Um Caso de Estudo da Censura em 2009 Revisitado (Não Esquecido) – Mesmo que Seja o do Infame Jornalismo de Manuela Moura Guedes

 

 
Agora que se aproximam as eleições, a censura volta a tentar. O argumento é a obrigação de isenção do “pivot”, vulgo apresentador do telejornal. Visada, Manuela Moura Guedes. Independentemente do seu estilo e das suas opiniões – com as quais discordo frequentemente -, ela é tão isenta como os outros colegas de profissão das outras empresas de comunicação. Embora estes costumem ser mais subtis na manipulação da opinião na interpretação, na perspectivação e na contextualização da notícia. Em suma, objectivamente isenção é coisa que só existe no reino da fantasia. Qualquer enunciado factual é uma interpretação. A diferença é que uns a querem fazer passar por uma realidade neutra, um objecto da contemplação, em vez de um objecto construído no processo de apropriação cognitiva, sendo portanto impossível «demarcar claramente os factos da opinião.» E o que é construído não é uma coisa que seja vista da mesma maneira pelos homens, pelos gatos, pelos piolhos, pela Manuela e pela Estrela Serrano. O cérebro da Estrela Serrano não é a bitola divina pela qual se deve regera verdade. O que ela “não sabe” é que a verdade toma partido e que só pela interpretação se chega a umafactualidade mais objectiva. Conhecem o que Copérnico fez dos “factos” objectivamente registados por Ptolomeu e seus seguidores?
Na compreensão deste aspecto fundamental da comunicação estamos (interessadamente) muito atrás dos jornais e televisões americanos, que não escondem o “facto” de que interpretam os dados informativos que seleccionam, chegando mesmo – noutro plano mas que se cruza com o anterior – a declarar o apoio ou a rejeição a um partido nas eleições, ancorados em interpretações – claro, politica e economicamente interessadas – dos acontecimentos relevantes do passado recente.
Aqui vai o texto do Diário de Notícias sobre o assunto:
«A deliberação do órgão regulador dos media não foi unânime, mas, como sublinha José Azeredo Lopes, presidente da ERC, “reuniu um largo consenso”, aludindo ao facto de esta posição ter sido aprovada apenas com um voto contra. Luís Gonçalves da Silva evoca uma decisão do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem para fundamentar a sua posição e considera, ainda que “a deliberação não toma em devida conta as características do Jornal Nacional de Sexta, como um serviço noticioso marcado pela investigação e por uma forte componente opinativa”. O conselheiro defende ainda que “as avaliações” apresentadas no espaço informativo em análise se inserem “na esfera de liberdade e autonomia editorial do operador”.
Este não é o entendimento de Estrela Serrano, que, tal como Azeredo Lopes, defendia a adopção de uma recomendação em vez da deliberação aprovada, o que tornaria obrigatória a leitura da tomada de posição do órgão regulador no final do Jornal Nacional 6.ª-Feira.
Apesar de ter votado favoravelmente, a conselheira também considera que a deliberação deveria referir “o modo de apresentação do Jornal Nacional de Sexta”, que, escreve na sua declaração de voto, “à luz dos princípios do rigor e isenção da informação exigíveis a qualquer jornalista, representa uma flagrante violação desses princípios”. “Caracterizado por uma muito peculiar ‘linguagem’ gestual e facial da sua apresentadora, que inclui trejeitos, risos irónicos, e outras formas de expressão não verbais”, Estrela Serrano defende que estas características atentam “contra o rigor da informação, pela conotaçãovalorativa ou depreciativa que imprime às notícias a que se refere”.
Ao DN, Azeredo Lopes afirmou que “em confronto com casos comparáveis, e talvez menos graves, deveria ter sido emitida uma recomendação”. Por isso mesmo, Estrela Serrano classifica como negativo o facto de não ter sido adoptada a recomendação.
Para além de reprovar a actuação da TVI, a deliberação insta a estação “a cumprir de forma mais rigorosa o dever de rigor e isenção jornalísticos”, destacando “o dever de demarcar claramente os factos da opinião”, e considera verificada “a possibilidade de a TVI ter posto em causa o respeito pela presunção de inocência dos visados nas notícias”. Apesar de reconhecer as “características particulares” do principal bloco informativo da TVI, a ERCnão deixa de apontar alguns reparos concretos relativamente às três emissões em causa nas 13 queixas recebidas na ERC.»
Posted 29th May 2009
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