O Reino da Estupidez e a Condição do Ensino Secundário em Portugal – Para Recordar e Não Esquecer o Início da Perseguição aos Professores

 

22 de Janeiro de 2013

Rómulo de Carvalho – Professor

1. O ultimamente ubíquo e irremendavelmente invertebrado presidente duma associação de pais, tão artificialmente inventada como a UGT (correia de transmissão sindicalista do PSP, não confundir com a polícia), surgiu mais uma vez numa rádio a comentar a proibição na Grécia, Itália e França de telemóveis nas salas de aulas. O mestre-escola Albino (Aroso), mantendo-se um indefectível da Milú e seus gatos pardos na sua cruzada contra os professores (“Perdi os professores mas ganhei o país” (e alguns pais inventados e manipulados), disse uma vez a ministra da opressão dos docentes, como se o país se ganhasse contra quem o ensina), o mestre rosa-albino, grande promotor da desresponsabilização dos pais e paladino da transfiguração de professores e dos polícias em encarregados-de-educação – que muitos dos verdadeiros já não querem ser -, o grande-mestre Aroso da Ordem dos pajens da Rainha de Espadas, cuja soberba plenipotenciária a Alice no País das Maravilhas ridicularizou (vencemos pelo ridículo o que é impossível derrotar nos poderes fácticos e na estupidez do reino da mesma, que os argumentos racionais não alcança e por isso não pode ser alcançada pelos mesmos), o mesmo mestre Albino, que também há uns dias e dessa vez na televisão descartou a supervisão dos pais quanto às transas alcoólicas dos filhos nos fins de semana de alienação furiosa, mas nada rebelde, para a educação na escola e a tolerância da polícia, o mesmo Albino, muito bem acompanhado por uma mestra pedagógica que, numa tertúlia cordata, reiterou a ideia peregrina das pedagogias místicas de Froebel, Pestallozi e quejandos do século XIX – e todavia já por demais distorcidas por uma política de direita travestida de pseudo-esquerda festiva para confundir, e trauliteira quando lhe querem estragar a festa – de que a escola deve nos primeiros anos apenas educar, socializar, e não ensinar (“há muito tempo para mais tarde se exercitar o raciocínio e a memória, assim como os conhecimentos”), o mesmo mestre Albino que ali disse que a educação para a prevenção das noitadas alcoólicas é da responsabilidade dos professores e que é inqualificável que a polícia faça esperas aos jovens “só” depois deles voltarem de carro das discotecas já alcoolizados, o mesmo Albino, que aprova as caceteadas aos professores que discordam e se manifestam contra a destruição do ensino público e contra o facilitismo que os envergonha e vai destruir o futuro do país, o mesmo Albino – pasme-se! – ao mesmo tempo converteu-se em plena rádio ao pensamento de Agostinho da Silva e ao seu “libertarismo”, de quem citou – vejam a erudição ! – o seguinte mandamento: “Não nos devemos deixar oprimir pelas coisas, pois as coisas devem existir apenas para nós”. Franca inocência maliciosa! Não a do grande Agostinho da Silva. Sim a do grande mandatário da manipulação Aroso. Não quero fazer perguntas retóricas. Vou directo ao assunto. Albino ignora (?), oprimido – sim oprimido – pelo feiticismo, não só do dinheiro (a mercadoria abstracta e universal) e do poder (mas ele já gastou bem mais do que os quinze minutos de fama de Warhol!: e nós, Senhor, e nós?!), mas igualmente das mercadorias particulares como o telemóvel, que as mercadorias só nos oprimem na medida em que os homens se oprimem uns aos outros por meio das tais mercadorias, e por causa das necessidades lógicas da economia capitalista e das dos seus agentes em manterem, na submissão àquelas, o seu nível de vida conquistado. Não é uma questão de moral, senhor Albino, mas uma questão de negócio e de sobrevivência, como o negócio privado e público do senhor Aroso. A magna e inútil questão dos telemóveis na escola, que ele não deseja proibir mas apenas educar, denuncia o senhor Albino como um mistificador que se mistifica a si próprio. O telemóvel, como qualquer meio electrónico de comunicação – o deus Hermes dos tempos modernos – é agora, de facto, uma arma de arremesso contra os professores, fazendo deles reféns, quer do poder social e politicamente determinado, mas não livre, não realizador, de muitos alunos, quer do mau exemplo de alguns docentes, dando asas de Hermes à fácil falácia de tomar a parte pelo todo, um pequeno número pelos números todos, aparentemente confirmando o ódio de muitos portugueses pela nulidade que foram enquanto alunos. E assim o senhor Albino fica feliz no seu negócio privado público, vivendo à custa dos impostos daqueles a quem engana e a quem ofende, assim como daqueles sempre muitos que procuram no mínimo o máximo de confirmação para justificar o seu fracasso na vida.
