O Comunismo Real Foi Uma Ditadura Proletária – ou Estaline, isto é, Não Existem Heróis para os Mestres-Escola

 

Headstone of Ernst Bloch, Philosopher, in Tübi...


“Que mestre-escola não demonstrou de Alexandre o Grande, de Júlio César, que estes homens foram animados por tais paixões e que, por conseguinte, foram homens imorais; de onde se segue de imediato que ele, o mestre-escola, vale mais do que essa gente pois ele não teve essas paixões e dá disso como prova que não conquistou a Ásia nem venceu Dario e Poro, mas que por certo vive bem e deixa viver também. […] Não há herói para o seu criado de quarto, segundo um provérbio conhecido; e eu acrescentei – e Goethe o disse dez anos antes -, não porque o homem não é um herói mas porque o outro é o criado de quarto” (Hegel, Lições Sobre a Filosofia da História).



Acabei de ler um texto do sítio Museu do Comunismo (de direita), que o põe em paralelo com o Nazismo, fazendo-os aliás parentes próximos:
 
 
 
O comunismo e os seus crimes, dizem, teriam sido inspirados por Rousseau e por Marx, para não falar na ancestralidade de Platão, e o conflito com o nazismo teria sido resultado do nazismo (nacional-socialismo) defender também o comunismo económico mas com uma perspectiva nacionalista, usando os Krups, Porches, Mercedes, Siemens e outros apenas para o esforço de guerra (!?). Custa-me a engolir. É a Caverna platónica na sua máxima actualidade, na qual eu estou, estamos todos.
Em todo o caso, continuo a pensar que, como alguns parágrafos do Contrato Social de Rousseau, o marxismo, que, pelas suas lacunas programáticas no campo da política e da economia (infelizmente a teoria é sempre mais pobre do que a realidade, por vezes é uma sua caricatura), e através do panfletarismo dramático, adequado à época de barbárie capitalista e expressando o estado de coisas desse período, que não é muito diferente em muitas regiões do mundo actual, do Manifesto de 1947 (os Princípios Básicos de Comunismo, de Engels, do mesmo ano são melhor entendidos no nosso tempo, representando mais claramente os objectivos do comunismo), de facto contribuiu para os argumentos, na verdade mais pragmáticos, na sua tentativa de preservar o imperativo irrefutável do “comunismo” num só país, política que se tornará a política de Estaline. Estaline não era um maníaco – uma maneira de justificar os seus crimes -, era um político arguto e um martelo de ferro cruel. Mas os campos de concentração haviam sido instituídos logo em 1918 por Trotsky, que, por sua vez, acalentava a fantasiosa ideia de uma revolução mundial permanente – ora a revolução alemã fracassara -, a qual, se não poria o mundo a ferro e fogo, representaria o fim quase imediato da revolução. Mais uma para o Louçã; a ironia da História, explicável de maneira marxista, a reintroduzir, com os campos-de-trabalho (Gulag), a escravatura do adversários através do sistema “socialista”!, por necessidade deste, nas circunstâncias de um cerco global. Poderia ser de outra maneira numa sociedade que herdou a miséria czarista e devastada por três invasões sucessivas, a menos que se voltasse atrás, ao capitalismo incipiente nas cidades e à servidão campesina, e por que preço? Talvez houvesse uma alternativa, educando os Kulaks e os camponeses analfabetos. Talvez com a, na verdade bem pensada, Nova Política Económica, de Lenine, uma alternativa à escravatura, mas que indignou os revolucionários proletários e os lançaram nos braços de um Estaline com sanhas de impor uma colectivização forçada sobre os camponeses, que, dada a sua cultura, só podiam ver nela um roubo e uma ofensa de morte. Fantasia ideológico-religiosa que se converteu em realidade, ao destruírem eles próprios os seus bens e colheitas e ao serem levados para campos de trabalho por sabotagem e destruição da propriedade colectiva. Foi a inexorável lógica objectiva da revolução.)
Ah, mas é fácil falar, pois assim que se mete o combóio em andamento é como se este não tivesse travões nem pudesse fazer marcha atrás. Devia ter-se pensado nisso? E como? A coruja de Minerva só levanta voo ao anoitecer e o Sol diurno da esperança pode ofuscar os obstáculos trágicos.
Todavia, para mim, o marxismo (prefiro-o denominar materialismo histórico-dialéctico, porque se desenvolve), como ciência geral do Ser, da História e do psiquismo humano é válido, mais do que qualquer outra filosofia. Que historiadores notáveis como Gordon Childe, Maurice Dobb, filósofos como Maurice Cornford, Lucien Goldmann, Evald Ilyenkov, Ernst Bloch, E. Shorojova, Lucien Sève, psicólogos como Lev Vigotski, Sergei Rubinstein, Henri Wallon, Renée Zazzo, marcam ainda indelevelmente as suas áreas de investigação! O marxismo vem sendo assimilado nas ciências sem que estas dêem por isso!
