Macacos Como Nós Somos

 

Será assim que são feitos vários dos documentários sobre a Natureza no Canal Odisseia e outros, como o célebre das Suricatas e o mais recente Homanimal? O irracionalismo animista em todo o esplendor ou apenas uma fantasia para divertir ou cativar para a defesa da Natureza, ou então para nos convencermos de que a nossa própria natureza é na selva e que não passamos de um macaco nú? Talvez tudo isto. É, com efeito, o que parece, pela divulgação de algumas das más práticas científicas de 2011. Mas é o que as pessoas querem. Vejo-o pelos meus alunos, tão crédulos como as velhinhas sentimentais que conheci na minha mais bem céptica infância. Já o sabia Francis Bacon no século XVII, como se pode ler, se quiserem, nos seus Ídolos da Tribo do Nuvum Organum.
 
 
 
“História macaca provoca demissão em Harvard. Oito actos de má conduta puseram fim à carreira de Marc Hauser, pelo menos em Harvard, onde era uma referência na Biologia do Comportamento. Em Julho, quando se demitiu, foi o fim de uma história de quatro anos.O psicólogo comportamental era uma referência. Estudava a evolução de características humanas como moralidade, matemática ou linguagem, olhando para os primatas e procurando a origem destas características. Descobriu que os saguins-cabeça-de-algodão se reconheciam ao espelho e conseguiam identificar padrões diferentes de vogais e consoantes. Verificou que os macacos-rhesus podiam ler correctamente gestos humanos. Publicou em revistas científicas com impacto: Science, Proceedings of the Royal Society, Cognition. Mas o cientista era criticado pelas suas experiências, por retirar conclusões ousadas a partir de observações subjectivas dos comportamentos dos animais que testava. A descoberta dos macacos que se reconheciam ao espelho, de 1995, foi uma delas. Hauser chegou a repetir testes sem conseguir replicar o observado. No entanto, continuou a publicar um artigo por mês e foi construindo um corpo de estudo que era seguido pelos colegas da área.Mas, em 2007, três alunos graduados do seu laboratório desconfiaram da forma como Hauser utilizou dados e denunciaram o caso a Harvard. De seguida, os computadores do investigador foram levados e o burburinho à volta do cientista explodiu. Três anos depois, a universidade concluiu que havia oito actos de má conduta que envolviam “aquisição, análise e retenção de dados, e a descrição de metodologias de investigação e trabalho”. Colegas da área criticaram a universidade por não dar detalhes sobre os erros e lançar uma sombra sobre este campo de investigação. Hauser foi obrigado a rever os dados de três artigos, um deles foi retirado. Passado um ano, demitiu-se.” (Clara Nicolau Ferreira, publicado no Público online 30-12-2011)
 
Não há melhor, para reflectir sobre a metamorfose a que sujeitamos na nossa mente os animais, do que ler este texto dum grande etólogo francês:

 
 
BORIS CIRUNIK
MUNDO DE CÃO E MUNDO DE HOMEM
«O meu cão e eu possuímos um armário Louis XIII. Encontra-se instalado na sala de jantar. Maciço, pesado, sombrio, austero e magestoso. Compreendo bem por que o meu cão se empenha a evitá-lo, em contorná-lo. A sua geometria é dissuasiva, não é bom introduzir-se nele! Todavia, é pura ilusão, o meu cão nunca viu este armário Louis XIII, tanto como não viu os sofás Louis-Philippe e a escrivaninha Directoire… O que seria Louis XIII para um cão? E este armário, o “meu” armário: o que me vem da família da minha mulher, que a sua tia lhe ofereceu um dia, fazendo notar, com ar entendido, que era um móvel “de época”, peça preciosa de um património que seria preciso transportar com infinitas precauções… Não, este armário o meu cão jamais o encontrou, porque ele está infiltrado de palavras, marcado por sentimentos, portador silencioso de toda uma história que lhe permanecerá para sempre estranha.
«Esta “coisa”, na medida em que ocupa um lugar no “meu” mundo, surge-me como um “objecto” desse mundo: uma realidade que não se encontra apenas situada no espaço-tempo físico que partilho efectivamente com o meu cão, mas ancorada em múltiplas redes de sentidos, atravessada por um fluxo de significações que lhe conferem aos nossos olhos a sua consistência, a do “nosso” caro armário Louis XIII. Dir-se-á pois que o meu cão se contentaria em perceber a “coisa” como tal, a “coisa em si”, que tropeçaria na sua existência bruta, que se reduziria ao seu ser físico “pura”: a sua forma imponente, o seu volume, a sua densidade, as suas propriedades neutras. Eis o antropocentrismo que se torna em antroposnobismo! Porque motivo o seu “mundo”, na medida em que se encontra desprovido das significações que conferem forma, substância e sabor ao meu, ao da minha mulher e da sua tia, também ao dos amigos que me visitam, se desenrolaria num deserto de sentido? Mas como nos podemos assegurar do contrário? Poderei abolir em mim toda a humanidade ao ponto de me fazer cão ou, por assim dizer, “espírito de cão”? Sem dúvida que é impossível instalar-me pela imaginação numa visão canina do mundo; mas posso pelo menos efectuar sobre as coisas algumas manipulações simples que provarão que este mundo de cão não é, tanto como o meu, redutível ao universo físico. Este mundo aparece-lhe igualmente preenchido de “objectos”, mas são “objectos de cão”. Basta, por exemplo, que coloque um pedaço de carne no meu armário Louis XIII: em vez de o contornar, o meu cão vai acometê-lo, saltar diante dele, salivar, rosnar, ladrar; o móvel terá perdido a sua neutralidade aparente, ter-se-á tornado, para ele, obstáculo significante, se bem que esse sentido adira ainda de muito perto à estimulação biológica.
«Assim se apresenta o “mundo” dos animais, já penetrado de sentido, mesmo se esse sentido não é o nosso. […] Desde que percepciona, o animal confere sentido às coisas que constituem o seu mundo. No universo físico ele antecipa um material a partir do qual constrói os seus “objectos” próprios.» (Idem, La Naissance du Sens, Hachette, Paris, 1995, pp. 25-26). […]
«Os etólogos devem abster-se de tomar o mundo animal por um mundo físico-químico, mas, pelo contrário tentar, por observações dirigidas e comparações, assinalar o sentido que já nele circula. É preciso todavia evitar uma outra armadilha simétrica e inversa, bem mais espalhada, popular e lamentável: a armadilha antropomórfica que nos conduz “espontaneamente” a interpretar o comportamento animal em termos humanos.
«Este defeito de pensamento é de tal modo insidioso que se apodera de nós por uma das nossas fraquezas mais frequentes: a emoção que ressentimos na percepção do outro. Tomemos o caso, tão familiar, do gato. Vós o vêdes esfregar-se contra os objectos, depois tremular amorosamente contra a vossa perna. Como evitar experimentar agrado ao vê-lo assim, com o seu pêlo, testemunhar a sua afeição? Todavia, a realidade nada tem dos sentimentos que projectais sobre ela. O manhoso possui uma glande olfativa na parte externa da sua boca: ao esfregar-se, ele marca-vos com o seu odor e assim procede metodicamente à construção do seu mundo familiar. Doravante assim marcado, este mundo no qual vos instala sem saberdes não o angustiará mais, e poderá viver nele em segurança. Não é pois para vos agradar que se vem esfregar; ele assegura-se, muito “egoistamente”, do seu próprio conforto afectivo!» (Ibidem, pp. 35-36).
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