Nova Pedagogia e Novos Vingadores

 

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O sr. Guilherme Valente, em defesa das suas diatribes contra os movimentos da Escola Nova, e das novas pedagogias, a que chama de “eduquês”, que lutaram, às vezes melhor, outras pior, contra o ensino tradicional ex cathedra, autoritário e meramente reprodutivo, usa de meios torpes para distorcer os objectivos, as práticas e os sucessos desse movimento que contribuiu para o acesso e progresso na educação e formação para a cidadania e para a autonomia criativa de milhões de crianças. É verdade que a dita Escola Nova, que não tem a uniformidade de fins e de métodos que muitas vezes se lhe atribui, se viu manipulada, por vezes conscientemente, pelo sistema político – que nunca foi comunista, nem oriental nem ocidental -, assim como pelos interesses imediatos dos progenitores, em vista de angariar apoiantes através da estatística, do facilitismo e até do embrutecimento, ou do ensino por baixo, das gerações, reproduzindo assim as diferenças tradicionais de classe.
Mas tratou-se de uma perversão dos objectivos e métodos dessas novas pedagogias, que, por seu lado, numa sua parte, que não toda (as pedagogias marxistas não caíram nesse engodo, não da oposição dialéctica, que tem sempre que existir, mas da antinomia ideológica burguesa entre cultura e indivíduo, entre aquisição cultural e criatividade individual, entre autoridade e liberdade), foi também incapaz de compreender que ao “aprender-a-aprender”, tarefa essencial de qualquer aprendizagem, tem que corresponder um conteúdo através de cujo conhecimento experimental e exercitado realmente se aprende a pensar e a fazer, que a autonomia exige uma base de conhecimentos teóricos e práticos sólidos, que a autoridade do saber e do saber-fazer do professor tem que constituir referência para o aluno (ninguém aprende sem uma autoridade, embora se aprenda mal com autoritarismo), que as disciplinas não são todas iguais e que, por conseguinte, os seus métodos têm que ser diferentes. 
Os novos vingadores fingem não perceber que apenas substituem uma perversão pedagógica, da responsabilidade da ideologia dominante (individualista e operacionalista), mas também adequada à integração de formas contestatárias juvenis no sistema político dominante pela sua assimilação no processo produtivo de acumulação de capital e a objectos de consumo, por uma outra pedagogia, igualmente produto da ideologia dominante mas talvez mais eficiente, que, usando de meios  tradicionais e autoritários, adequados a esta nova época de pós-democracia, embora eu não acredite que possa pôr de lado todos os conhecimentos adquiridos pelas experimentações pedagógicas modernas, pretende formar melhor as gerações para o domínio científico-tecnológico necessário à produção e reprodução de bens de consumo e de entretenimento e, em última análise, de capital, mas, por falta de equilíbrio entre a aprendizagem técnico-científica e uma formação humanista profunda e sólida (sistemática e em procura da verdade), com prejuízo para a liberdade de pensamento, para a autonomia cultural, social, económica e política efectiva.
schoolboy-farmer
No blogue “De Rerum Natura” o sr. Guilherme Valente escreveu isto:
“Houve quem achasse excessivo o título do meu último artigo no Público (também colocado no DRN), «O Regresso da Senhora Ching» e o paralelismo de natureza entre a ideologia do «eduquês» e a Revolução Cultural maoísta. A esse propósito, achei interessante propor a leitura de um pequeníssimo fragmento (apenas um exemplo…) de «Testemunhos da EraMaoísta», incluído na obra ”Ensaios sobre a China” (editora Cotovia) , de Simon Leys, um grande sinólogo, fascinado pela civilização chinesa, que nunca confundiu o seu povo sofredor de uma irredutível humanidade com o regime comunista de Mao:
«Corolário desta exclusão imposta a todos os elementos socialmente impurosindependentemente da boa vontade de que dêem provas: as pessoas “bem-nascidas” gozam, essas, de todos os favores. Que Proust proletário nos descreverá os mecanismos deste Jockey Clubàs avessas?
Como sempre, são os rebentos da “nova classe” que são os mais insuportáveis. O seuatrevimento e a sua arrogância não conhecem limites e, por si só, conseguiram transformar a vida dos professores num purgatório: actualmente, não há na China profissão mais ingrata e mais maldita que a de professsor.
H. .., que trabalhou vários anos em diversas escolas de Cantão como professor provisório, descreve-me esta experiência como um autêntico calvário.
Quanto mais impecável é a sua “linhagem”, menos estes alunos se sentem obrigados a prestar atenção ao que se tenta ensinar-lhes. Seguros da sua impunidade, desafiam o professor, que não ousa repreendê-los com medo das represálias; efectivamente, todo aquele que tentasse impor-lhes a sua autoridade ver-se-ia imediatamente acusado de “reprimir aespontaneidade das massas revolucionárias“.
Assim que perdem o pé no seu trabalho escolar, denunciam o professor pelo seu “mandarinismoesotérico ” ; o infeliz é aliás chamado à pedra pelo director da escola quando as quotas dos exames dessa bela juventude são demasiado medíocres: “O que é que lhe deu para perseguir estes filhos de proletários? É por causa da sua educação burguesa que julga que se pode permitir…”, etc.
Durante bastante tempo, H… impôs a si próprio fazer graciosamente horas extraordinárias, indo a casa destes mariolas para lhes dar explicações e procurar mantê-los à tona ou repescá-los à força. Por fim, acabou por seguir o conselho cínico e sensato de um colega mais experiente:
“Se quer pôr fim aos seus problemas, é muito simples: eleve automaticamente as quotas de todas as crianças de ‘boas famílias’… “.”
Eis a minha breve resposta:
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