Ética Marxista – Um Contributo Para o Presente e Para o Futuro

 

Uma investigação para uso livre (mas respeitem o direito do texto ao seu autor) de quem quer divulgar o conhecimento científico da origem, fundamento e propósito da moralidade. A partir das teses do livro de Titárenko,  Fundamentos de Ética Marxista, assim como dos Manuscritos Económico-Filosóficos, de Marx, e de Eugen Duhring Revoluciona a Ciência, de Engels.
 
A ética marxista distingue-se 
– da ética deontológica porque para ela não existem  princípios e formas universais de conduta eternos e imutáveis, a priori, independentes da experiência histórica e social dos indivíduos.
– da ética utilitarista porque esta toma por critério de moralidade a felicidade dos indivíduos e o bem estar social sem compreender que a moral não se reduz aos efeitos benéficos das acções tal como são idealizados numa certa época. A moral consiste na dimensão valorativa que os agentes históricos (classes sociais) atribuíram e atribuem aos seus actos e projectos, em frequente contradição com os interesses de outros agentes (outras classes sociais) que vivem na mesma sociedade.
– da ética religiosa, ou revelada, porque para o marxismo a religião é um produto social e mental. A religião resulta da ideia ilusória, fantasista, que os indivíduos e as colectividades têm da origem espiritual, sobrenatural, mítica, dos seus actos e costumes.
«Toda a moralidade é determinada social e historicamente – eis a tese fundamental da ética marxista. O conteúdo objectivo da moral traduz o carácter das relações sociais, concretamente das relações de propriedade dos meios de produção, da interacção entre diferentes grupos sociais e classes, das formas de distribuição [da riqueza produzida] e troca [comércio], etc.» (Titárenko, A.,Fundamentos da Ética Marxista).
Cada sociedade tem o seu padrão moral dominante mas, na medida em que existem alguns elementos básicos comuns a todas as sociedade, e na medida em que se vai desenvolvendo uma única História do homem, devido ao progresso e à mundialização, vão-se destacando alguns valores universais.
A moral é um conjunto coerente de estereótipos reais, isto é, modelos de comportamento e normas, avaliações e interdições, preferências e rejeições, justificadas por ideias acerca das boas e más condutas. A moral é, pois, um código de conduta que as pessoas, grupos e instituições se impõem umas às outras nas suas sociedades, orientando as suas acções em todos os aspectos da vida social. 
A sinceridade, amizade, honestidade, fidelidade, honra, coragem, sempre foram apreciadas como valores indispensáveis em qualquer sociedade e por qualquer classe social como o acervo moral necessário ao seu funcionamento, mesmo antes da mundialização ocorrida com as chamadas Descobertas ou Expansão europeia.
Em contrapartida, a moral da classe proprietária dos meios de produção (donos e accionistas de fábricas, de serviços, de campos agrícolas) não é exactamente a mesma que a dos assalariados, a dos artistas não é a mesma que a dos empregados de escritório, a dos cientistas não é a mesma que a dos desportistas, a dos adolescentes é diferente da dos pais, etc., apesar de também terem valores em comum por fazerem parte da mesma sociedade.
Na sociedade actual, burguesa, os capitalistas fazem da sua propriedade, da riqueza acumulada e da sucessão familiar os valores soberanos, prescrevendo aos seus assalariados a ideia de que os patrões, a dependência dos assalariados relativamente aos patrões (porque são preguiçosos e irresponsáveis), a concorrência regulada entre patrões (porque só assim há criatividade) e a propriedade (só se tem respeito por aquilo que é nosso) são imprescindíveis para que se produza riqueza, haja liberdade de movimento e de expressão e se mantenha a sociedade organizada. 
É porque, na sua perspectiva, os assalariados precisam sempre de alguém que mande neles, porque só se tem gosto por aquilo de que se é proprietário e porque sem concorrência entre proprietários a produção e a criatividade estagnam. 
Esta é a moral e a sua ideologia, ou seja, o seu sistema de argumentos de justificação do estado-de-coisas.
Os assalariados, por sua vez, convencidos pelo poder dos empresários e pela própria existência da sociedade capitalista, convencem-se de que as coisas têm que ser assim e não podem ser de outra maneira.
É a outra face da ideologia burguesa.
