A Escola de 12 Horas


 
À partida, 12 horas é um exagero, acima de tudo porque se trata dum projecto desde logo viciado por um objectivo que não é o das crianças mas dos pais, pressionados pelo empresariado sôfrego de lucro, em especial em época de crise. Mas tudo depende do que seja a escola, em particular se permite ou não a liberdade de escolha pelas crianças das actividades extracurriculares – sem uma rígida pré-programação por parte dos pais ou do plano escolar – e da possibilidade de existirem tempos de actividades espontâneas entre pares, e mesmo de espaços e momentos de privacidade. A educação ao longo da História, nunca foi um exclusivo da família, e sobretudo a formação informal, quotidiana, em todos os aspectos, morais, convivenciais e afectivos, técno-práticos, etc.. As afinidades electivas constróem-se na base originária do colo intrafamiliar mas devem extender-se, para que a criança se torne um ser humano autónomo, completo e desembaraçado, à multiplicidade das relações espontâneas e institucionalmente organizadas da sociedade inteira. Só se pode crescer na escola e fora dela. Se a escola monopolizar o dia, definindo as crianças num modelo “standard” de educação, sem atender às necessidades particulares de cada uma, inclusive a muito natural necessidade das crianças fantasiarem livremente e criarem a sua esfera e mundo pessoais, então a escola torna-se opressiva, no constrangimento da diversidade potencial de maneiras de ser. Mas viver o mundo é o único modo de o dominar e de nos conhecermos a nós próprios e aos outros. O grande perígo que vejo na escola a 12 horas é, pois, pelo que disse, a possibilidade de encerrar as crianças na esfera concentracionária das actividades pré-programadas.
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