Sem dúvida que a ciência é um campo muito mais fácil para o marxismo do que a prática política.
No primeiro caso, confronta alguns erros teóricos, mesmo que ainda persistam  na investigação dominante, por resistência ideológica de defesa, consciente e inconsciente, da sociedade burguesa, desmontando os princípios idealistas e dualistas (portanto espiritualistas e individualistas), anti-científicos, pró-mitológicos, que lhes subjazem, nomeadamente na ontologia, na teoria da práxis, na História, psicologia, sociologia, economia, etc.
Nas ciências naturais, apenas, e já é muito, dá conta, sem se intrometer no rumo da investigação nem na formulação das leis concretas (seria dar a entender que o marxismo não respeita o seu próprio princípio gnosiológico fundamental: o critério da práxis!), dos processos dialécticos, reflexivos e interactivos, internos e externos, que lhes subjazem (como, aliás, nas ciências humanas; não é o caso de haver uma ontologia natural e de uma instância de livre-arbítrio mágico que seria a realidade humana, como pensam, de uma maneira inconsequente, autores como Alian Badiou, mais kantiano do que marxista. É uma ideia, de resto, politicamente perigosa, pois nela se baseou o maoísmo – mais um desvio teórico-prático do marxismo – para fomentar revoluções culturais e económicas desastrosas porque não tinham base material e que, portanto, nada tinham a ver com uma política baseada em princípios marxistas.)
A prática política é muito mais complicada porque a aplicação de uma doutrina social enfrenta a resistência de classes antagonistas a nível mundial, com os seus aliados circunstanciais (por exemplo, os assalariados bem pagos, ou os miseráveis comprados, aos capitalistas), assim como a modificação permanente das relações de força entre os interesses partidários e de classe em jogo e das políticas económicas capitalistas resultantes das crises por que passam as relações de produção, assim como da constante modificação da composição das classes sociais, do desenvolvimento tecnológico, militar, artístico, mediático, etc. Uma sociedade não se ganha com argumentos teóricos mas através da combinação precisa dos fins inalienáveis do projecto social com as circunstâncias e os novos estádios de desenvolvimento que se vão sucedendo sem parar, dos quais se têm que retirar os elementos (científicos, tecnológicos, de gestão) positivos para a construção de uma sociedade sem classes a partir do próprio interior do processo capitalista na sua dialéctica com a luta pela sua superação.
O marxismo só precisa de renovar o projecto social (não é nada de novo: tem estado sempre a renová-lo, sobretudo quando a queda do comunismo lhe abriu os olhos para os malefícios estratégicos do absolutismo político e da gestão autoritária, assim como para a repressão da expressão e da criatividade no indivíduo e na cooperação livre no trabalho: a quadratura do círculo?: talvez não, com o progresso da tecnologia e da educação, que a tornará dominável por cada vez mais pessoas, condição necessária, ainda que insuficiente da sua emancipação) mas sem desistir da luta política e social sistemática contra toda a forma de capitalismo. Fá-lo sempre promovendo a paz, nunca a violência como princípio de acção, e apenas usando do dramatismo que se impõe quando a exploração (injusta distribuição social económica e propriedade da riqueza produzida necessariamente, nas condições capitalistas, à custa da mais-valia retirada ao trabalho dos outros) e a guerra dramatizam por si mesmas a realidade em que se vive. Menos, é certo, quando por vezes se desvia dos seus princípios, por erro, por desespero ou por oportunismo. Continua a perseguir os seus projectos, ao contrário do que fizeram os desmanteladores do partido comunista italiano (Berlinguer), dos que descaracterizaram os partidos comunistas francês, espanhol e outros, facilitando a recuperação dos privilégios capitalistas, o ataque ao Estado social e o belicismo, agora, como tantas vezes no passado, dissimulado de humanitarismo.
A vida é bela e o mundo não é só guerra e luta de classes. Mas estas existem, reduzem a beleza da vida e é preciso desmontar as suas causas. Talvez não tenhamos que fugir dos escolhos de Cila para cair no turbilhão de Caríbdis.
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