Piaget – É Preciso Relembrar o Valor da Epistemologia Genética Sem Esquecer os Seus Limites

 

 
A TEORIA OPERATÓRIA DE JEAN PIAGET
           1- Sensação, Percepção e Inteligência
O Homem começa pela acção antes do conhecimento. Este tem início numa interiorização progressiva da acção do sujeito sobre a realidade exterior sob a forma de esquemas mentais, reflexos interiores das operações efectuadas sobre as coisas.
Um esquema é a figura generalizada de uma acção no espaço, no tempo e sobre os objectos, a representação mental dos passos de uma acção e que é intermédia entre a imagem concreta e sensível do acto e a noção ou o conceito, que consiste numa elaboração verbal daquela.
Por exemplo, uma criança ao trocar a posição de dois objectos no espaço, interioriza o movimento que consiste naquele trocar: esse movimento, abstraído dos objectos concretos trocados, podendo ser aplicado a todos os objectos, é o esquema dessa acção. A sua noção é a sua verbalização, a sua transformação em pensamento mediante a linguagem, como propriedade comutativa enquanto troca e conservação da identidade do conjunto nessa mesma troca.
O conhecimento envolve a sensação, a percepção, a acção e a inteligência.
Ora, uma sensação não é reconhecida em si mesma, isolada do resto. As sensações, como impressões mentais produzidas mediante o estimular dos neuro-sensores pelos processos do mundo exterior ao sistema nervoso, são imediatamente enquadradas pela actividade cognoscitiva em conjuntos que tenham sentido, que representem algo que se identifique com objectos da nossa experiência.
É a isto que se chama percepção, ou seja, o acto de relacionar as sensações procurando nelas formas com significado. A percepção age sobre as sensações, acrescentando-lhes o que ficou na memória da nossa experiência e da acção física que estabelecemos com as coisas, mais a expectativa, a forma que estamos à espera de encontrar e que nos leva a ligar as sensações de uma maneira e não de outra. Nós percebemos primeiro o todo e só depois prestamos atenção às partes, porque só as figuras é que têm significado: as sensações, isoladas, como que pairariam no espaço, sem representarem elementos de um mundo estruturado e familiar.
Por exemplo, uma dada imagem dá-nos imediatamente a percepção da profundidade e do movimento, como se de um fluxo interminável se tratasse. Só depois nos apercebemos de que essa imagem é constituída por inúmeros losangos ordenados espacialmente de uma determinada maneira e aumentando de tamanho do centro para a periferia. Só esta descrição implica uma percepção, o reconhecer de relações de espaço e de proporções entre os elementos da imagem. Mas estes elementos não passam de losangos: as suas relações, mais os efeitos de profundidade e de movimento, constituem algo que se lhes acrescenta e que não só resulta do modo como os elementos estão dispostos para formarem um todo – as diferenças entre as várias áreas da figura devido ao diferente tamanho dos losangos -, mas resulta também da aplicação de esquemas da acção passada do sujeito sobre as coisas ao conjunto da imagem, o que acrescenta sempre mais este ou aquele aspecto às partes – a impressão do movimento aos losangos, a sugestão de afastamento em profundidade entre eles, que provêm das experiências de movimento e de distância tidas entre o sujeito e os objectos.
Como vimos, a percepção também implica a inteligência, ou a razão, como a capacidade de estabelecer relações, relações de semelhança, diferença, continuidade ou descontinuidade, de movimento, espaciais, ordinais, cardinais, maior ou menor, anterior ou posterior, causa e efeito, etc., relações que são esquemas que a razão elabora até se transformarem em conceitos: de comutatividade, de analogia, de causalidade, de distância, de permanência, de constância, de identidade, e assim por diante.
A percepção não é mais do que a manifestação do desenvolvimento da inteligência aplicada aos dados sensíveis. A percepção dos dados sensíveis é, pois, determinada pela disposição total da mente e do corpo.
Por exemplo, estando sentado num automóvel, que está parado numa fila numa rua que sobe, ao olhar para um carro que está ao meu lado e que avança em relação ao meu, tenho a percepção de que o carro que conduzo está a descair. Carrego automaticamente no travão de pé, mas nada parece mudar. Penso então que o movimento relativo que observo entre o meu e o outro automóvel resulta, não do meu estar a descer mas daquele estar a subir. A percepção global da situação em que me encontro muda radicalmente.
2- O Processo de Desenvolvimento da Inteligência
Para Piaget, o conhecimento não é um processo à parte do processo global que faz do indivíduo aquilo que é: um ser ao mesmo tempo biológico, psicológico e social. Por isso, podemos dizer que um ser humano se constitui como tal mediante três factores: 1) a acção física do indivíduo, a experiência física e a acção dos objectos sobre ele e dele sobre os objectos, pela qual constrói os seus esquemas de acção sobre o mundo, que consistem em formas interiorizadas de agir que depois se aplicam com o objectivo de satisfazerem os fins da própria acção (procurar que comer, alcançar um objecto rodeando obstáculos, por exemplo), esquemas que são o começo da inteligência e da razão: 2) a relação que estabelece com o meio socio-cultural; 3) um certo número de condições biológicas herdadas da espécie. O conhecimento resulta da combinação destes três factores.