Mas outros assalariados, assumindo outros valores – os valores da igualdade de direitos e da condição social entre os homens –, acreditam ser possível uma sociedade sem classes sociais, ou seja, sem propriedade privada dos bens sociais e dos meios de produção, em que haja uma associação livre dos produtores e criadores, onde não haja guerras provocadas pela concorrência e pela desigualdade internacional de desenvolvimento económico. Lutam, assim, contra o sistema.
É a ideologia proletária, ou dos assalariados, na medida em que têm consciência dos valores pelos quais podem defender os seus interesses e fazer avançar a Humanidade, a acreditar-se na filosofia marxista.
Não há só diferenças de valores entre classes sociais: os artistas valorizam especialmente a criatividade expressiva, os cientistas as descobertas de leis, os técnicos as invenções e os assalariados médios o emprego. 
Muitos, refugiando-se na alienação, valorizam a pura fantasia, os divertimentos fáceis, além de sonharem com os privilégios dos ricos.
Como as mulheres sempre foram as responsáveis pela casa e pela educação dos filhos, vivem mais intensamente os valores que lhes estão associados do que os homens.
Por isso, há diferenças, embora também semelhanças, entre as reivindicações sociais dos homens e das mulheres.
O material natural primitivo que deu origem à moral foi constituído pelos sentimentos de grupo e reacções dos animais, material etológico coordenado por mecanismos psicofisiológicos. 
Contudo, há uma diferença qualitativa entre esses comportamentos e a moral, uma vez que esta é uma forma particular da consciência social.
Nas primeiras etapas de desenvolvimento, o homem possuía uma consciência arcaica que representava um todo ecléctico – ou sincrético: o bem, o verdadeiro e o belo identificavam-se – dentro do qual ainda não se distinguiam os aspectos cognitivo, moral, artístico, etc., da relação com o mundo. 
Só no regime gentílico se iniciam os processos de diferenciação das formas de consciência social e da gestação da ciência, da arte, da religião e da moral.
Nestes primeiros tempos, inclusive no regime gentílico, na formação da consciência moral a imitação revestia-se de enorme importância.
O mesmo se passa no nosso tempo, no caso das crianças e dos adultos que não desenvolveram a capacidade de autonomia moral.
A moral fixava-se na consciência humana, não por reflexão e argumentação mas através dos mitos (uma função que a religião ainda preserva), ritos, canções, danças, teatro, etc.
No processo do trabalho no período das hordas iam-se formando as relações sociais primitivas e a ordem habitual da vida.
A coordenação no trabalho dos homens primitivos não foi produto imediato da regulação moral. No início, era o resultado do cumprimento das exigências intrínsecas da produção. 
Não havia, portanto, a necessidade de apoiar estas exigências naturais e necessárias com a moral, porque os homens primitivos não podiam produzir mais do que era indispensável para a sua subsistência física.
Mas à medida que a divisão do trabalho se começou a estabelecer entre os sexos, a idade, ao mesmo tempo que se deram as separações consanguíneas, as regulamentações sexuais, surgiu a necessidade da regulamentação moral consciente.
Os homens primitivos começaram a distinguir na sua actividade o que era útil e nocivo, tendo assim aparecido os protótipos das noções de bem e demal.
A passagem da horda à organização gentílica da sociedade consiste na transformação de grupos de organização informal, talvez baseada no sexo, na divisão rudimentar do trabalho, na força e na idade, em grupos ordenados interiormente por laços distintivos de parentesco: 
a gens é um grupo de pessoas unidas pela hereditariedade, o que supõe uma ordem normalizada de trocas sexuais e de bens entre as várias gens (famílias) da mesma tribo ou de tribos diferentes, isto é, um cumprimento de regras de relação e de cooperação.
Os valores morais expressavam a identidade de parentesco por consanguinidade.
Assim, davam valor à diferença da tribo face às outras e à união de todos os membros da tribo acima da sua hierarquia baseada em relações quase naturais, de sexo, idade e consanguinidade.
No regime gentílico-tribal, que se seguiu às hordas, também ainda não havia contradições de classe.
