A Origem Social da Filosofia

 

Pedro Mota
 
O Filósofo não é um ser à parte, desinteressado do mundo ou idealizando, fora do contexto e da avaliação do que supõe serem as condições reais de existência, um modo de vida e valores por si julgados superiores.
Ele está profundamente enraizado na sua época e na sua sociedade. É um ser histórico e em situação, limitado pelo horizonte possível do seu tempo, que ajuda a definir no campo das ideias. Fá-lo, integrando o passado de que emerge, o presente cujas condições, sucessos e fracassos experiencia, de um ponto-de-vista pessoal e social, determinando as questões que formula, e integrando também o futuro, no qual idealiza um mundo em que as inquietações suas contemporâneas continuem a ter ou já não tenham razões para existir.
O filósofo expressa da maneira mais abstracta e geral a realidade, as possibilidades, os receios e os desejos que o mundo do seu tempo faz surgir nas mentes mais atentas dos homens.
Os primeiros filósofos, os pré-socráticos, viveram a decadência da justiça praticada de maneira privada, clânica ou tribal, justiça de honra e de sangue, semi-natural e justificada sobrenaturalmente, dado que a Natureza, em sociedades pouco desenvolvidas, parece ser coisa anterior à vontade humana e relativa a poderes divinos. Mas o mundo aristocrático, agrário e militarista, assente em tradições milenares que pareciam ter sido dádivas ou determinações divinas, está a ser substituído por uma forma mais abstracta, universal e impessoal, distinta da força e da tradição , nas cidades constitucionais, semi-democráticas, dos séculos VII a V a. C..
Nestas cidades começava a prevalecer a reciprocidade formal, impessoal, quantificada e institucional da justiça, com julgamentos em tribunal determinados por leis abstractas, formais, indiferentes à qualidade dos arguidos, e resolvidos frequentemente por compensações em dinheiro, uma forma abstracta e não particular (ao contrário do ajuste pessoal, por vingança ou perdão, pela força, pelo privilégio de origem, etc.) de compensação. Aumentava o reforço do Estado com as suas normas universais, garantes de algum equilíbrio nos conflitos de interesses políticos e económicos. Acrescia ainda a monetarização das relações sociais entre os homens, em especial no comércio,  medindo-as pela substancia uniforme da moeda e levando-os simultâneamente a posições de conflito.
Estes primeiros filósofos tenderam a interpretar como uma ordem inalterável do universo as relações que se manifestavam na sua sociedade abstraindo-as das suas expressões concretas e generalizando-as assim a todo o Ser. Este começou a ser pensado como uma ordem constituída por uma substância comum a todas as coisas diversas e que é ao mesmo tempo geradora de elementos e forças contraditórias.
Os limites da consciência do seu tempo impedia-os de compreender que estavam antes a projectar a realidade social no universo em geral.

 
*
Em função da historicidade da Filosofia, os filósofos do presente preocupam-se, além das questões tradicionais, como o fundamento da realidade (Espírito ou Matéria?) ou a relação homem/sociedade, igualmente com problemas que outras épocas não se podiam colocar, como as relações entre o cérebro e o pensamento, entre a realidade original e a realidade virtual, entre a consciência e a sua imitação pelas máquinas, com as  suas consequências na transformação do homem e da sociedade, ou com questões como a defesa do ambiente, com hipóteses sobre alternativas económicas ao antagonismo entre patrões e assalariados, etc.
Anúncios