A Crise da Europa e a Passividade dos Povos – Ideologia

 

 
Ficámos a jeito dos grandes especuladores financeiros e das suas exigências quanto às taxas de juros pelo crédito que nos faz depender deles porque, em grande parte, a Europa, ou antes, as grandes empresas apoiadas pelos governos dos Estados que são delas os cabeças-de-turco desmontaram muitos dois meios produtivos e deslocalizaram-nos sobretudo para a Ásia. Isso, em busca de mão-de-obra à mercê da sobre-exploração do seu trabalho, legislada para esse fim pelos governos locais.
Esta mundialização capitalista levou à acumulação de capital tão imensa como nunca se vira na História e, além de fazer enriquecer e aumentar o poder das grandes multinacionais sobre os governos e sobre os destinos dos Estados-nações, tornou-se a fonte de absorção do capital financeiro, que foge ao controlo estatal e é gerido por fundos e agências de especulação bolsista, de investimento e de crédito que, assim, atacam (porque é o seu negócio) as nações economicamente desinvestidas e desvalidas com juros altíssimos (de risco e de especulação), pois essas nações passaram a viver de produção de bens não-transacionáveis, de serviços e do consumo, que não compensam com a sua enfraquecida capacidade produtiva, aliás vítima dos baixos custos de produção da Ásia.
Trata-se de um processo progressivo de mundialização da economia, desbloqueado pela queda, pela hetero e auto-implosão do sistema socialista, com tudo o que tinha de bom (mais em certos países da Europa) e de mau (em especial na China), de que resultou a actual tragédia greco-europeia.
Mas quase ninguém sabe destas conexões. Grande parte do povo fica limitado à ideia (aparência imediata, miragem ideológica) de que um país é como uma família: só devemos gastar o que ganhamos, no poupar é que está o ganho, fomos gastadores, a culpa é de todos nós, pedimos emprestado o dinheiro dos outros, que lhes custou a ganhar sabem eles como, etc. Assim é fácil: o povo consegue auto-manipular-se pela lei dos efeitos já tão bem caracterizada no século XVII por Francis Bacon nos Ídolos da Tribo.
A economia é uma ironia tal que transforma a consciência das vítimas em vítimas da ilusão de serem os culpados pela crise. A ideologia burguesa é omnipotente e omnipenetrante como a ideia de Deus porque lhe bastar tornar-se tal na medida em que é a representação da forma aparente como os factos se impõem às pessoas e aos povos.
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