Homossexualidade e Paneleirices da Ciência – “Coisa Repugnante”, Doença ou Distracção Genética?

 
Um artigo “O sentido do sexo”, da autoria de William H. Clode, publicado na edição de Janeiro de 2011 da Revista da Ordem dos Médicos continua a suscitar a indignação e exigências de retratamento por algumas organizações cívicas. É uma peça interessante esta, que relata o acontecimento:
«Em declarações à agência Lusa, o bastonário da Ordem dos Médicos, José Manuel Silva, recusou-se a dar uma opinião pessoal sobre o artigo, no qual os homossexuais são classificados como “doentes”, “defeituosos”, “anormais”, “portadores de taras”, com “condutas repugnantes”, “higiene degradante” e que requerem “correcção”.
“A minha opinião é irrelevante para esta situação”, disse o bastonário, lembrando que a Revista da Ordem “é plural e livre” e que “os artigos de opinião são da responsabilidade dos seus autores”.
O artigo assinado pelo director do Instituto Português de Oncologia insinua que a homossexualidade acarreta doenças e desvios e que, portanto, estas pessoas não têm sequer direito à dignidade nos seus afectos.»
O médico que assinou o artigo publicado na revista da ordem não podia ter sido mais política e neocientificamente incorrecto.
Então não é que ele vai contra o paradigma científico actual que manda atribuir a causa de qualquer desvio de comportamento a respeito da maioria da gente a qualquer coisa prefixada ou como “doença” (vício, conduta aditiva ou compulsiva, do sexo, da droga, do roubo, das compras) ou como desvios da ordem vulgar do mapa genético humano, com as correspondentes alterações hormonais e seus efeitos volitivos, éticos e estéticos (vício, conduta aditiva ou compulsiva, do sexo em geral, da droga, do roubo, do tabaco, das compras, da homossexualidade, da bissexualidade, da bigamia, da pedofilia, de votar à direita, de votar à esquerda, etc)?
Poderíamos talvez, por esta ordem de ideias, afirmar que coisas como a heterossexualidade, o casamento com pessoas de género diferente, a necrofilia, o assassinato, a preferência pelas mulheres de usarem saias ou calças, o gosto pelo bacalhau, a paixão amorosa e a paixão pela carne crua ou fumada do suchi (japonês, porque agora também há o alentejano, descoberto por um restaurante no Bairro Azul de Lisboa) também são devidas aos acasos das combinações genéticas, pelo que a ética estaria desde já despedida, e mesmo sem direito à reforma.
Claro que este médico já se interrogou sobre a célebre questão “choramos porque estamos tristes ou estamos tristes porque choramos?” e foi por isso que declarou a homossexualidade, não como um resultado comportamental de uma modificação biológica que o acto de concepção não previa (“Ó Maria, é rapaz ou rapariga?”) nem o seu agente pode controlar, pelo que não pode ser sujeito moral das suas condutas “bizarras”, mas, nem mais nem menos, como um “nojo”.
A “conduta repugnante” é para este médico um termo científico! Como se sentirão os seus colegas, que sacudiram as questões éticas, sociais, antropológicas, culturas e psicodesenvolvimentistas para debaixo do tapete?
É preciso ter lata! Já não basta agarrar em genes, na sua expressão, nos neurónios e nas hormonas e fabricar o conceito de “comportamento compulsivo”! Temos de voltar a trazer a moral, a cultura, a política para o seio do debate sobre a “diferença”.
E é isto que é verdadeiramente aborrecido.
Anúncios