Sexo e Fidelidade Canina

 


Às vezes dou por mim a pensar que a fidelidade é uma qualidade canina. Não a fidelidade a uma ideia, a um valor, à palavra dada, a um compromisso afectivo, financeiro, laboral. etc. São fidelidades que só os homens podem compreender, constituir e assumir.
Falo da fidelidade que vai além do racional, que por isso fica aquém da razão e quase se assemelha ao instinto.
O instinto é um comportamento impulsivo e coordenado para um fim que consiste na expressão da natureza do bicho, uma natureza que o animal realiza na ligação à sua própria natureza inorgânica, o meio para o qual foi feito e está adaptado e donde retira os seus nutrientes, a fisionomia e a conduta que lhe permite sobreviver. Não foi moldado nem por Deus nem pelo Governo ou por qualquer imperativo deconcorrência empresarial.
Ora, até os compromissos humanos, que são à partida racionais, ou seja, que consistem em relações estáveis constituídas e fortificadas por certas necessidades humanas, em meios de sobrevivência, acabam por se tornar em fins parciais de um todo social. Este, em última análise, determina esse sentido da vida que muitos julgam poder aspirar só no além, dada a injustiça inerente à sociedade, às diferenças de capacidades e à impossibilidade de cada qual conseguir ocupar o lugar que julga pertencer-lhe. A este propósito é também inútil referir a finitude da existência.
Nem sequer a sociedade comunista poderá, e de resto não quererá, instaurar um reino de perfeita identidade de ideias e de objectivos, assim como de ausência de problemas que pudessem determinar os nossos mais caros anseios. Há quem diga que semelhante organização espontânea seria a mais perfeita forma de ausência de sentido, e de impossibilidade de facto. Em todo o caso, os comunistas aspiram à realização plena das faculdades humanas e só a antevêem num mundo de igualdade no acesso aos bens sociais em termos que nunca impeçam a diversidade dos trajectos. Um ideal, talvez, para o nosso estádio de desenvolvimento actual, uma quadratura do círculo que nem sequer podemos conceber claramente.
Isto tudo dir-se-ia ser perfeitamente irracional para quem pensa o mundo à medida dos factos, dado que esses indivíduos dirão que contra factos não há argumentos. E esses das duas uma. Ou acreditam à partida, como Leibniz, na racionalidade original e terminal do homem, e que tal racionalidade é o que é pois o que é não pode ser senão o que é, consistindo na forma de uma ordem que impede que todos andem sempre à pancada e que morram de fome e de tédio, para já não falar no fim da Net. Ou, opostamente, crêem no carácter absurdo e irremediável dos projectos humanos, condenados, de origem, a tomar os sonhos pela realidade e a fazer daqueles falsos fins instrumentos de uma razão anti-humana mas opressivamente social.
 
 
No entanto, observamos nesses meios, nessas ferramentas da ordem dita racional, as quais genericamente se podem traduzir pela palavra fidelidade, consequênciasinesperadamente opostas aos objectivos para os quais foram concebidas por obra e graça duma harmonia pré-estabelecida entre uma horda de arruaceiros e átomos burgueses individualistas sem remissão.
Falo em particular da chamada fidelidade sexual. É que, bem vistas as coisas, a razão tem sexo e não funciona apenas com ideias.
Pergunta-se. Porquê atribuir um valor à fidelidade conjugal? Não somos donos do nosso corpo? Ou será que o Estado e a Igreja, apoiados por polícias dedicados muito bem situados no interior das famílias e das escolas, direi mesmo por todos nós, sicários da nossa má-consciência, da nossa má-fé, são os proprietários legais do nosso corpo?
E para que fins? Para não cobiçar a mulher do próximo? O marido da frígida? E se não houvesse mulher do próximo? E se a frígida não tivesse marido? Para assumir o companheiro como um fim e não apenas como um meio, para me expressar como Kant, que todavia não admirava tanto como se pensa os valores pequeno-burgueses?
Mas então o sexo é um meio para um fim que é respeitar o outro como autónomo tal como este nos deve respeitar as nós mesmos?
Estranho meio para um objectivo tão humano quanto sublime! Não poderíamos ter encontrado melhor instrumento do que o sexo para respeitar o companheiro na sua liberdade?
E se ambos se declaram mutuamente fidelidade à chamadalibertinagem sexual, ao gozo sexual dos corpos através da partilha e do gozo dos outros como um dos termos do respeito pela autonomia de cada um sem compromisso que não seja o de despertar e desfrutar dos prazeres recíprocos, em que a liberdade significa, sem que haja necessariamente promiscuidade (para quê parceiros incontáveis se a quantidade não significa qualidade?), a escolha de amantes apenas pelo desejo de descoberta do outro e de si enquanto seres de sensações, emoções e valores. Esses seres para os quais o desabrochar recíproco do corpo é indispensável ao reconhecimento de si e do outro quais entes autónomos, inteligentes e desejantes.
 
