Miscelânea Mais ou Menos Cruel e Livros de Cabeceira

 

 

 
ESTÃO ENGANADOS
«-Creio que estão ambos enganados… – lançou um médico. – As mulheres são muito mais requintadas e complexas do que pensam… Como incomparáveis virtuosas, como supremos artistas da dor que são, preferem o espectáculo do sofrimento ao da morte, as lágrimas ao sangue. E é uma coisa admiravelmente anfibológica em que cada um encontra o que deseja, pois cada um pode extrair conclusões muito diferentes, exaltar a piedade da mulher ou maldizer a sua crueldade, por causas igualmente irrefutáveis conforme estamos, na altura, predispostos a prestar-lhes reconhecimento ou ódio. De resto, para que são todas estas discussões estéreis?… Uma vez que na batalha eterna dos sexos somos sempre os vencidos, que nada podemos fazer…» (MIRBEAU, Octave, O Jardim dos Suplícios).
 

 

CRISTIANO RONALDO DIVERTE-SE
Cinco prostitutas prestaram serviços eróticos ao grande futebolista. Ele terá pago; elas venderam as suas competências sexuais. Alguém usou alguém? As duas partes fizeram usura da outra à sua maneira? Quando tudo o que é palpável e sensível tem um preço, e mesmo as ideias e os valores expressos, quem sabe responder?
UM PONTO DOCE E OUTRO AMARGO

 

 

1- A sexualidade é um vasto campo de combate pela dignidade humana. Já deixou de ser vista como pecado, como um meio animalesco de reprodução, como um oportunismo da alma para obter gozo do corpo, um gozo ademais ilegítimo. Agora é, à semelhança de tudo o que é possível transformar-se num bem de troca, nesta sociedade capitalista em que o que se pode empacotar, acondicionar, delimitar o uso, se converte em mercadoria, muitas mulheres e homens vendem a imagem do seu corpo e das suas exibições sexuais equalizando-o a qualquer objecto de consumo, portanto dotado de um denominador comum: o seu valor em dinheiro e um numerário em moeda fiduciária. Desde tempos imemorais que houve prostituição, é conhecido. O sacrifício das virgens aos deuses, pela mediação dos sacerdotes ou de um estranho à economia produtiva e reprodutiva do sexo, numa lógica de retribuição e reconhecimento humilde da sagrada plétora, a oposição do sexos na divisão social da riqueza, do poder, do saber e da liberdade, que os homens podiam procurar nas heteras, induziam todavia sentimentos sexuais diferentes dos que na nossa época são despertados pela exposição e favores comprados, ou mesmo oferecidos para prazer comum mas sem o envolvimento de uma comunhão de vida na sua riqueza reciprocamente descoberta e desenvolvida. O grande acontecimento terá sido o da emancipação económica e simbólica da mulher. Com ela, o sexo vendido ou retribuído perdeu a sua sombra de pecado. O desejo e o gozo livraram-se do mistério terrível que vinha das profundidades do mal, deixaram se ser metafísicos e reduziram-se à experiência empírica, à estética, à experimentação das potencialidades e dos limites sensuais. Talvez se tenha ganho mais do que aquilo que se perdeu. Talvez que a inocência do sexo tenha vindo para iniciar um processo de co-realização da complexidade que caracteriza o ser humano, que não termine mais na tristeza que dizem ser inevitável após o coito. Ou não? Talvez haja agora tanto desperdício superficial, tanta ignorância do essencial e tanta histeria do contingente quanto no passado havia de temor de nós próprios. É por isso que, quando se fala de categorias sexuais, de psicologia da sexualidade, devemos integrá-las na política como um domínio de produção de difenças nos sentimentos, nos afectos, no desejo. Como escreveu Herbert Marcuse a respeito das categorias psicológicas, não são meramente psicológicas:

 

«Estes ensaios empregam categorias psicológicas porque se tornaram categorias políticas. O limite tradicional entre psicologia por um lado e e filosofia social e política por outro tornou-se obsoleta pela condição do homem na era presente: os processos psíquicos anteriormente autónomos e identificáveis foram absorvidos pela função do indivíduo no Estado – pela sua existência pública. Os problemas psicológicos tornaram-se por isso em problemas políticos: a desordem privada depende mais directamente que antes da desordem do todo, e a cura para a desordem pessoal depende mais directamente que antes da cura desordem do todo. A era tende para ser totalitária mesmo onde não tenha produzido Estados totalitários.» (MARCURSE, Herbert, “Eros and Civilization”, p. xxvii).

 

 

 

2.«O esgotamento da concepção animista do universo, coincidindo com a emergência e o desenvolvimento planetário da civilização industrial, provocou uma crise de valores-guias. A angústia sagrada foi substituída por uma angústia colectiva que já não diz respeito ao sentido da vida e que tende a parcializa-se em angústias de colectividades atiradas umas contra as outras. No seio dos diferentes grupos aos quais o homem social está intimamente ligado, o indivíduo aprende que é vão fazer surgir os seus próprios desejos, elevar a sua personalidade acima do nível imposto pela sociedade global. Não contente em multiplicar os desejos contrariados, as frustrações e alienação, a nossa sociedade controla-as e orienta-as por meio de exutórios como a televisão, o álcool, o tabaco e as drogas oficiais ou não, o automóvel, os clubes de férias ou de lazeres, cuja finalidade é visivelmente regressiva: para diferir, senão impedir, o afrontamento do indivíduo com a sua própria angústia, tornou-se vital criar um “ersatz” de euforia afectiva e sensorial, primeira etapa da luta para a “hebetude”.» (PRADAL, Henri, “Le Marché de l’Angoisse, p. 32).

Livros de Cabeceira

  • Bernard Muldworf, Para uma Sociedade Erótica
  • Bertrand Russell, Porque não Sou Cristão
  • D. H. Lawrence, O Amante de Lady Chaterley
  • Georges Bataille, O Erotismo
  • Gerges Duby et allia, Amor e Sexualidade no Ocidente
  • Henri Pradal, O Mercado da Angústia
  • Herbert Marcuse, Eros e Civilização
  • Marquês de Sade, Filosofia na Alcova
  • Marquês de Sade, Os Infortúnios da Virtude
  • Michel Foucault et allia, Sexualidades Ocidentais
  • Octave Mirbeau, O Jardim dos Suplícios
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