Neste regime, podemos ver a base primitiva da origem da moral (o comunismo primitivo): se não trabalhas, não comes
Os costumes do regime gentílico-tribal sustentaram o valor da igualdade, como princípio mais importante da vida daquele tempo, ou seja, aquele valor pelo qual, nesse tipo de sociedade, as diferenças entre os direitos e deveres devem  corresponder apenas às diferenças de funções ancestrais atribuídas em função da idade, do sexo e dos laços de sangue.
Esse valor moral supremo estava de acordo com as relações gentílico-tribais, sem classes, sem propriedade privada, sem exploração e opressão, apenas com uma divisão social baseada na forma alargada de família, onde o pai se transformava em basileus, chefe tribal, rei e sacerdote.
Cada indivíduo não possuía ainda liberdade de escolhanas suas acções pois estas estavam associadas a uma necessidade imediata de sobrevivência, no início sem excedente apropriável por privados, e não podia decidir entre o trabalho e a apropriação do trabalho dos outros como modo de vida.
Quando, com o desenvolvimento das forças produtivas, se deu o surgimento do excedente, mantendo-se todavia a ameaça constante da penúria, com o desenvolvimento da tecnologia, a divisão do trabalho, a repartição desigual da riqueza, o surgimento dos contratos económicos de matrimónio, gera-se com isso a possibilidade detransgredir
Quanto mais complexa é a sociedade, mais regras ela impõe, quanto mais regras mais transgressõessão possíveis, e mais transgressões são tentadas quanto mais as regras limitam o acesso à riqueza produzida, estabelecendo distribuições desiguais da produção. 
Como o aparecimento do excedente, surge a necessidade da passagem do regime gentílico-tribal para o Estatal e esclavagista.
Surge, pois, a liberdade de escolha nas acções
Melhor ainda, quanto mais a sociedade se liberta da relação directa com a natureza, ou seja,quanto mais os indivíduos se libertam da necessidade imediata e de um comportamento determinado pela sobrevivência, 
mais espaço há para a escolha, para a interiorização, fundada na possibilidade consciente de decidir entre diversas condutas opostas, das normas ou da sua transgressão. 
Desenvolve-se a consciência do valor de si próprio, como pessoa, e surge a noção do livre-arbítrio.
Ora, a transgressão, se corresponder a forças sociais emergentes, transforma-se numa nova moral, que contradiz a anterior.
As tribos primitivas que vivem na floresta consideram-na sagrada, inviolável. São também supersticiosos relativamente ao seu comportamento para com a natureza e desenvolvem rituais cruéis baseados na ideia de troca justa entre ela e o homem.
Mas os indivíduos, cuja vida depende do abate das árvores ou da extracção do minério do subsolo, não podem ter uma relação de amor e de respeito pela vida independente da floresta; pelo contrário, esta é para eles acima de tudo uma fonte de matérias-primas. 
O desenvolvimento económico derrotou os valores que resultaram da dependência directa do homem da natureza e do mistério que esta apresentava para ele, deixando-os para quem se relaciona com ela de maneira contemplativa, alguns artistas e os místicos, e substituindo-os pelos de valor de uso e de valor de troca.
As atitudes morais, antes de se tornarem hábitosconscientes, não podiam ser percebidas como algo que se entende por si mesmo, como uma forma de relação social diferenciada. Mas já se desenvolvia a base da vida moral: regras simples de comunicação, sentimentos de colectivismo, ajuda mútua, etc.
As palavras com significado moral surgiram (diz a linguística) de termos com significado concreto:bommauigualdadeamizade, o meu, o alheio. É que a regulação moral estava apenas a surgir.
Os primeiros conceitos morais eram extremamente polissemânticos. Os conceito de bombelo,verdadeiro, ainda não eram separados, fundindo-se em um só semantema. A generalização sensorial concreta da vida quotidiana da tribo assumia naquela etapa o papel desempenhado posteriormente pelas abstracções com significado moral (princípios, normas, avaliações e conceitos).
Dado que a autoconsciência moral de cada indivíduo era subdesenvolvida, a imitação revestia-se de enorme importância na vida prática. 
A moral fixava-se na consciência humana mediante os mitos, canções, ritos, etc.
A percepção artística confundia-se com os seus elementos moralizantes. 
Os princípios ético e estético não se distinguiam ainda um do outro.
bem e o mal tornam-se atributos das forças espontâneas da natureza, o que demonstra como o homem não tinha consciência da sua subjectividade, vivia no meio de percepções onde se moviam objectos, confundindo o objectivo com o subjectivo. Tinham uma vivência impressionista das coisas.
