Kant e o Conhecimento como Tecnologia ou o Modelo Original da Separação do Ser e do Conhecer na Mentalidade Burguesa

 

No sistema kantiano existe uma estrutura transcendental, o conjunto sistemático das categorias pelas quais o indivíduo constrói o objecto. Esta estrutura é o a priori e não o inato cartesiano, para o qual uma certa quantidade de conceitos nos permite um equilíbrio com o mundo sem haver necessidade de qualquer experiência, pois há uma harmonia ontológica (entre o ego cogito e o ser pensante originário) pré-estabelecida.
Em Kant, os planos da experiência sensível e do entendimento são indiferentes ontologicamente, dão-se no plano da subjectividade, embora a experiência sensível tenha uma fonte que lhe é exterior embora ininteligível, mas a inteligibilidade como lógica subjectiva do objecto do sujeito, como transcendental, só se manifesta quando aplicado à sensibilidade: entendimento sem experiência é vazio; a experiência sem entendimento é um caos de sensações.
Ora, por que isto é assim? O sujeito relaciona-se com o meio através de representações.
Destas, manifestam-se três espécies fundamentais (aqui definidas de maneira muito aproximada às palavras de Gilles Deleuze pela precisão sempre inigualável das suas interpretações):
1) «Intuição: representação singular que se refere imediatamente a um elemento da experiência e tem a sua fonte na sensibilidade» (por ex. uma mancha verde);
2) «Conceito: representação que se refere mediatamente a um elemento da experiência por intermédio de outras representações e tem a sua fonte no entendimento» (por ex. “um cão é um mamífero quadrúpede carnívoro”, etc.). Estas representações não são singulares mas são fruto da organização esquematizadora da imaginação sob o interesse superior do entendimento cognitivo;
3) «Ideia: conceito que supera a possibilidade da experiência e que tem a sua fonte na razão» (por ex. “o mundo como totalidade das determinações dos objectos e das relações”).
Cada uma destas faculdades possui formas a priori porque ultrapassam a mera experiência possível contingente, uma vez que se constituem como regras universais de ordenação dos elementos da experiência.
Para a sensibilidade deve, então, distinguir-se a representação de o que se apresenta. O que se apresenta são os dados tais como nos aparecem, ou melhor, o fenómeno enquanto diversidade sensível, enquanto enxame de impressões que aparece na intuição. É esta a matéria do fenómeno, o “objecto” indeterminado (não compreendido num esquema da imaginação e num conceito do entendimento) duma intuição empírica.
A forma do fenómeno é aquilo que faz com que o diverso que há na experiência seja ordenado por certas relações, e ela deve estar a priori na mente. O fenómeno aparece no espaço e no tempo enquanto formas de toda a aparição possível. Estas, por sua vez, assimilam-se às categorias ‘a priori’ do entendimento por meio da imaginação para constituírem o conhecimento, ou seja, o pensamento dos objectos.
As intuições puras ordenam em si e entre si a diversidade fenoménica. As formas estéticas a priori são as únicas intuições puras e, portanto, as únicas que a sensibilidade apresenta a priori. A intuição a priori não pode se considerada como uma representação a não ser que lhe atribuamos o sentido de re-apresentação, de «retomada activa daquilo que se nos apresenta». A intuição sensível caracteriza-se pela diversidade e pela passividade.
A re-apresentação estética formal, em função da sua actividade, confere uma unidade de formas e de qualidades, uma coerência, uma ordem espácio-temporal (condição da sua assimilação cognitiva a causas e fins), ao diverso da sensibilidade, e participa assim, como condição intuitiva pura, da construção de um objecto, produzido, enquanto conhecimento empírico, pela conjugação da intuição pura, da imaginação e do entendimento.
Podemos, desta maneira, estabelecer uma divisão na faculdade sensível e aceitar, a partir daqui, as seguintes faculdades cognitivas: uma faculdade passiva ou de recepção (sensibilidade intuitiva, acolhimento de fenómenos); e, por outro lado, as três faculdades activas: imaginação, entendimento e razão.