 
Gostamos pouco de nos compararmos com os animais. Porém, dizemos que os libertinos se comportam como animais. É um absurdo. Os animais não são libertinos. É verdade que alguns macacos (os capuchinhos? – estranho nome para o seu modo de vida) se dedicam com regularidade a orgias espontâneas para descontrair os nervos e apaziguar eventuais conflitos. Contudo, o facto deles não pensarem que estão a fazer algo de mal impede que lhes atribuamos essequalificativo com o tom depreciado que usualmente usamos quando o referimos a tais malandrices praticadas pelos homens.
Ó alma abençoadas! São orgias naturais. Actos de bondade natural, tão natural que nem se pode chamar de bondade.
Pelo contrário, os libertinos fazem do sexo algo diferente de um meio de reprodução, algo de diferente de uma obrigação conjugal como instrumento para firmar os laços de fidelidade a que uma boa ordem social obriga.
Eles fazem do sexo uma arte. O sexo libertino, que só se fideliza a quem é fiel à realização integral do indivíduo, pratica a descoberta das potencialidades, das virtudes ocultas da humanidade que a cultura da felicidade inscreve no corpo e que se pode resumir como uma síntese de sensações, de emoções e de valores, sem a qual não há conhecimento de si nem dos seus semelhantes. É o refinamento dos sentidos (de todos os sentidos), enquanto saber da sua materialidade viva e consciente, tal como o saber teórico é o refinamento do cérebro em termos da sua capacidade de conhecimento.
Kant falava do casamento como de um contrato para uso mútuo do corpo, assim tornado propriedade legal e económica. Kant era demasiado indiscreto quanto à natureza das relações burguesas, sempre que estas têm de pôr em questão os afectos simples entre as pessoas.
Todavia, o corpo não pode ser um uso como se fosse de um simples meio. Meio será para uma visão burguesa das relações humanas e sociais. Meio será para quem entende a sexualidade como cimento físico da relação conjugal. Meio será, e será, assim, degradação do sexo. Sexo degradado, e portanto, ofensa à pessoa na sua verdadeira essência, é a fidelidade a um compromisso que aprisiona o corpo, e a alma (coisa muito sensível) com ele.
É bem certo que nunca se falou como agora de sexualidade tão abertamente. Mas fala-se de sexualidade vista do lado médico, preventivo ou como forma de manter a mente e o corpo saudáveis, e neurofisiológico, visto como um fenómeno de actividades de acasalamento de neurónios entre várias tribos sediadas em diferentes lobos cerebrais, que por sua vez estimulam as zonas erógenas do corpo desfazendo-se em maviosas hormonas.
Teoriza-se academicamente o sexo como forma de exorcizar o seu poder disruptivo.
Pratica-se o sexo como uma necessidade biológica definida medicamente e, de maneira complementar, como expressão do dualismo corpo-alma que ainda auto-ilude e obceca.
Faz-se pornografia, modo de inocentar o sexo do pecado, embora se condenem o pornógrafos por descerem ao nível duma prática em que o mal parece já não ter parte mas é, de jeito paradoxal, revertido numa fonte de prazer. O grafismo nu dos dos filmes não pode ser obsceno. É antes uma fantasia de Citera.
O homem é contraditório, tanto quanto a sua auto-imagem dualista. Por causa disso, a grande literatura erótica desapareceu e, com raridade puritana, é escassamente republicada. É que a literatura liga a mente e o corpo, a moral e as pulsões, a razão e as paixões numa unidade indissolúvel que repugna, por tal motivo, à maioria dos indivíduos.
Não se deve ler aquilo que se pratica. Porquê? Porque a organização social do trabalho e a distribuição da riqueza produzida exige a separação desses momentos todavia impossíveis de desligar por inteiro e, dessa feita, opostos.
O sexo não é inocente, pois é culpado.
 
 
Porém, eu falo de sexo, não propriamente, como antes referi, da sexualidade entendida medicamente como uma necessidade biológica e maculada das perversões que nos atiram sempre à cara para, de jeito muito católico, nos enojarmos de nós mesmos, cujos motivos todavia nunca explicam senão como resultando de meros distúrbios orgânicos, a fim de o diagnóstico soar a moderno e higiénico, além de ocultarem ideologicamente os motivos desses classificados desvios à norma.
Falo, pelo contrário, do sexo como a manifestação de um imaginário que se procura produzir no requinte culturalmente desenvolvido da fusão da carne e do saber de que somos feitos, dos valores libertários, dos valores emancipadores das virtualidades prometaicas da nossa existência, das emoções, dos desejos e práticas de todos os modos e graus de excitação, da subtil à mais paroxística, no convívio, no banquete e na amizade completa de nós e dos nossos próximos.
Esse sexo, o sexo verdadeiro, humano, à vez cultural, espontâneamente inventivo e deliciosamente perverso, não medicamente assistido, não pedagogicamente normalizado, não mediaticamente fantasiado nem moralmenteregulamentado, só o vejo na pouca grande e maldita literatura, raramente publicada, de autores como Safo, Marcial, Pièrre LouysApolinnaire, Bataille, Pasolini.
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