Em geral, o pensamento do homem primitivo era orientado para o mundo exterior; a autoconsciência e a auto-avaliação encontravam-se em estado de gestação… 
Os etnógrafos afirmam unanimemente que nas tribos primitivas a reprovação ou a aprovação estão sempre relacionadas com algo de exterior –espíritos dos antepassados, tradições e hábitos, tabus mágicos, etc. 
Mesmo os remorsos de consciência – reguladores mais íntimos da conduta – são concebidos como perseguição das forças externas.
O subdesenvolvimento do homem como personalidade correspondia aos processos mais simples e rudimentares de regulação da sua conduta próprios da época primitiva.
A consciência moral de si próprio do homem primitivo era relativamente não contraditória porque as prescrições e a conduta, as avaliações e os actos não estavam ainda separados e formavam portanto um todo primitivo e natural.
É na formação da sociedade de classes que a moral perde a sua não contradição
Os valores sociais primitivos da igualdade passaram a colidir com as relações sociais entretanto constituídas, provocando assim o desenvolvimento da moral e da sua consciência como esfera particular. 
Formaram-se novas e contraditórias morais apoiadas pela filosofia e pela religião, onde se conceptualizavam e fundamentavam aquelas, as quais correspondiam a interesses de classe e à justificação de modos de vida correspondentes ao desenvolvimento social.
A transição para uma sociedade dividida em classes foi um progresso.
O regime gentílico-tribal deu lugar a sociedades estatais, de estilo asiático e ao esclavagismo.
O esclavagismo, com efeito, foi a primeira e a mais simples divisão social do trabalho que substituiu a divisão natural ou familiar e tribal, produtivamente limitada. 
A expansão territorial e em efectivos dos povos deu origem ao Estado, à propriedade privada e à escravatura, proveniente dos desapossados das terras e dos prisioneiros de guerra.
A desintegração da formação social gentílica e o surgimento da propriedade privada despertaram as “fúrias” do interesse privado e arrancaram a Humanidade do estado de hibernação, rompendo as cadeias que ligavam os indivíduos às obrigações familiares e tribais tradicionais, à reprodução das relações ancestrais baseadas na igualdade entre os membros dos vários patamares da hierarquia tribal. 
Este modo de vida acorrentava os homens a deveres para com a família, os chefes tribais, a regras invioláveis de ascensão social, a tipos rígidos de comportamento de acordo com a sua função social pré-traçada, e a uma economia de subsistência e de troca directa.
O indivíduo tinha que reproduzir a ordem ancestral da tribo e não podia desenvolver actividades sociais, particulares e económicas que rompessem com ela, inclusive acumular bens para si através da exploração dos outros, nomeadamente através da escravatura.
O indivíduo estava condicionado por superstições (medos e rituais) e preconceitos.
Com a sociedade de classes (dirigentes estatais e religiosos, assalariados e escravos) – no Crescente Fértil da Mesopotâmia, nas civilizações do Indo, do Nilo, etc. –, com o aparecimento das contradições sociais, da oposição entre a ordem social, as suas classes sociais e o indivíduo separado dos outros por elas, chegou o momento do progresso no desenvolvimento da pessoa humana, da sua libertação das superstições e das tradições.
Começaram a formar-se novos valores espirituais.
As virtudes do membros da colectividade gentílico-tribal forjaram-se na subordinação cega ao hábitos ancestrais, tabus místicos e superstições.
As suas qualidade morais não eram o resultado da opção moral consciente, do conflito das motivações, os quais se iam modelando nas sociedades de classes.
As prescrições morais primitivas, que se cingiam apenas aos membros da mesma tribo, ligando o valor de cada um à tribo em que nasceu, são substituídas por valores mais universais.
Nasce, com a sociedade de classes, a concepção do valor moral da pessoa, independentemente do parentesco por consanguinidade gentílico-tribal, das diferenças raciais e nacionais, mas agora ligado à sua classe social e à competência com que desempenha o papel reservado por ela.
Já não são tanto a consanguinidade e a pertença tribal que contam mas a classe social e, sobretudo, a diferença entre aristocratas, sacerdotes, plebe e escravos.