O problema da relação entre sujeito e objecto interioriza-se e converte-se na questão da conexão entre duas faculdades subjectivas diferentes pela sua natureza: sensibilidade receptiva e entendimento activo.
Aqui, o papel da imaginação é crucial porque, como esclarece Deleuze, esquematiza – pela produção da ocupação num certo espaço e tempo e pela reprodução das ocupações precedentes à medida que vamos produzindo as seguintes –, dando portanto ao entendimento a possibilidade de aplicar sobre os dados esquematizados os seus conceitos e julgamentos. No primeiro caso, temos a diversidade aparecida no espaço e no tempo; no segundo caso, temos, correlativamente, o espaço e o tempo diversificando-se em extensão e na linha da duração. É nisto em que consiste a síntese da imaginação.
Mas não basta a síntese como acto da imaginação para haver conhecimento. Há-de haver um modo pelo qual os princípios constitutivos e reguladores do entendimento se adequam ou ligam a estes dois aspectos da síntese.
A imaginação esquematiza, isto é, determina, sintetiza espácio-temporalmente, e essa síntese tem que corresponder ao conceito, que já não é uma imagem mas uma relação conceptual de que as imagens são as encarnações.
Há, pois, aqui que responder a como é que o entendimento se aplica aos fenómenos que se lhe submetem, mas não ainda é possível a resposta a como os fenómenos se submetem ao entendimento. Nisto, como diz Kant, reside um profundo mistério. A única coisa que Kant pode dizer é que o entendimento preside ao próprio acto de esquematização da imaginação. Esta é determinada a esquematizar pela determinação do entendimento.
Também nos podemos interrogar em que medida é que os princípios a priori do entendimento – cujos tipos estão estabelecidos na tábua das categorias, subsumidos nas formas da tábua das funções lógicas dos juízos – são necessários ao conhecimento e mesmo à experiência. O argumento é de que há conhecimento, e este implica certeza. Posto que escreve Kant, num raciocínio similar ao utilizado por Descartes para reduzir e deduzir o Ser a partir da Razão, mas agora no sentido duma analítica do conceito transcendental de objecto em geral (objecto = x), correlato da unidade sintética da apercepção em geral (sujeito epistémico) sem o qual nenhum objecto em particular poderia ser concebido nem o próprio eu teria efectividade enquanto função cognitiva:

«Em que se poria a certeza se todas as regras pelas quais se dirige fossem todas empíricas e, por consequência, contingentes? Também não se poderia dar a regras desse tipo o valor de primeiros princípios […] Mas não é somente nos julgamentos, é também nos conceitos que se revela uma origem a priori. Retirem sucessivamente do vosso conceito experimental de um corpo tudo o que ele contém de empírico: a cor, a dureza ou a moleza, o peso, a própria impenetrabilidade; resta sempre o espaço que esse corpo ocupava e que vós não podereis fazer desaparecer. Da mesma forma, se do vosso conceito empírico de um objecto qualquer (o conceito de “corpo” entendido como “substância” é a priori mas só se manifesta quando preenchido pela imagem de um objecto físico específico e particular), corpo real ou não, suprimis todas as propriedades que a experiência vos ensina, não podeis, entretanto, dissipar-lhe aquela que vos faz concebê-lo como uma substância […] Obrigados pela necessidade com a qual esse conceito se impõe a vós, é-vos preciso reconhecer que ele possui o seu lugar a priori na vossa faculdade de conhecer.»
O critério da necessidade no pensamento é, então, evocado. Para uma proposição necessária, o conhecimento tem que ser a priori. Quando o julgamento não obedece a essa universalidade, então é a posteriori:
«A experiência ensina-nos que uma coisa é isto ou aquilo, mas não nos diz que ela não possa ser de outro modo […] a experiência não dá jamais aos seus julgamentos uma universalidade verdadeira e rigorosa mas somente suposta e comparativa (fundada sobre a educação) […] A universalidade empírica não é mais do que uma extensão arbitrária de valor […] como esta, por exemplo: todos os corpos são pesados.»
