Liberdade e Egoísmo – Mais Uma Vez e Sempre


English: Seal of the United States Africa Comm...

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É preciso compreender que a liberdade não é apenas nem pouco mais ou menos o direito abstracto, arbitrário, de realizar todas as nossas vontades e de subordinar os contratos, de trabalho e outros, ao princípio do livre-arbítrio. Porque não somos mais livres por nos drogarmos, por iniciarmos uma guerra civil ou por alugarmos sem pressão do empregador interessado a nossa força de trabalho. O livre-arbítrio, o direito à expressão, a liberdade de associação, de eleger os nossos representantes, conquistas irredutíveis dos homens, não são todavia valores absolutos além dos quais nada mais tem grande valor. A liberdade é um todo de direitos e deveres formais e materiais ou não é nada.
Assim, não somos mais livres por podermos decidir em pluralismo quais dos grandes meios de informação detidos e financiados pelas corporações capitalistas devemos ler e ver para ficarmos mais enganados, como os prisioneiros do espectáculo de robertos na Alegoria da Caverna de Platão.
A liberdade da Al Jazira inventar uma manifestação de apoio aos rebeldes armados na Líbia mas que foi encenada alhures. A invenção pelo governo norte-americano de armas nucleares no Iraque. A propaganda que culpa o consumismo dos trabalhadores pela crise de financiamento dos Estados e dos Bancos privados. A manipulação no terreno dos contestatários do regime opressivo da Síria e a sua infiltração, via CIAMossad e Irmãos Muçulmanos por bandos armados a fim de preparar o terreno para mais uma invasão destinada a ameaçar o Irão. O livre-arbítrio do patrão ao despedir o empregado. A decisão de proibir propaganda comunista na Eslováquia (nação da UE). A guerra fria entre os Estados Unidos e a China pelos recursos de África (com os segundos a investir e explorá-la economicamente e os primeiros, através da Africom, a intervir nela militarmente, começando pela invasão aérea, e também no terreno, da Líbia, e agora no Uganda a pretexto da ameaça do obscuro e ridículo Exército de Deus para a segurança dos EU, ou do seu espaço vital, seguido da divisão do Sudão e da instalação de uma grande base militar no Sudão do Sul). Todos estes são sem dúvida actos de liberdade mas terrivelmente abstractos na sua realidade indiferente aos verdadeiros interesses da Humanidade, actos que em nada contribuem para a liberdade real, concreta do homens e das sociedades.
Ser livre é poder viver de acordo com as nossas necessidades.
Mas as nossas necessidades não se identificam com o militarismo, com a exploração, por compra ou aluguer, do trabalho humano, para riqueza, arbitrariedade e especulação duma minoria, e com a exploração dos recursos naturais para além da sua possibilidade de recuperação.
As nossas verdadeiras necessidades são o conhecimento, a verdade (que é mais do que o conhecimento teórico e técnico), a beleza, a paz, o amor, a partilha. É a autonomia conquistada pelo saber, pelo progresso da ética e pelo aumento das competências. É a autonomia que nos emancipa dessa necessidade opressiva de termos, humilhantemente, de alugar a outros as nossas capacidades. O trabalho tem que ser humanizado, ser um dos lugares de realização das nossas melhores qualidades, tem que basear-se num acordo livre e responsável entre quem se compromete numa actividade coordenada de concretização de objectivos comuns e socialmente úteis. E é a conquista, para além desse tempo de trabalho, do espaço e do tempo livres para amar, viajar, explorar, brincar, fazer tudo aquilo que não é contemplado por aquelas obrigações laborais.
Para isso são condições necessárias, ainda, reconheça-se, que insuficientes, alguns elementos estruturantes da sociedade. Uma união de Estados independentes política e economicamente. Estados verdadeira e não apenas formalmente democráticos. Estados com capacidade coordenada de controlo dos fluxos de capitais, enquanto existir a possibilidade de acumulação financeira por agências cujo fim é a acumulação de capital e a sua reprodução por crédito e investimento. Estados que obriguem à aplicação do capital financeiro directamente no investimento produtivo, nem que seja preciso para isso de nacionalizar os grandes bancos, submeter as grandes corporações ao respeito legal e efectivo pelas competências das empresas mais pequenas e pelo bem comum em termos de emprego, sustentabilidade ecológica e saúde.  Estados que sejam controlados pelo povo através de governos mandatados por si para imporem a descentralização do saber-fazer e a multiplicação da capacidade e da diversidade produtiva para bem de todos com uma distribuição justa (para trabalho igual, salário igual e sem as enormes diferenças que há entre os diversos tipos de actividade e de funções). Governos próximos da população, eleitos da forma mais directamente possível, que imponham legal e efectivamente a separação, não só entre a instituição judicial e o executivo mas também entre a comunicação social e a finança e as corporações. Países nos quais as eleições dos representantes do povo no governo sejam verdadeiramente justas, verdadeiras e, portanto, democráticas.
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