Platão e a Tirania

 

Herma of Plato, Musei Capitolini, Rome

Posso, sendo eu marxista, concordar, dolorosamente, com as magníficas, incisivas, actuais e premonitórias palavras de Platão na República, uma das maiores obras-primas, quer da literatura quer da filosofia? Posso, concerteza. Os nossos tempos contêm este perigo, de os povos se deixarem atrair pelas sereias de regimes cada vez mais à direita ao tentarem escapar dos tentáculos tirânicos do capitalismo internacional, por não perceberem que se trata do mesmo lobo que lhes canta uma outra canção, de forma diferente mas com conteúdo semelhante. Mas vamos às magníficas palavras de Platão, cujo facho irradia desde há mais de dois mil anos. Dois mil anos-luz, poderíamos dizer:
«- O tirano é, ao que dizes, um parricida e um acrimonioso sustentáculo da velhice e, segundo parece, chegámos já àquilo que se concorda em chamar tirania; conforme o provérbio, o povo, ao tentar escapar ao fumo da escravatura de homens livres, há-de cair no fogo do domínio dos escravos, revestindo, em vez daquela liberdade ampla e despropositada, a farda mais insuportável e mais amarga, a da escravatura dos escravos.»
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