Mas, com essas contradições de classe sempre em desenvolvimento e em circunstâncias novas, os indivíduos têm que começar a tomar decisões que já não estão pré-estabelecidas pelos costumes ancestrais. 
Pertencendo a classes em conflito, têm também que deliberar o melhor modo de agir e de tomar decisões com implicações morais, ou seja, de se confrontarem com os intenções e com as consequências dos seus próprios actos.
Tornam-se íntima, pessoalmente responsáveis pelos seus actos, passam a ser verdadeiros actores morais, criadores e não apenas reprodutores de condutas ancestrais.
A separação entre os valores ancestrais e os valores que justificam as novas necessidades do indivíduos, levam-nos a ter consciência de si mesmos com pessoas que tomam decisões por si próprias. 
Ao terem que deliberar e decidir, tomam consciência de si como agentes morais e cuja acção voluntária tem valor moral. 
Ora, agir moralmente é também ter valor moral pelas acções que conduzem.
A divisão da sociedade em aristocratas e párias minou a moral igualitária da sociedade gentílico-tribal.
O antagonismo entre ricos e pobres, entre aristocratas e plebeus, entre homens livres e escravos, obrigava ao aparecimento de uma nova moral, que traduzia os interesses particulares de classe.
Os mais poderosos, apoiados numa nova estrutura social, o Estado, procuravam fazer da sua moral a moral de toda a sociedade, justificando assim a sua supremacia sobre as outras classes.
A moral dominante considerava o escravo com tendo o valor de um instrumento falante, cuja vida era igual ao valor de um animal.
Como eram os escravos que trabalhavam, o trabalho (desde a lavoura e as minas às artes plásticas) passou a ser considerado uma maldição, uma coisa para gente inferior, e não uma forma de um homem se realizar, de desenvolver os seu talentos humanos.
Platão, de resto um filósofo e escritor genial, atribuiu, de acordo com os padrões morais do seu tempo, três virtudes aos cidadãos do Estado esclavagista: sabedoria (governantes), coragem (aristocratas e cidadãos militares), moderação (artesãos e mercadores livres).
Não fazia menção à dignidade moral dos escravos.
Mas era evidente a contradição entre as ideias e os factos: muitos dos escravos tinham sido homens livres, tantos escravos eram mais cultos e talentosos do que tantos outros cidadãos e aristocratas. Basta pensar em Espártaco, que se revoltou contra a sua condição, no filósofo romano estóico Epicteto, nos escravos gregos que decoravam as casas dos senhores com belos frescos, na própria semelhança física entre escravos e homens livres.
O grande filósofo estóico romano Séneca escreveu o seguinte aforismo denunciador: “O homem é sagrado para o homem”.
O estoicismo (o imperador Marco Aurélio era um filósofo estóico) era uma espécie de filosofia igualitarista da Antiguidade: para o estoicismo, todos os homens são iguais perante a lei moral. 
Neste aspecto, o cristianismo acompanhou, como religião, a filosofia estóica. O cristianismo integrou religião judaico-cristã, platonismo e estoicismo.
A moral feudal é a expressão das dependências hierárquicas e de estratos sociais, mais ou menos rígidos.
Muito embora o cristianismo pregasse a igualdade espiritual entre os homens (perante o juízo de Deus), que é de terem livre-arbítrio, a Igreja assumia também que devia haver uma razão moral e mesmo cósmica qualquer para que eles tivessem uma origem social tão desigual, que uns fossem clérigos, outros nobres, outros servos, artesãos e mercadores, até escravos. Cada qual tinha o seu lugar predeterminado na sociedade com o fim de preservar a sua ordem natural prescrita por Deus. 
Uma coisa é a igualdade espiritual na medida em que todos os homens são por essência uma alma imortal e dotada de livre-arbítrio; outra é a diferença entre os homens em termos do seu valor moral efectivo.
O prestígio e o valor moral do indivíduo dependia, assim, do seu estatuto e não do facto de possuir qualidades morais pessoais. 
Numa sociedade predominantemente de subsistência e de troca directa, numa sociedade fundiária e militarista, numa sociedade em que a Igreja tem um papel preponderante, como agente político, militar e fundiário, o dinheiro não é bem visto.
