Fátima, Religião e Ópio do Povo

  

“Bendita seja uma religião, que derrama no amargo cálice da humanidade sofredora algumas doces e soporíferas gotas de ópio espiritual, algumas gotas de amor, fé e esperança.” (Heinrich Heine).


Heinrich Heine



E esta “oração” do grande poeta alemão do século XIX, Heinrich Heine, um dos poetas preferidos deKarl Marx e de Friedrich Engels, continua assim no essencial.


Cá entre nós, com Nossa Srª deFátima através da aparição do três pastorinhos, que recomeça por estes dias a ser celebrada. Esta mistificação, que consolidou a santa aliança entre o fascismo português (por ser diferente do italiano, não deixa de ser fascismo: ideologia do Estado como valor supremo, raça lusitana, a Mocidade Portuguesa) e a Igreja (não sem alguns desentendimentos pontuais), aproveitou-se do modelo ancestral das epifanias, das súbitas manifestações do sagrado no espaço profano, em palavras simples, das crendices do povo.

Ora, estas não passam de miragens suscitadas pela sobreposição, por assim dizer, do princípio do desejo, condicionado pelo mito, sobre o princípio da realidade, de interpretações perceptivas dos dados-dos-sentidos mediante a sobreposição ou projecção de pré-imagens desencadeadas por emblemas interiorizados de crenças.
Associada simultaneamente à redenção das misérias da vida e ao castigo da transgressão na procura de uma existência fora dos limites socialmente determinados, que a religião hipostasia, tais imagens fantasiosas vêm carregadas afectivamente e em simultâneo com o pânico e com uma espécie de amor sublimado, sentimentos que se relacionam com os actos de súplica e de submissão.
No entanto, esses sentimentos e actos estão compreendidos numa estrutura cultural complexa. A religião dos livros sagrados, a fé monoteísta, é essencialmente, numa unidade paradoxal na aparência, em simultâneo uma ideologia de identificação, uma cultura de discriminação, um discurso de poder, uma justificação de resistência e a procura da salvação das misérias do mundo através da súplica e da submissão. A prevalência desta ou daquela dimensão na prática religiosa depende das circunstância sociais em que ela está inscrita, exceptuando a súplica e a submissão, as quais podem revestir-se, todavia, de sentidos e de objectivos variados conforme os tempos.
A religião torna-se tanto mais forte quanto mais a superstição for acentuada pelas imagens, pelas epifanias, pelos milagres. Uma religião sem narrativas que misturem a História com o sobrenatural, sem um deus patriarca e castigador, uma religião sem esperança, em suma, uma religião não teísta mas deísta (crença num ser criador mas do qual nada sabemos, nem pelos livros sagrados e que, sendo, por hipótese um ‘deus ex machina’, pode até nem ter interferência nas leis da Natureza e nos costumes), tem pouco efeito nos sentimentos, nos valores, no curso do mundo e da vida social e privada das pessoas.
Daí que quando as coisas começam a correr pior em Portugal, renasça como Fénix das chamas do Inferno real, a trilogia famosa: Fátima, futebol e fado. Com efeito, estes três “éfes” ressurgem entre nós com mais intensidade e urgência quando a pobreza e a instabilidade materiais aumentam. É preciso que um poder acima das contingências da matéria (social, física, mental) se apresente, não só como o suporte de um sentido para além delas, um além metafísico, mas que  se constitua sobretudo como um paliativo espiritual para a impotência (efectiva ou imaginária) de transformar a realidade.
O triste resultado é que os crentes acabam por infernizar ainda mais a vida, a deles e a dos outros.
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