Neste momento, torna-se conveniente fornecer uma exposição técnica do funcionamento da inteligência.
Já sabemos que existem conceitos a priori e conceitos a posteriori. Também podemos dizer que são respectivamente analíticos e sintéticos, com a ressalva – nisto constituindo a grande novidade da gnosiologia de Kant – de que nem todos os conceitos sintéticos (estendíveis da compreensão do conhecimento) são a posteriori.
Ora o conceito só o é sendo um juízo implícito. Este é-lhe logicamente anterior, e constitui sempre uma síntese. Esta síntese é intelectual mas à qual deve estar associada uma imagem, cujo papel é condicionar a instância fenoménica à determinação cognitiva, do entendimento. Esta imagem é, por sua vez, uma síntese das intuições sensíveis numa composição espacial e numa série temporal da mesma, assim como uma reapresentação, uma retomada activa. O conteúdo da imagem é, em resumo, uma figuração sintética da matéria fenoménica, da diversidade, do aparente caos da heterogeneidade, da não-lei, facultando a matéria já formada para a lei conceptiva do entendimento.
Para que a imaginação assim seja, não só em-si como também para-nós, para sejamos cientes de si como da faculdade de síntese do diverso pela sua esquematização na ordem espácio-temporal, o que significa então tornar-se imediatamente em algo diferente, é preciso que o entendimento (essa instância cognitiva determinante que se vem juntar aos distintos momentos do conhecimento) legisle por sua vez sobre ela, isto é, seja constitutivo dos objectos através da mediação submetida da imaginação. Sem ele não há objectos pensados, nem mesmo objectos enquanto tais.
Os objectos são sínteses de conexões categoriais subsumindo mediante os esquemas figuradores e reapresentadores da imaginação nas intuições puras do espaço-tempo os dados brutos da sensibilidade.
É por isso que os objectos são os correlatos do eu cognitivo, do sujeito epistémico, da unidade sintética da apercepção.
Há assim uma hierarquia de instâncias cognitivas que exerce o seu poder sobre as subordinadas por ordem decrescente, que é um poder logicamente sucessivo e inteligivelmente subordinante de formalização e de categorização conceptual.
A imaginação está, pois, submetida à estruturação dos juízos. Este são regulamentados pela lógica, que é a ciência das regras do entendimento em geral e que Kant considerou definitivamente formada e acabada por Aristóteles.
Os juízos são classificados numa tipologia dividida em duas tábuas correlativas:
a da função dos princípios puros do entendimento e a das funções lógicas do entendimento:
I- Tábua da Função dos Princípios Puros do Entendimento, com as Respectivas Categorias
A) Constitutivos:
a) Axiomas da Intuição (sensível): Quantidade ou grandeza extensiva (unidade, pluralidade, totalidade);
b) Antecipações da Percepção: Qualidade ou grandeza intensiva (realidade, negação, limitação).
B) Reguladores:
a) Reguladores Objectivos: Relação ou Analogias da Experiência (substância/acidente, causalidade/dependência, comunidade ou acção recíproca entre agente e paciente);
b) Reguladores Subjectivos: Modalidade ou Postulados do Pensamento Empírico em Geral (possibilidade / impossibilidade, existência / inexistência, necessidade / contingência).
Estes princípios classificam as Categorias segundo uma
II- Tábua das Funções Lógicas do Entendimento – Títulos:
A) Quantidade dos Juízos: universais, particulares, singulares;
B) Qualidade dos Juízos: afirmativos, negativos, indefinidos;
C) Relação dos Juízos: categóricos, hipotéticos, disjuntivos:
D) Modalidade dos Juízos: assertóricos, apodícticos, problemáticos.
Ao conjunto correlativo dos conceitos e das funções dá-se o nome de estrutura transcendental do entendimento. É ela que enquadra a possibilidade da constituição de conhecimentos a priori e das determinações conceptuais geométricas a priori do espaço, assim como fornece a moldura dos conhecimentos empíricos objectivos possíveis segundo o modelo da ciência mecânica e da lógica da identidade ou não-contradição.
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