Acordo mas não para a Luz – Poema de Pedro Mota, A Matéria Humana

 


LXXXI
acordo mas não para a luz
quando o Sol ergue as suas mãos e desenha o mundo
arranca-me da terra
arranca-me a terra
levanta-me a canga
põe-me o pé em cima
ergue-me sua cabeça
mete-me seu arrasto
a máquina de me lavar
a máquina de me levar
e de secar a gentalha
muito bem apropriada
está pronta a guilhotina
para caírem no cadafalso
ideias à cabeçada ao dia
os sonos que tive vão-se com o duche
que nos mete em sentido ante o crime
de olhos vigilantes do dia das normas
esses sonos de que eu não sei
uma lembrança de cá por fora
das regras desenhadas
à contra-luz do astro fixo
trave das leis do emprego
escolhido pelo caso acaso
definido pela lei mercado
marcador de horas diurnas
a lidar toiros apaziguados
pela luz que cria sombras
somos sombras do teu eixo
Sol para ti ensonado sim
mas para mim bem acordado
gostaria de ser um astro errante
Sol que não erras se me caças
gostaria de estar em sono vivo
morder-me com o desejo claro
da minha apropriada vontade
de não viver para ti o teu não
de ficar lúcido na minha noite
donde os sonos aclaram outras
formas de luz que não as tuas
começar a desenhar a prístina
árvore a ramificar o novo sim
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