Filosofia – Necessidade ou Privilégio

 

 
A Filosofia começa onde uma convicção profunda e fundamental é posta em causa. Daí que a disciplina de Filosofia no secundário seja um paradoxo difícil de resolver. Daí também que a Filosofia tenha sido desde sempre, de certa maneira, elitista e continue a sê-lo também agora. Elitista, não por ser privilégio de gente bem nascida ou de pessoas cuja força de vontade e brilhantes capacidades intelectuais as tivessem arrebatado da caverna platónica em direcção ao Sol da verdade.
De facto, não basta a um homem (ou mulher) o desenvolvimento das suas competências intelectuais a partir da compreensão e aquisição criativa dos saberes do nosso tempo. Este saberes – científicos, técnicos, jurídicos, artísticos – não fornecem por si próprios uma visão consciente da realidade que ponha em causa os preconceitos de origem social e inconsciente que vinculam os indivíduos a uma interpretação da essência do mundo, da sociedade, dos valores, do psiquismo humano.
Já poucos acreditam na afirmação de que “as pedras caem para baixo”, de que “as coisas têm cor” ou de que “o Sol gira em volta da Terra”. As revoluções capitalistas fizeram das ciências naturais um instrumento teórico dos processos de produção comandadas pela burguesia e as técnicas elas mesmas naturais que comprovam as suas descobertas caucionam-nas sem mais apelo.
Contudo, numa sociedade na qual as relações de produção invertem a consciência que o homem tem delas – confirmando a veracidade aparente de fórmulas tão simples e redutoras como “os empresários pagam a subsistência dos assalariados”, “a raridade é a causa do valor das coisas”, “o excesso de consumo é o motivo da crise económica”, “é a ganância que faz a riqueza como a pobreza”, “o trabalho regulado diminui a produção”, “a propriedade privada é que motiva o trabalho”… Também numa sociedade cuja consciência social é cada vez mais determinada pelos grandes meios de comunicação ao serviço dos seus patrões, transformando, a partir da finalidade individualista da actividade produtiva no capitalismo,  as vítimas em agressores e os agressores em vítimas, os exploradores em benfeitores, a manipulação em liberdade de expressão, o individualismo em liberdade individual, o livre-arbítrio (“Nasci livre, vivi livre e a morte libertar-me-á” – epitáfio de Cristina II da Suécia) no critério da liberdade, toda a regulamentação em opressão, toda a planificação em constrangimento, a exploração do trabalho na única iniciativa económica viável, o altruísmo em mnipulação e o egoísmo em honestidade… Também numa sociedade que, devido ao seu referido individualismo, só é capaz – com as excepções que as contradições sociais permitem – de pensar o homem em termos de neo-evolucionismo biológico, de condicionamento operante, de mecanismo lógico-cibernético ou, para os mais tradicionalistas e nostálgicos, de alma, a Filosofia dominante converte-se necessariamente no seu contrário – numa expressão mais ou menos reflexiva da sua consciência social, inconscientemente condicionada.
Por isso, Marx escrevia que a realização da Filosofia é o fim da própria Filosofia. Até lá, só poderá ser um privilégio.
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