Segundo os pensadores da Idade Média, os motivos económicos da actividade destruía a predestinação nobre do indivíduo, prejudicando os seus objectivos espirituais (religiosos).
A riqueza existia para o homem, não o homem para a riqueza.
Por isso, o comércio, a compra e a venda eram considerados como a forma inferior de actividade, até inferior ao trabalho do lavrador.
Na verdade, o enriquecimento, sobretudo através da acumulação de capital financeiro, ameaçava destruir a ordem social fundada na predestinação dos indivíduos a fazerem parte de uma hierarquia rígida, na qual o dinheiro, muito menos importante do que seria depois, era apenas um meio e não um fim.
A moral que vigorou na sociedade feudal compõe-se de várias normas e preceitos, feitos para conservarem e reforçarem a ordem social e garantirem o céu: honra de estrato social, lealdade de estrato para com os mais velhos, benevolência, hospitalidade, dever de proteger os membros da corporação profissional e a devoção.
Em suma, a moral feudal justifica (como ideologia) a forma feudal de relação social assente na dependência pessoal dos indivíduos desiguais em termos de estatutos sociais.
A relação feudal de dependência pessoal (face ao senhor das terras, da Igreja, do mestre da profissão artesanal) dos indivíduos pela desigualdade dos seus estatutos sociais vai ser substituída, na sociedade burguesa capitalista (1ª revolução industrial capitalista no século XVI, a par com a expansão europeia), pela relação de dependência impessoal (sem laços pessoais que não os de um mero contrato) do trabalho de uns para com a propriedade dos meios de produção de outros.
Da dependência de pessoas, passa-se à dependência das coisas, ou seja, daquilo que são os instrumentos de trabalho, na posse de outros, e de tudo o que só o dinheiro, pago como salário, pode comprar.
Gradualmente, ao longo dos séculos de revolução capitalista (culminando com a Revolução francesa e a sua Declaração Universal dos Direitos do Homem), todos passaram a ser iguais entre si.
Todos passaram então a ser iguais, mas apenasformalmente.
A igualdade formal ou burguesa, no entender do marxismo, consiste no carácter universal do direito, na igualdade de jure, mas não na igualdadede fato.
Por exemplo, todos podem ser proprietários de empresas, mas só alguns poderão sê-lo efectivamente, porque seria impossível, por causa da estrutura da própria sociedade que lhes confere esse direito – a capitalista, necessariamente dividida em proprietários e assalariados –, a todos usufruírem desse direito.
Todos têm direito à justiça, mas quem tem mais dinheiro, tem mais direito.
Todos têm direito ao trabalho, mas só quando houver emprego.
Todos têm direito à saúde, mas os mais ricos têm-nos mais do que os pobres.
Todos têm direito à vida e à paz, mas apenas quando os interesses da concorrência capitalista o permitirem.
Todos têm direito à liberdade de expressão, mas só quem tem mais dinheiro e poder político, ou quem está mais protegido por ele, é livre de se exprimir.
Os senhores feudais e os servos da gleba, como principais agentes produtivos da Idade Média, cederam, grosso modo, o lugar à burguesia (proprietária de meios de produção e de comércio).
Constituiu-se o mercado mundial, diluíram-se as relações patriarcais e pessoais (entre pessoas ligadas por laços de dependência política e profissional hierárquicos), substituídas pelas relações monetário-mercantis e de empregador-assalariado (relações impessoais, baseadas em necessidades comerciais e financeiras), gerando novos modelos de imitação e novos padrões morais de conduta.
Surgiu também um novo ideal de homem, com um novo espectro específico de virtudes. Oindividualismo passou a ser o princípio de conduta como tendo os seus motivos já não nas normas e interesses colectivos e sociais mas no cálculo individual, para o qual aqueles são meros meios e já não também fins.
Não é contraditório que o individualismo tenha saído vitorioso através da proclamação dos valores expressos pelas revoluções burguesas: liberdade, igualdade, fraternidade.
Os indivíduos tornaram-se livres, mas para empregarem e venderem a sua força de trabalho por motivos estritamente individuais.
Os indivíduos tornaram-se iguais para perseguirem os seus objectivos privados.
Os indivíduos tornaram-se fraternos para criarem uma sociedade na qual, através do direito, os homens possam respeitar mutuamente a sua procura de enriquecimento pessoal.
