora o que valha para o todo não valha necessariamente para as partes – é possível todavia que seja capaz de formalizar domínios mais estritos da linguagem como a teoria dos conjuntos e a aritmética. Esses domínios exigiam diversos níveis de complexidade para a sua formalização.
Mas, se isso é o caso, como é de facto, acontece que nos obrigamos a voltar ao problema da relação entre o universal e o particular que foi acima mencionado. Coisa que não é assim tão fácil de resolver, ou mesmo impossível, como foi mostrado por Gödel em 1931.
Acontece todavia que um grande lógico, Gisbert Hasenjaeger, não se sente muito certo quanto à neutralidade “ontológica” dos “sistemas simbólicos”. Num livro da década de sessenta em que, expondo a disciplina como a concebe, explana a estrutura base de cada um dos tópicos centrais, cujo teor não se alterou entretanto muito no essencial, nesse livro intitulado Conceitos e Problemas da Lógica Moderna declara que «os objectos da lógica não são as convicções pessoais da validade universal de determinados esquemas mas a validade universal mesma, […]» e coloca-se de imediato as perguntas sucessivas (a) de como é possível haver “esquemas universalmente válidos”, (b) chegar a “juízos que, na sua validade universal, ultrapassam toda a experiência possível” e (c) que “compreensão do mundo ministram juízos universalmente válidos”.
A pendência lógica posta de início abraça ou é abraçada pela esfera ontológica, pois, diz Hasenjaeger: «A pergunta (b) é um caso especial desta outra: Como é possível fundamentar uma ontologia?». A resposta circular do autor é altamente significativa e, na aparência, mas talvez só na aparência, oposta ao convencionalismo positivista de algum modo dominante nesta geografia (leia-se de Michael Dummett o título eloquente Modos de Fazer Mundos, ): «A validade universal desses esquemas baseia-se na ontologia discreta introduzida para dar resposta à pergunta (a).»
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