Uma Introdução à Metafísica de Aristóteles – Fonte Principal do Pensamento Escolástico Medieval

 

Luis Michel desvenda no seguinte texto parte dos motivos do sistema de Aristóteles: «Permanecendo fiel ao esquema de Empédocles dos quatro elementos: terra, água, ar, fogo […], Aristóteles considera de um ponto de vista novo as estruturas do mundo sensível. Para ele, os elementos não são corpos primeiros, mas aspectos de uma substância única, a “matéria primeira” (‘proton hyle’), passível de formas diferentes segundo as qualidades que a afectam.»
Num esforço de tornar imanentes as Ideias de Platão (séc. V-IV a. C.), sem contudo abdicar da primazia ontológica (substância e logicidade do Ser, independente do sujeito que a pensa) do espiritual sobre o material, e num esforço simultâneo de ordenar o real segundo causas interiores à natureza intrínseca das coisas, o que todavia não é pôr de lado intuições mágicas (recurso a forças de vontade paranaturais e sobrenaturais) e místicas (participação da alma na essência supranatural da coisas e crença da influência ideal do espírito na natureza). Se constituiu um quadro teórico de operações da inteligência, circunscrevendo o mundo e a resolução dos seus problemas à lógica gramatical do conceito-substância, ainda o confunde com o “princípio vital”, “tendência” das coisas, inorgânicas, orgânicas, inteligentes, “racionalizado” na noção de hilemorfismo, unidade indissociável de matéria e forma ou fim.
 

Esta doutrina do Ser acabou, no ocidente medieval e na civilização muçulmana sua contemporânea (devido sem dúvida à influência desta), por levar a melhor sobre a metafísica matemática, do número e da figura, concebida por Platão, na sequência mística e contemplativa da escola de Pitágoras, semente de racionalidade cujas circunstâncias históricas impediram de ser deitada à terra para florescer na prática (fora algumas excepções pouco encorajadas, mas que prefiguravam a concepção e o método científicos modernos: Arquimédes, Héron, entre outros).
 
 
Desde Galileu (séc. XVII), pelo contrário, em parte resultante da revivescência neoplatónica do Renascimento e da subsequente apropriação dos seus princípios especulativos pela atitude prática da primeira revolução industrial (tear mecânico, instrumentos de navegação, mecanismos ópticos, etc.), que se foi começando cada vez mais a pensar que as formas não estão aqui a fazer nada: apenas duplicam a matéria, pois esta pode ser concebida como sendo em si-mesma realidade estruturada, quantificada e dimensionada.
Poder-se-ia até prescindir da categoria filosófica e debatida de “matéria” e pensar apenas os dados sensíveis, fenoménicos, evidentes a todos na sua manifestação, instrumentalmente comprováveis, enquadrando-os numa referência impessoal assim como em grandezas quantitativamente determinadas e relacionadas (positivismo – doutrina que resume o conhecimento à descrição e análise lógico-matemática dos dados sensíveis como seus objectos últimos –, ainda filosoficamente inconsciente, em combinação ambígua com um neoplatonismo de identificação da matemática com a realidade supra-sensível).
Foi, pois, contra as formas verbais, ou melhor, contra o verbalismo substancialista, que a ciência moderna teve que combater.
As formas apenas têm o papel ideológico (argumento com função social) de:
a) degradarem a matéria, como substância corruptível e suja;
b) de qualificarem verbalmente características perceptivas e noções sociais (paralelismo nome-substância);
c) de reduzirem os objectos à composição de qualidades perceptivas elementares, indecomponíveis;
d) impedindo assim a análise dessas qualidades em processos mais completos e fundamentais, inacessíveis à percepção directa e estruturalmente diferentes dela (o “fogo” seria uma substância elementar, definitivamente caracterizada por um par de entre as quatro qualidades sensíveis fundamentais (quente-seco), uma das quatro combinações possíveis, e pelos seus efeitos sensíveis);
e) expressando (por b)) a crença na identidade de forma e conteúdo entre o real e os nomes ou conceitos, ou formas gerais induzidas da percepção sensível, entre o ser e a classificação fundadas na percepção sensível (os seres são ordenados segundo uma hierarquia arborescente, eterna e imutável como os nomes que fixam em conceitos passados de geração em geração qualidades sensíveis);
f) em suma conduzindo à ideia da imutabilidade desse universo qualitativo, porque as formas, substantificadas, só podem permanecer idênticas a si-próprias.
As palavras, os nomes, as formas sintácticas, de que Aristóteles privilegiou a relação predicativa de contido a continente, a classificação formal hierárquica, foram entendidos por ele e pelos seus seguidores como a sintaxe e o vocabulário reais (a ontologia) do mundo inteiro, como se a linguagem expressasse directamente a sua ordem objectiva.
Sabe-se que, como diz Ernest Gombrich, um esteta contemporâneo preocupado com as relações entre a percepção e a ideia, que «Esta confiança na estabilidade das coisas num mundo mutável está profundamente enraizado na estrutura da nossa linguagem e formou a base da filosofia humana. A distinção aristotélica entre “substância” e “acidente” é apenas a codificação dessa fé num mundo estável, modificado por acidentes quais sejam o ângulo de visão, a reflexão da luz, ou a variabilidade da distância.
«É fácil mostrar que a nossa leitura das imagens e a nossa leitura das situações naturais na realidade procedem da substância para o acidente.», por exemplo da forma do cão para os aspectos peculiares “deste” cão.
Desconhecendo igualmente a determinação histórico-social do pensamento e fazendo-o em simultâneo depender da constituição de uma realidade a que o homem pertence e que dá forma e conteúdo ao seu conhecimento, Aristóteles considera-o, na comunidade do intelecto agente, espírito imortal da espécie e forma do real, uma apreensão do Ser, definitiva na sua simplicidade evidente.
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