2. Agora que voltou a avaliação dos professores – suspensa há três anos por este governo -, voltaram as acções de formação. E muito bem concebidas e formatadas em torno das TIC (tecnologia de informação e comunicação), título totalitário pretendente à formatação de todas as disciplinas e pedagogias. Só direi uma coisa. Tenho uma colega que frequenta uma acção TIC. O que lhe ensinaram? Que um texto de tese deve ter um prólogo, uma exposição argumentativa, um epílogo. Que novidade nos deu as TIC? Serão as TIC doravante a nos ensinar – como se já não soubéssemos destes assuntos primários – o que desde há séculos (milénios!, vide Aristóteles) as teorias literárias e da argumentação expuseram?! Ora, direi mais uma, e esta inacreditável, de tanta ignorância feita. Foi-lhe dito que uma caixa-de-texto não deve ser justificada mas apenas alinhada à esquerda. Porquê? Por uma questão de gosto? Não, não! Por causa duma descoberta objectiva, de ciência exacta. É que – muito bem visto, muito mal pensado – quando se justifica um texto, o espaçamento das letras torna-se irregular, diminuindo a velocidade da leitura. Já Pierre Janet havia escrito que a psicologia objectivista sabe medir muito bem as coisas mas não sabe que coisas está a medir. Ora, a “velocidade de leitura” só faz sentido – e apenas metafórico – aplicada ao processamento computacional. Os computadores “lêem” letra-a-letra. Mas o homem não é uma TIC, embora alguns membros da espécie tenham tiques formatadores. Pode medir-se a “velocidade de leitura” no homem? E, caso afirmativo, que coisa é essa de “leitura” que tem “velocidade”? As leituras TIC e as leituras humanas são diferentes. O homem lê cada palavra como um todo, conserva na leitura imediata da palavra as palavras anteriores e antevê as seguintes, pelo conhecimento das relações semânticas e gramaticais possíveis e prováveis, em cuja articulação vem a compreensão cognitiva. A “velocidade de leitura” converte-se então em “velocidade de compreensão na leitura” e essa “velocidade” varia, não em razão da distância das letras, mas da capacidade de entendimento do leitor.
A “velocidade” de compreensão do leitor também está relacionada com o factor “interesse”, que bloqueia ou desbloqueia a “mensagem”. Então tentem compreender em que estado lastimável irá ficar, com as novas acções de “forma(ta)ção”, a formação e a respectiva avaliação de professores. Como já dizia Shakespeare (sabem quem é?) “Tanto barulho para nada”. Ou antes, tanto barulho para cada vez mais nada.
3. O pedocentrismo nacional está a ganhar cada vez mais raizes. Não é que o nosso primeiro desatou agora a falar portunhol em pleno território nacional? Estarão a ver o Zapatero a arengar em português em Zaragoça? Não será para ter vergonha jamais de falar não só do que não se sabe mas também de falar como não se sabe? Os exemplos que vêm de cima estão cada vez mais em baixo. Não estará na altura de experimentar as Novas Oportunidades para actualizar – e desocultar (teoria da transmigração das almas) – os conhecimento do castelhano? Talvez uma aulas de espanhol (não digam nada aos bascos e aos catalães)? Que tal? Há por aí, à noite, em horário pós-laboral. É sempre mais fácil do que aprender alemão ou francês. Por isso, está a ter um sucesso dos diabos. Pelo menos para quem não tem Badajoz à vista. Mas não lhe digam que nunca tive aulas de espanhol e todavia sei falar e ler na língua dos nossos “hermanos”. Já agora, fiquei triste mas parabéns ao Barça. E no entanto… ficou-me na memória aquele estranho episódio de assobiarem o hino nacional de Espanha e mesmo assim disputarem e vencerem a Taça do Rei (de Espanha). Qualquer coisa como o nacionalismo anarquista dos catalães. A coerência é sem dúvida o bem mais raro.
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