As revoluções burguesas proclamaram a igualdade para se verem livres dos entraves medievais ao livre comércio e contratação e para fundarem as relações económicas e sociais no princípio da empresa privada, garantido pelos instrumentos do Estado capitalista. 
O princípio de empresa privada pôs o indivíduo no centro da actividade sócio-económica. 
A posição do indivíduo no trabalho, nas relações de produção, não está pré-estabelecida. A empresa burguesa, capitalista, abre possibilidades mais vastas para o desenvolvimento da individualidade, tanto do empresário quanto do trabalhador, embora muito mais do empresário.
Ao emanciparem as suas actividades das normas, valores e regras medievais que as limitavam, passavam a depender apenas de si, do seu capital e da sua competência no trabalho.
Desenvolveu-se a consciência da identidade pessoal e o sentimento da dignidade de si próprio. O homem torna-se autónomo, já não está dependente de relações pessoais, de ordens sociais, de deveres pessoais para com estas e para com o rei. Age por sua conta e risco, é responsável pelos seus sucessos e insucessos, mesmo que ainda faça do Estado um instrumento para a sua salvaguarda.
Todavia, e por conseguinte, o valor e a dignidade humana passam a como padrão o sucesso do homem como empresário, mais até do que como político, técnico e militar.
Para Marx, «tanto as ideias quanto a igualdade e a liberdade não são mais do que as expressões idealizadas do intercâmbio dos valores de troca.» Quer dizer, a igualdade e a liberdade dos homens na sociedade burguesa são essencialmente a forma legal da transacção livre nas relações económicas.
Toda a restante igualdade e liberdade (de expressão, de justiça, de eleição dos seus representantes políticos, etc.) derivam dessa igualdade económica básica, que é, como os seus derivados, uma igualdade apenas formal (embora este “apenas” seja muito importante e uma conquista civilizacional irredutível).
Esta igualdade, por ser essencialmente a forma legaldas relações de produção burguesas, é o modelo estereótipo das avaliações características da consciência moral burguesa.
As pessoas são iguais e livres para perseguirem os seus objectivos individualistas nas relações capitalistas, baseadas no cálculo do capital.
Impõe-se assim o cálculo egoísta interesseiro nas relações entre as pessoas. As relações interpessoais tomam a forma de uma contabilidade dos benefícios e das perdas.
Os valores tradicionais da honra, da lealdade, da hospitalidade, provenientes da Idade Média, relacionados com as ordens sociais, têm ainda muita importância na esfera burguesa do privado, mas dão lugar à má-fé quando entram interesses financeiros.
Os elementos básicos da consciência moral burguesa na esfera pública são a honestidade e o dever.
Eles são a contrapartida da liberdade nos negócios: não basta a lei para fazer cumprir a palavra dada, mesmo escrita. A moral reserva-se a função de imperativo de consciência e de auto-controlo, que a lei do direito não tem.
Mas a moral burguesa é dúplice e auto-contraditória: por um lado honestidade e dever são condições para a sociedade burguesa; por outro, a mesma sociedade, com o seu sistema de concorrência, valoriza o pragmatismo (o que interessa são os resultados) e portanto todos os meios são legítimos para atingir os objectivos (com o Estado, no interesse dos empresários, atento ao caos provocado). 
Por um lado, defende a igualdade entre os homens; por outro, estabelece uma diferença moral, de virtudes, entre empresários (activos) e assalariados (incapazes de empreender, fracassados).
Cada esfera da existência social, uma vez surgida, torna-se relativamente independente. A moral e a arte são disso exemplos. 
Deste modo, a moral exerce uma influência sobre o desenvolvimento da produção e de qualquer outra forma da actividade humana.
Os costumes, que em grande parte são morais, possuem um papel regulador, seja na reprodução das relações sociais, seja na formação de novas relações.
Esta acção inversa é provocada pelo carácter imperativo da moral e pelo elemento subjectivo-individual dela. 
O carácter imperativo impulsiona a actividade histórica do indivíduo e a sua actividade criadora social. Leva-o a sentir o valor de uma forma intimamente necessária. 