Ao contrário do que pensam os empiristas (atomistas associacionistas) e também os defensores da Teoria da Forma – que dão à percepção a primazia no conhecer -, Piaget considera que «Os nossos conhecimentos não provêm nem da sensação nem da percepção isoladas, mas da acção inteira da qual a percepção constitui somente a função de sinalização. O próprio da inteligência não é, com efeito, contemplar mas transformar e o seu mecanismo é essencialmente operatório. Ora, as operações consistem em acções interiorizadas e coordenadas em estruturas de conjunto, e se se quer dar conta deste aspecto operatório da inteligência humana, é pois da própria acção, e não apenas da percepção, que convém partir.
«Com efeito, não se conhece um objecto senão agindo sobre ele e transformando-o (do mesmo modo que o organismo não reage ao meio senão assimilando-o, no sentido mais lato deste termo). E há duas maneiras de transformar assim o objecto a conhecer. Uma consiste em modificar as suas posições, os seus movimentos ou as suas propriedades para lhe explorar a natureza: tal é a acção a que chamaremos física. A outra consiste em enriquecer o objecto com propriedades ou relações novas que conservam as suas propriedades ou relações anteriores, mas que as completam através de sistemas de classificações, ordenações, estabelecimento de correspondências, enumerações ou medidas, etc.: tais são as acções a que chamaremos lógico-matemáticas. São, portanto, estas duas espécies de acções, e não só as percepções que lhes servem de sinalização, que constituem as fontes dos nossos conhecimentos científicos»(Piaget,Psicologia e Epistemologia, pp.83-4).
«A experiência lógico-matemática… consiste em agir sobre os objectos mas com abstracção dos conhecimentos a partir da acção, e já não dos próprios objectos. [Os conhecimentos resultantes da experiência lógico-matemática não provêm dos objectos mas da acção exercida sobre os objectos, acção que está pois na origem da inteligência, a qual tem essencialmente uma forma lógico-matemática.] … No caso das relações entre a soma e a ordem das pedras enumeradas pela criança, é, por exemplo, evidente que a ordem foi introduzida pela acção nas pedras (postas em fila ou em círculo), assim como a própria soma (devido a um acto de coligação ou de reunião): o que o sujeito então descobre não é uma propriedade física das pedras mas uma relação de independência entre as duas acções de reunião e de ordenação»(Ibidem, p.88). O sujeito descobre que a acção de somar é independente da maneira como as unidades estão ordenadas. Trata-se da aquisição de um conhecimento lógico-matemático e não de um conhecimento sobre as pedras, mas que precisou das pedras para que a operação se pudesse fazer. O conhecimento é, pois, o da acção sobre as pedras. Adquirido este conhecimento, interioriza-se passando a operações mentais manipuláveis por meio de símbolos linguísticos como os símbolos matemáticos, podendo assim libertar-se a inteligência da acção sobre os objectos da qual nasceu.
O conhecimento é uma forma de adaptação do sujeito ao meio, como defende Piaget.
Esta adaptação é um processo que dá pelo nome de equilibração. Esta consiste numa jogo entre a assimilação e a acomodação.
Marcando uma proximidade com os processos biológicos de transformação do alimento exterior na própria natureza interior do indivíduo, Piaget chama também de assimilação à integração psicológica e cognitiva das acções ou operações realizadas no meio ambiente e que são interiorizadas sob a forma de imagens perceptivas, de esquemas mentais e de conceitos.
Mediante a assimilação, o meio vai sendo apreendido pelo sujeito destacando as suas propriedades, as suas diferenças, os seus processos e as suas relações. A Física e a Matemática não são ciências imaginárias mas reflectem a própria realidade. A inteligência, como operatória que é, vai de seguida aplicar os seus esquemas gerais, abstraídos das situações particulares que lhes deram origem, a novas situações.
A riqueza, diversidade e evolução da realidade, levam quase inevitavelmente a uma desadequação entre esses esquemas e os novos factos. Não se pode aplicar os conhecimentos da mecânica clássica aos átomos ou aos grandes espaços do universo, como não é possível aplicar a uma relação amorosa os mesmos esquemas mentais que permitem manter uma relação de amizade. Os conhecimentos antigos precisam, pois, de se acomodar à nova situação, ou seja, têm de sofrer transformações em função da nova experiência prática.
Esta acomodação consiste, assim, numa assimilação do objecto recém-experimentado, o que permite restabelecer a situação de equilíbrio entre o sujeito e o meio, ou seja, a equilibração.
Piaget deu um contributo enorme para uma teoria do conhecimento científica. O conhecimento é o resultado duma relação prática do homem com o mundo e não um mero efeito contemplativo ou um reflexo empírico e passivo do mundo exterior. O homem é um ser transformador e o conhecimento é um produto retroactivo dessa conduta.
É preciso não esquecer Piaget mas é também necessário reconhecer a limitação do seu conceito de equilibração e a desvalorização de produtos humanos como a linguagem e os efeitos da cultura criada (tecnologia, moral, ensino) sobre os sujeitos da aprendizagem. Devemos, para isso, recordar Karl Marx, para quem o homem é um ser criador e não apenas um ser que assimila e se adapta. O mundo é o mundo do homem e, por isso, o mundo do homem não é a natureza mas a natureza por si e para si transformada.
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