Oposição entre Mito e Razão – Traços Característicos e Causas Sociais

 

 
A disposição mítica consiste na interpretação do mundo como se ele e todos os seus fenómenos fossem resultado da criação, da vontade e do capricho de entidades espirituais. O mundo é pensado em termos antropomórficos e sociomórficos, isto  é, de acordo com a “forma” ou maneira de ser humana e social. O desconhecido é descrito pelo que parece mais conhecido porque familiar. Antropomorfismo, imprevisibilidade e arbitrariedade são os traços ou os parâmetros da atitude mítica e irracional. O mundo mítico é inexplicável, irracional.
 
 
O pensamento racional consiste, grosso modo, numa interpretação do mundo como sendo dotado de um padrão intrínseco à própria malha substancial do mundo, portanto como dotado de uma ordem regular, constante e imanente. O mundo torna-se, pois, explicável e previsível, isto é, racional.  A realidade obedece a princípios e leis que lhes são internos e que são homogéneos aos fenómenos, movimentos, forças e padrões com que a Natureza, a sociedade e o Homem se manifestam. A essência aparece e a aparência é essencial. Não há nenhum poder espiritual inerente ou transcendente à realidade. O mundo obedece a si mesmo.
Como os gregos viviam do comércio e da indústria (artesanal) e não tanto da conquista, como tinham inventado a democracia, um sistema que se compõe de leis impessoal e não da vontade dos reis, supostos deuses encarnados ou enviados do divino, que os legitimaria, como passaram a transaccionar a mercadoria através da moeda inventada pelo Lídios, povo aparentado, forma abstracta, impessoal e quantitativa de troca, pareceu-lhes que tudo e que a totalidade das coisas (de acordo com a projecção da representação das relações sociais na representação do todo da realidade) se auto-regulava por leis exactas, explicáveis e previsíveis, racionais. Enfim, a razão é a lógica invisível do visível.
É por isso que não estamos ainda perante uma concepção puramente física ou naturalista da natureza; pelo contrário, o cosmos é pensado pelos filósofos jónios em termos de projecção do nomo ou lei, costume e norma social no universo.
Para Anaximandro, o indefinido (apeirón), origem e fim de tudo, é o elemento originário em que os quatro elementos determinados se geram, num ciclo de mudança permanente numa ordem necessária por meio da indiferenciação no apeirón e transformação subsequente nos seus contrários, ou seja, penalizados pela injustiça do seu excesso de existência e consequente negação dos outros elementos. É esta necessidade (mais justiça naturalizada que lei material) que constitui o cosmos.
 
 
 
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