Se bem que a moral seja objectivamente determinada e o seu conteúdo tenha um sentido sócio-histórico objectivo, representa a esfera do estímulo interno, subjectivo, do indivíduo, que o leva a concretizar as suas esperanças, objectivos e ideais, bem como a transformação criadora da sociedade na qual os ideais servem de pontos de referência.
A moral é, de certo modo, omnipenetrante e multifuncional, multifacetada e historicamente mutável, mas todavia com desenvolvimento coerente e não relativista; é qualitativamente peculiar. 
Não se localiza num objecto mas constitui uma relação.
O conhecimento científico fornece-nos oconhecimento cabível no quadro da contraposição essencial: verdade/erro
O conhecimento artístico do mundo pressupõe o seu conhecimento mediante imagens e a sua transformação na consciência, baseando-se na contraposição belo/feio
Por seu turno, a moral representa um processo valorativo e imperativo do conhecimento da realidade mediante o qual se regula a conduta humana com base na contraposição bem/mal.
Por tudo isso, só se pode compreender a especificidade da moral comparativamente.
Estes diferentes processos do conhecimento do mundo interpenetram-se de certa forma, sem que qualquer deles perca o seu carácter distintivo, e, em lugar de se anularem reciprocamente, exigem uma combinação harmoniosa. Não se pode cair no exagero dos positivistas.
Na prática social entrelaçam-se diversos processos de conhecimento do mundo, complementando-se e enriquecendo-se mutuamente. 
As suas particularidades, que consistem na especificidade da verdade, da beleza e do bem, justificam a sua existência relativamente independente.
 Contudo, as diferenças entre elas não são absolutas, mas sim relativas. 
As relações morais podem ser comparadas com a configuração, com o desenho dos valores consagrados e cultivados no meio social; são, digamos, a estrutura interna dos costumes existentes.
 Representam também a conexão única, internamente organizada e hierárquica de normas e interdições, como um sistema determinado. 
As relações morais representam relações específicas, tanto objectivas quanto subjectivas.
 São objectivas na medida em que resultam de acções reais, materiais, que afectam os interesses dos outros e se formam independentemente da vontade de um indivíduo, representando relações humanas estáveis no meio social. 
Por outro lado, são subjectivas na medida em que traduzem motivações, opções e concepções daquilo que é moral ou imoral e decorrem dos imperativos do dever e da consciência. 
As relações morais… não podem existir como propriedades dos objectos e das acções separadas do sujeito, nem podem ser reduzidas ao mundo meramente subjectivo e individual.
Ainda que a ética científica destaque o papel da motivação moral e, em geral, dos processos racionais de autocontrolo individual (auto-análise, auto-avaliação, etc.), não chega a absolutizar o seu significado porque a moral não pode ser cingida apenas à esfera dos processos meramente lógicos da consciência e, muito menos, reduzida à reflexão, ou seja, à representação de si próprio pelo indivíduo, do valor moral da sua conduta, etc.. 
É que a moral representa um fenómeno integral que se projecta, mediante o critério imperativo e valorativo, em toda a vida mental do indivíduo e, ainda por cima, em todos os níveis: ao nível dos arrebatamentos, ao nível emocional, no da vontade e no da lógica e da reflexão.
A medida do humanismo das sociedades esclavagista, feudal e burguesa, apesar de serem muito diferentes, era limitada no essencial, porque estes regimes se baseavam na exploração do homem pelo homem.
Ao eliminar a propriedade privada dos meios de produção e todas as relações de opressão e subjugação resultantes dela, o socialismo, segundo a filosofia marxista, cria uma nova medida de humanismo nas relações sociais.
O humanismo comunista é universal. Põe como condição o respeito, a ajuda real e a amizade de todos os homens, ou seja, a ideia de que todos os homens, não só na esfera moral ideal (Kant) como também nas relações sociais efectivas, são fins e não apenas meios uns dos outros, partindo do princípio de que cada indivíduo tem direito igual à felicidade (não como em Stuart Mill mas unida à noção de dever, que toma todos os homens como fins).
O humanismo marxista é a luta pelo desenvolvimento livre e multiforme do homem.
Luta, portanto, contra tudo o que deforma a sua vida e limita as possibilidades da sua realização.
Para isso, há uma condição objectiva a cumprir: o fim da exploração do homem pelo homem baseada na existência da propriedade privada dos meios de produção.
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