Sexo Com Amor

 

 
Falemos do sexo possível, do que a razão prática da actividade histórica, social e individual exige como necessidade para a nossa realização como pessoas. Não falemos do sexo real, porque entre a realidade e a racionalidade não há identidade imediata. Nem tudo o que é real é racional quando uma alternativa se torna realmente possível pela descoberta e criação práticas daquilo em que nos podemos tornar. Já o escrevera Hegel no seu Prefácio às Lições sobre a Filosofia do Direito.
O sexo é bom! Porquê? Porque nós dá prazer? Resposta demasiado simples, ignorância do que somos, anódina do nosso próprio endereço. Ora, temos sentidos internos (proprioceptivos) e externos (extereoceptivos), fundindo-se – propriedade essencial – em sentimentos sincréticos. Além destes constituírem sínteses, fenómenos novos, comportam em si complexidades ambíguas e ambivalentes.
O verde não nos repousa e não nos suscita a paixão e logo o temor da natureza? O vermelho não nos estimula a agressividade vital, urgente, e ao mesmo tempo o tremor pela violência inimiga latente, a nossa e a dos outros? O azul não é sereno, aquático, celeste, transparente (não o cerúlio, pesado, opaco, parado), sugerindo a imersão protectora, amniótica, do abraço primordial, assim como o topos da utopia, a linha ténue do horizonte esperançoso e indeterminado, mas igualmente a falta de apoio, a ameaça do vazio, da desmedida em comparação com a pequenez nossa, a ameaça do errático ou da aventura, o desapoio da rotina da casa emparedada dos nossos segredos aprisionados? O sexo não é do mesmo modo o gozo de nos sentirmos vivos até à sensação da pequena morte branca, a seguir à qual retorna, com a ênfase do contraste, a definição das coisas que nos habituaram ao rondó do dia-a-dia, aos imperativos exteriores que fazem do trabalho um meio para consumirmos o que nos desenvolve para produzirmos mais e melhor num movimento que nos consome, tendo como recompensa, igual à de Sísifo, a passagem crítica do tempo pelo que construímos, que nos fala da sua inutilidade, do seu desvaloro (relativo é certo, pois é pela prática que somos o que somos, à vez cultos e ignorantes, elegantes e grosseiros, solidários e egoístas, corajosos ou covardes, vítimas de feitiços ou conscientes de sermos nós na História os criadores dos mecanismos que nos controlam, mas sempre nos tornando passageiros esquecidos de estações em ruinas), que nos fala enfim do que balança entre obstáculo e trampolim, entre parede e patamar, sempre criando com o trampolim um novo obstáculo e com o patamar uma nova parede, com a propriedade o trabalho para o seu dono, com o dinheiro a miséria, com o desejo a rejeição e o despeito? O sexo não é um pormo-nos à prova realizando-nos no medo de sermos sempre um outro para o outro, uma alteridade para a outridade?
A estimulação sexual dá-nos um suplemento de vida porque por ele o nosso corpo e, nos interstícios dele, o nosso ser social como história das nossas relações sociais, se sente, mais, se experimenta sensual e intensamente através do outro. E, ao sentirmo-nos através de um outro, tendo a experiência de que ele me sente através de mim e através de mim se sente, eu, eu mesmo, me descubro como o fazendo reconhecer-se precisamente pelo meu poder sobre ele, assim como reparo, pela simetria dupla da acção, que o meu poder sobre ele é o mesmo poder que ele tem sobre mim. Portanto, reconheço-me na minha existência sensível e em todas as outra dimensões humanas que me ligam à minha sensibilidade. Reconheço-me como podendo suscitar eu mesmo o desejo de mim nos outros, mas só na medida em que experimento o outro no seu correlativo poder sobre quem sou enquanto provoco nele o mesmo poder sensorial sobre mim pela minha acção. E assim nos reconhecemos mutuamente através da percepção dos efeitos recíprocos e análogos da fusão dos corpos: percepção dos reflexos proprioceptivos, cinestésicos, estáticos, visuais, facécios.
O sexo é, pois, a realização do poder vital – e portanto da vontade de poder – de um sujeito ao realizar-se o poder do sujeito a quem se une. É, em condições de respeito, a vontade igualitária de poder.
Mas é, ao mesmo tempo, um assumir das diferenças de género, sendo, como tal, e enquanto possibilidade, um igualitarismo de poder mas não uma identidade material no acto. Tal nem é possível na homossexualidade nem muito menos nas ligações heterossexuais. Aqui só nos podemos referir – e tanto melhor por isso – a uma harmonia das diferenças, caso as relações sociais de poder e educação forem, por necessidade objectiva de análise, abstraídas.
O homem e a mulher poderiam então unir-se na identificação concreta das suas necessidades e poderes mais universais e compreenderem simultaneamente as suas diferenças, como género e indivíduos.
O sexo satisfeito é uma prática essencial na liberdade reciprocamente criada.
E, depois disto tanta coisa imprescindível ficou ainda por dizer.
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