Jogos Olímpicos ou Jogos Mercenários?

image-2300

O nascimento não é condição necessária para que alguém pretenda legitimamente fazer sua uma nacionalidade. A nacionalidade não é uma questão de genes ou de raça mas de prática de pertença a uma História e ao processo nacional, ligado a um contexto civilizacional universal, de desenvolvimento e transformação dos seus valores políticos, morais, religiosos, artísticos, económicos, etc. Um verdadeiro membro de uma nação – portanto também um seu possível representante – é aquele que, mesmo tendo nascido estrangeiro, conhece e vive o país que o acolheu e quis fazer seu. Não é aquele que apenas se quer aproveitar dos benefícios que ele lhe oferece sem lhe dar nada em troca a não ser o cumprimento do serviço de um contrato legitimado pela atribuição oficial de uma nacionalidade. E para isso, é preciso viver anos no país que adoptou. E também não parece ser compatível com a mudança de camisola. Uma nação não é um clube nem é uma empresa. Querer ser desportista por um outro país apenas porque o seu não lhe dá as condições – desportivas, de rendimento, de prestígio – que desejaria, descartando-o como se deita fora uma camisola de um momento para o outro para vestir outra que lhe dá mais vantagens pessoais, sem que que tenha vivido nesse país o tempo suficiente para se tornar um membro efectivo de uma história nacional, tem um nome. Esse nome designa um negócio praticado pelos Comités Olímpicos, pela Federações e alegremente aceite pelo povo. Esse nome é “mercenário”.
A menos que estas coisas de povo e de nação não passem, como para muitos, de uma vigarice impingida aos homens para que alguns pudessem garantir e conservar os seus privilégios económicos. Não sendo inteiramente falso, o caso é que é indesmentível haver povos e nações, costumes e línguas, histórias culturais e políticas. A menos que fosse preferível o fim das nações, das línguas, das tradições e que, em nome da paz e da liberdade individual, assim como do comércio e da indústria, todos passássemos a ser cidadãos de um Estado mundial e falássemos apenas inglês, suprimindo tudo o que nos diferencia como povos, relacionando-nos somente, aqui entre nós, enquanto indivíduos privados que elegeriam, na condição pública de cidadãos, um governo mundial de acordo com um mínimo denominador comum. Esta é uma questão a meditar.
Mas, desde já, os Jogos Olímpicos teriam que desaparecer como uma competição de nações para se tornarem numa prova na qual as camisolas tivessem inscrito apenas o nome de cada um ou da empresa pela qual correriam. E assim teria fim a hipocrisia.
Cito aqui uma passagem de um artigo sobre o assunto, que vem no jornal O Público na sua versão “em rede”.
02.08.2012 09:20 | Por Luís Francisco
“O Comité Olímpico Internacional exige um período de três anos ao serviço de um país para aceitar a sua inscrição nos Jogos Olímpicos, mas abre excepções quando os comités dos países de origem não levantam objecções. Dois exemplos: em Londres, a ex-húngara Aniko Pelle integra a equipa italiana de pólo aquático e o nadador Alexandr Tarabrin, que era da Rússia, nadou os 100 e 200m costas pelo Cazaquistão. Ambas as autorizações chegaram a apenas dez dias do início dos Jogos.
Olhando para Portugal, e para lá de Carolina Borges-Mendelblatt, há muito mais por onde escolher quando imaginamos um mundo sem fronteiras. Luciana Diniz (equestre) nasceu no Brasil e é portuguesa desde 2006; Zoi Lima (ginástica artística) é portuguesa, de Toronto; Yahima Ramirez (judo) é luso-cubana; Arseniy Lavrentyev (natação) nasceu na Rússia e viveu 18 anos na Ucrânia antes de se tornar português em 2006; Lei Mendes (ténis de mesa) veio da China e casou-se com o seu treinador, que é português. E, quando choramos as grandes ausências, lembramo-nos deNelson Évora (Cabo Verde), Naide Gomes (S. Tomé e Príncipe) ou Francis Obikwelu (Nigéria)…
Já se tornou de tal forma rotineiro competir ao mais alto nível por dois países diferentes que para encontrar casos verdadeiramente notáveis será preciso escalar mais um degrau. E aí encontramos a triplista Yamilé Aldama, que nasceu em Cuba, país que representou nos Jogos de Sydney, em 2000, e depois assumiu a nacionalidade sudanesa para Atenas 2004. Na verdade, por essa altura já ela queria ser britânica, mas o atraso no processo obrigou-a a procurar uma solução alternativa. Agora, em 2012, quase aos 40 anos (que completará a 14 de Agosto), ela vai envergar a camisola do Reino Unido.
No tiro com arco feminino, outro caso de longevidade e multinacionalidade: Khatuna Lorig representa os EUA (já o fez em Pequim 2008), depois de se iniciar em Barcelona 1992 pela equipa unificada das ex-repúblicas soviéticas (bronze individual e ouro colectivo) e ter competido sob a bandeira do seu país de nascimento, a Geórgia, em Atlanta 1996 e Sydney 2000.”
Anúncios