Deolinda: “Que Parva Que Eu Sou” – Quem Te Fez Parva?

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Vai para dois anos, uma banda popular – por sinal medíocre, como que para assinalar o valor destes tempos – acertou em cheio na mentalidade conformista, preguiçosa e oportunista de um número significativo de jovens (não de todos, é evidente) destas últimas gerações.
Mas os pais também têm responsabilidade neste estado de coisas, que não se explica pelo desemprego, nem por falta de lugares em profissões aliciantes, nem pelo prolongamento dos estudos.
Lembro-me de na minha juventude ter conhecido adolescentes e jovens, sobretudo alemães mas igualmente de outros países, de dezoito, vinte anos, filhos de famílias sem carências, que já faziam vida própria, com casa e estudos pagos por empregos, normalmente a tempo parcial. Conheci mesmo jovens portugueses que abandonavam o conforto familiar para poderem crescer como homens e mulheres, começando a trabalhar sem deixarem de estudar. Pode não ser o melhor para muitos jovens antes de completarem os estudos, mas será certamente uma boa atitude a partir do momento em que eles terminam. Mas são casos que denotam uma maturação mais rápida do que é costume observar-se nos tempos actuais, que têm, claro, as suas excepções.
Certamente que as crianças e os adolescentes não crescem sozinhos. A companhia e as actividades com os mais velhos, o convívio com os seu valores e comportamentos, muitas vezes contraditórios, que dão substância, assento concreto, à irreverência, à rebeldia positiva, distinta da revolta por mera recusa de assumir obrigações e responsabilidades, o saber e o saber-fazer que se adquirem na participação nas práticas dos adultos, constituem momentos essenciais do crescimento. Sempre me fez impressão que um dos modelos mais bem conseguidos dessa convivialidade necessária – o escutismo – esteja ligada, sem alternativa, à Igreja. Em França, existem, segundo me disseram, organizações de escutismo laico. Faz-me também impressão que não se incentive mais os adolescentes à participação em actividades cívicas. Faz-me também impressão que não se lhes dêem hipóteses morais e materiais de associação livre e espontânea, com o objectivo de constituírem eles mesmos, desde muito cedo, organizações, talvez mais informais que formalizadas, dedicadas à concretização de projectos através dos quais possam ir explorando e testando as condições de existência e de possibilidade das formas de viver imaginadas. Porque é típico da juventude a necessidade de pôr em prática hipóteses de vida. Também porque é típico dela o receio de as assumir. Tal acontece por não terem explorado ainda um universo de possibilidades melhor ou pior adequadas às suas potencialidades e circunstâncias. Tal acontece também pela inexperiência e pelos conflitos mais ou menos inevitáveis com as formas de vida estabelecidas. Estas formas de vida sempre, e cada vez mais, em crise por força do desenvolvimento tecnológico e económico que arrasta mudanças nos valores éticos.
Quando o jovem entra na puberdade e vai sendo protelada indefinidamente a entrada na idade adulta, os rituais simultâneamente simbólicos e práticos socialmente instituídos do passado já não estão aqui para suportar uma mudança integrada de estatuto etário. Foi esquecida a necessidade de rápida renovação geracional e laboral. Foi prolongada ou, dirão alguns, socialmente inventada, a adolescência muito para além dos limites do desenvolvimento fisiológico e cognitivo. A sociedade deixou de ter precisão da força de trabalho dos mais jovens, exigindo-lhes antes mais anos de aprendizagem, condicionada aos imperativos de um mundo adulto. Este, o mais das vezes, despreza os seus sonhos e ignora os seus protestos. Por tudo isto, surgem então as derivas auto-iniciáticas, a iniciação à idade adulta à margem dos adultos, precisamente pelo excesso de controlo dos adultos, que, ao mesmo tempo, os afastam das suas decisões. As orgias de drogas iniciáticas dos adolescentes são afinal um produto do puritanismo social a que os adultos querem obrigá-los.
É apenas uma aposta. Mas talvez seja porque os filhos, de tão escassos, por se terem levantado outros valores (um bom carro, uma casa último modelo, o preservar do livre-arbítrio de lançar o passado e os compromissos às urtigas, de preferência ao determinismo de ter uma criança), tornaram-se, coisa curiosa, afectivamente valiosos, logo super protegidos de todos os desafios da vida que os fariam crescer para a autonomia. Mas talvez seja igualmente porque os adultos, pela exacerbação do individualismo nos nossos tempos, adulam o sonho burguês, contraditório numa sociedade burguesa, de uma juventude irresponsável num mundo de responsabilidades crescentes. Algumas destas são razoáveis, mas outras muito para além do razoável quando se trata apenas de produzir cada vez mais num ciclo de Sísifo (produzir, consumir, produzir, …). São duras responsabilidades compensadas pelo feiticismo tecnológico e pela projecção nos filhos das suas fantasias de boa vida. E assim os pais, temendo envelhecer e perder as promessas de felicidade que a tecnologia ilumina, que a propaganda ideológica e a publicidade incentivam, desejam oferecer aos filhos as fantasias dos seus próprios valores, evitando-lhes todos os riscos e excluindo os mais jovens do mundo, afinal desiludido, dos adultos. Até porque a sociedade, e a família, já não os querem para o trabalho.
Ficar em casa até aos vinte e cinco, trinta anos ou mais é uma maneira confortável de adiar a vida adulta, com todas as suas experiências sem rede e responsabilidades sem desculpas. É realmente parar na vida, ficar na estação e decidir não conhecer o mundo, a não ser em turismo.
É também inconsciência social por parte dos agentes sociais, que incentivam o prolongamento indefinido da adolescência, um contributo para a falência da solidariedade do Estado providência e um sinal do egoísmo que há-de marcar as gerações actuais e futuras.
Junte-se a isto o facto da canção ter uma letra que também denuncia, de maneira irónica, a contradição que há numa autonomia que se conquista à custa da opressão e exploração empresarial: calar e fazer, mais horário e menos lazer, instabilidade para não reivindicar, recibos-verdes com pouca esperança.
É uma pseudo-democracia, que fica fora do trabalho (uma dimensão essencial da existência humana) e que se mete dentro duma urna de voto de quatro em quatro anos. Uma democracia posta de quatro.
“Sou da geração ‘casinha dos pais’,
se já tenho tudo, pra quê querer mais?
Que parva que eu sou
Filhos, maridos, estou sempre a adiar
e ainda me falta o carro pagar
Que parva que eu sou!
E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.
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