Chomsky e a Fabricação do Consenso

 

NOAM CHOMSKY
A FABRICAÇÃO DO CONSENSO (ENTREVISTA)
 
Qual é o verdadeiro sentido, na América, de expressões como free choice [liberdade de escolha], free press [liberdade de imprensa] e free access to information [liberdade de acesso à informação]. Houve, por exemplo, alguma opção real entre Bush e Dukakis?
 
Chomsky at the World Social Forum (Porto Alegr...
 

A liberdade de escolha existe na medida em que o governo não força ninguém a escolher. Por outro lado, todas as escolhas são restringidas por condições, impostas pela própria distribuição do poder. E sempre foi assim. O sistema constitucional americano não foi concebido para que houvesse participação da população. Era um sistema criado para os homens brancos que tivessem propriedades. E a premissa era de que aquela classe restrita tinha suficientes interesses em comum para lhes permitir administrar o país. Muita gente não se lembra, mas a Constituição americana continha realmente um dispositivo afirmando que uma parte da humanidade só era 3/5 humana – no caso, os negros. Se algum país do Terceiro Mundo adoptasse hoje a Constituição americana, diríamos que se trata de uma reversão ao nazismo, o que, de certa forma, é um sinal positivo, que indica que as coisas progrediram desde então. No sistema industrial moderno, o poder e os privilégios foram ficando cada vez mais concentrados à medida que se desenvolviam as empresas. E são elas que devem governar o país. A história política americana é, no fim de contas, a história de uma seleção entre vários sectores da classe empresarial e proprietária. As últimas eleições são um bom exemplo. Há muito tempo que os Estados Unidos são, essencialmente, um Estado unipartidário. Há duas facções dos conservadores, duas facções da classe empresarial, e elas apresentam os seus candidatos. E a população de facto tem a liberdade de escolher entre os dois representantes dos interesses da classe empresarial. Assim, todos compreendem que aquilo que os candidatos dizem não é para ser levado a sério. Os candidatos têm encarregados de fazer pesquisas. Esses pesquisadores determinam que tipo de declarações podem vir a ser populares, e então o candidato produz exatamente essas declarações. Desse modo, o candidato está na verdade respondendo ao que o instituto de pesquisa lhe diz ser capaz de aumentar o seu número de votos. E todos aceitam isso. É a política. Ora, isso reflete um desprezo total e completo pela democracia. Significa que tudo o que um candidato diz não passa de uma técnica por meio da qual seus financiadores, um grupo da comunidade empresarial, pretendem assumir o controle do Estado. Nas eleições de 1980, as elites achavam que, para tornar competitivas as empresas americanas num mundo cada vez mais difícil, as margens da lucratividade precisavam ser aumentadas, a violência do Estado precisava de crescer, o Estado tinha de se envolver mais fortemente na administração industrial e forçar o público a subsidiar a indústria de alta tecnologia. As poucas medidas de previdência social existentes deveriam ser cortadas. Foi o que aconteceu. O público só tinha uma escolha: entre duas maneiras de levar a efeito o consenso da elite, um consenso a que ele se opunha. Nas eleições de 1984, os republicanos eram o partido do crescimento keynesiano. Propunham despesas deficitárias e eram apoiados pelos segmentos do sistema industrial que queriam justamente isso – que o governo despejasse dinheiro na indústria avançada, deixando a preocupação com os efeitos para mais tarde. Já os democratas eram o partido dos conservadores fiscais, apoiados pelos bancos e pelas empresas de investimento, e também pelos interesses imobiliários. Assim, o eleitor podia escolher entre o crescimento keynesiano acompanhado de uma retórica ultranacionalista – os republicanos – e o conservadorismo fiscal rabugento – os democratas. Elegeram os republicanos. Numa sociedade livre, não se pode impedir que as pessoas votem. Assim, o que se faz é assegurar que não haja nada em que elas possam votar. O análogo disso no sistema de informações é que não se pode evitar que as pessoas comprem o jornal que quiserem, e também não se pode proibir os jornais de publicarem o que quiserem; assim, é necessário assegurar-se de que os jornais vão publicar as coisas certas. E isso acontece automaticamente, devido à concentração do poder. Os meios de comunicação são grandes empresas. As três redes nacionais de televisão são grandes empresas, controladas por empresas ainda maiores, como a General Electric, a Westinghouse etc. Os grandes jornais são empresas ligadas a bancos e conglomerados financeiros. Nos Estados Unidos, os meios de comunicação são simplesmente empresas que vendem um produto para um mercado. O mercado são os anunciantes, que os sustentam. E o produto é a audiência.
Entrevista com Noam Chomsky [fragmento] [IN “America”, 1996]

* A tradução de manufacture of consent por fabricação do consentimento, tradução comum, pode não ser perfeita. Talvez seja melhor fabricação do consenso.
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