Ideologia Juche, Nossa Senhora de Fátima, a Censura ou Portugal e a Coreia do Norte

 

É curioso saber que, de vez em quando, censuram os meus comentários no Público Online. Qual a razão? Porque são objectivos e incómodos, porque não são cegamente pró-capitalistas ou disparatadamente anti-americanos mas não anti-complexo-político-militar-industrial-estado-unidense?

 

Porque escrevi que, mais absurdo do que adorar os pássaros é mortificar o corpo em adoração a extraterrestes da religião cristã, como o dito milagre pastoral de Fátima encenado pelo complexo fascismo-igreja manipulando a crendice de grande parte de um povo, que continua a rastejar, pelo menos moralmente, nas peregrinações mortificadoras até aos nossos dias? É claro que não é mais uma religião do Estado, que há separação, o que é uma diferença de monta, mas não diminui o seu carácter de  humilhação da Humanidade em cada acto de submissão a uma fantasia transcendente.

 

 

Porque mais absurdo do que chorar a morte de um dirigente é chorar num concerto e nas televisões da CNN e da BBC uma máscara morta, que já era uma fantasia de si-próprio em vida, através da qual milhões de alienados fantasiavam um mundo imaginário, num concerto global com o cadáver em palco, a máscara Mikel Jackson.

 

 

Porque mais absurdo é o povo estado-unidense considerar-se o povo eleito por Deus e viver na ilusão da igualdade, ignorando a desigualdade fundamental que há no seu mundo capitalista, efeito que Alexis de Tocqueville já previra em 1831, aquando da sua viagem a Nova Yorque. É também usar dos direitos do homem para legitimar a invasão de nações e o assassínio de muitos milhares de seres humanos.

 

 

Na Wikipédia pode ler-se, genericamente, que a ideologia Juche é uma vaga, indefinida, concepção da interdependência do indivíduo e do povo, entendido como autarcia. É possível que tal ideologia se preste ao misticismo imanente, à identificação do espírito-matéria do povo com uma camada dirigente, por isso suposta indiscutível e sempre certa, se preste, pois, ao culto da personalidade e à organização de tipo militar da sociedade.

 

 

Não é por acaso que o Querido Líder é a derradeira palavra para tudo: para os planos económicos, para a moral, para o estilo da arte, para os fenómenos da Natureza, o que dizem ter a ver com reminiscências budistas e chamânicas, e que toda a ideia pensada por qualquer indivíduo do povo tenha hierarquicamente descido da mente clarividente do Líder, imediatamente identificada à razão universal imanente à massa.

 

 

Eis, em todo o caso, o que a Wikipédia escreve:
“O Juche, oficialmente designado como Ideologia Juche, e também designado pelos ocidentais comomarxismo-leninismo-kimilsonguismo oukimilsonguismo é a ideologia oficial de Estado doPartido dos Trabalhadores da Coreia do Norte, que dirige os destinos desse país. O nome, em coreano, significa “conjunto principal” ou “matéria”; ele também pode ser traduzido como “posição de independência” e “espírito de autossuficiência”. Defende que o objetivo da revolução deve ser as massas e não qualquer poder externo, o que implica que a nação tenha confiança em si mesma como autarquia, num sentido lato. O ideólogo do Juche foi, essencialmente, Kim Il-sung.
O Juche tem sido promovido pelo governo norte-coreano na política e no sistema educacional desde que o conceito foi elaborado em 1955 por Kim Il-sung. No início, a ideologia consistia em duas ideias fundamentais: a revolução proletária pertence às massas e o homem é o guia da revolução.

Política da Coreia do Norte

Do ponto de vista econômico, o Juche defende a autossuficiência industrial e de serviços, para preservar a dignidade e a soberania da nação. A ideologia tem sido aplicada firmemente desde os anos 1960. A economia concentra-se no desenvolvimento da indústria pesada, defesa nacional e agricultura. Pretendia-se que a Coreia do Norte fosse autossuficiente a todos os níveis.
Em 1977, o Juche substituiu o marxismoleninismo(do qual se pode considerar uma derivação) na Constituição da Coreia do Norte, solidificando a sua posição como ideologia oficial do governo do país e da sociedade.”

Por sua vez, Gabriel Martinez em brasiliana.org escreve:

A ideologia oficial do partido governante da RPDC, o Partido do Trabalho da Coréia (PTC), é a Idéia Juche. A Idéia Juche foi desenvolvida por Kim Il Sung, líder da revolução coreana e fundador do Partido do Trabalho da Coréia. De acordo com os comunistas coreanos a superioridade da Idéia Juche consiste no facto de que, indicando a posição e o papel do homem no mundo, esclarece-se de maneira mais científica a forma como o homem forja o seu destino. O problema fundamental da filosofia deixa de ser a relação entre o pensar e a existência e passa a ser entre o mundo e o homem. Segundo os atuais dirigentes comunistas coreanos, a Idéia Juche não é apenas o marxismo-leninismo adaptado à realidade coreana, mas sim uma nova ideologia, superior ao próprio marxismo.” Nada todavia que o marxismo não tenha desenvolvido, mas que o nacionalismo norte-coreano não parece poder aceitar.

Talvez que o problema dos norte-coreanos esteja na organização da estrutura objectiva da sociedade a partir destes princípios mais ou menos vagos da unidade do povo e da pessoa, como substância e fim, mas a partir dos quais o partido traçou a regra da subordinação do indivíduo às massas e destas à sua cabeça. 
Como toda a boa ideologia, cria uma ideia de participação colectiva numa finalidade comum, mas objectivamente é o partido que comanda, ordena e pensa, impedindo o desenvolvimento integral do indivíduo.
Parece faltar à Ideia Juche, pelo menos na prática, a unidade dialéctica marxista do social e do individual, dessa reciprocidade que permite o enriquecimento mútuo das potencialidades e capacidades pela qual a sociedade se torna cada vez mais diferenciada, integrando na sua unidade complexa tais diferenças criadoras simbióticas, e o indivíduo se torna mais pessoa ao participar através da sua livre associação na multiplicidade das relações políticas, produtivas, criativas que ajuda a construir como elementos sociais do seu mundo.
De que maneira unir o interesse colectivo e a liberdade individual, eis o busilis da questão.

 
Anúncios