A Hybris e o Destino de Carlos Castro

 

Em dois comentários publicados no MSN, dia 11-01-2111, como em inúmeros outros, bem piores, que aqui não cito por vergonha da intolerância que manifestam da generalidade do povo português (os comentários anónimos, covardes, na Net, a propósito de uma incontável variedade de assuntos, mereceriam um estudo sociológico acerca do verdadeiro progresso moral desta gente), em dois comentários, dizia, a propósito do assassinato do colunista Carlos Castro, pelo qual eu não nutria qualquer simpatia intelectual mas grande admiração pela frontalidade com que assumia nas palavras e na acção os valores que enquadravam a sua vida, leio parte da tragédia da Humanidade, não apenas a do nosso pequeno fétido jardim.
Os seres humanos não são aquilo que fica registado em estatísticas, por melhores que sejam no uso de técnicas de detecção de falsas opiniões (por inconsistência nas respostas em perguntas semelhantes, pelo anonimato, etc.), pois mesmo um inquérito anónimo é interpretado pelo vulgo com um misto de superstição, de respeito institucional, em suma, do receio de haver um olho perscrutador no papel de cruzes e na sua própria alma, pronto a condenar quem não se pauta pelo politicamente correcto. Um resquício de Inquisição e sobretudo do castigo dos poderosos mundanos perversos e, ironicamente, das forças fácticas e espirituais da Igreja.
Nas estatísticas vem quase sempre o que deve ser pensado e não o que se pensa. Mas, por estranho que pareça, nos comentários na Net (autêntico acervo do que mais baixo o ser humano regista das suas ideias íntimas; só por isso que nos valha ela) as pessoas abrem as portas da sua alma e derramam sobre os outros toda a sua repugnante e mesquinha bile, todos os seus ressentimentos contra o desrespeito pelas normas que, mais ou menos inconscientemente, foram levados a fazer seus, desde a sua infância, como hábitos simultâneamente incarnados e sacralizados, reproduzindo pela eternidade das gerações as ancestrais vilegiaturas contra tudo o que ameaça a ordem social, para mais sublimada no visionário religioso. Aqui, o medo e a superstição acabam por serem vencidos pela necessidade de, a coberto, libertarem o impulso de todo o seu ser em se manifestar como aquilo que realmente é. Porque não põem apenas uma cruzinha, simbolicamente mágica, mas têm a possibilidade irresistível de um momento de poder sem consequências. Sem consequências para si, que só para os alheios, crêem eles. Mas será assim?
Ora, o que tem isto de trágico é o facto de os homens, como nas peças de Ésquilo, Sófocles e Eurípedes, não saberem quem são quando oprimem, ameaçam e ofendem os seus semelhantes, quando a a sua maldade se converte em malevolência e a natureza daquilo que são pessoal e livremente consiste na expressão mutuamente destrutiva das relações entre todos, na atomização da sociedade, no isolamento espiritual terreno em prol de uma comunidade transcendente ou de uma ilusória unanimidade colectiva.
A Hybris, o excesso, não é de quem é diferente, não é de Antígona mas de Creonte, não é de Medeia mas de Jasão, não é de Clitmnestra mas de Agamémnon, não de Carlos Castro (passe a comparação excessiva) mas de todos os que ganharam ou pretendiam ganhar à sua custa. E esse Destino que os Gregos e até os seus deuses tanto respeitavam, apesar de não o poderem deixar de cumprir por desconhecimento (afinal por causa das grandes contradições que os abalavam), não passa do efeito dessa ignorância que os homens têm de si mesmos e que os levam a fazer desta bela vida por vezes um mundo de inferno.
(Com erros ortográficos e tudo o mais):
«O que se me oferece dizer, é que tenho pena do miudo (20 anos). Este miudo e outros como tais são alvo de predadores com o triplo da idade. Sabem como se fazem as coisas, para os levar aquilo que que a sua genética não quer. A pressão é tanta, com ofertas, viagens, etc, que eles se sentem en****rralados. A explosão de revolta muitas vezes dá maus resultados…»

«Em relação ao acontecido tudo isto só acontece porque uma grande parte da sociedade enveredou por alguns caminhos que levam à degradação humana muito embora não seja vista desta forma por muitos mas os factos falam por si mesmos. A ter conhecimento deste triste acto não posso ficar calado e decidi deixar aqui uma nota para todas as pessoas do nosso País. Peço a toda a gente que pegue numa Bíblia sem preconceitos e veja o que está escrito em romanos 1:1a32 mais adiante em Apócalipse 21:8. Onde iremos parar se as portas continuarem abertas a certas pessoas com o apoio das próprias leis feitas pelos nossos governantes?»
Anúncios