Ironia, História e Liberdade

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A ironia é a forma mais livre e elegante do humor: marca distância sem fuga, ao contrário do sarcasmo, e indica elevação sem desprezo, ao contrário da mordacidade.
Também o chiste não fica mal. Porém, só se lhe compara, como uma boa parelha, o humor negro.
O protótipo do mentiroso é Mefistófeles: nada dele se pode esperar a não ser, o que já é muito, o dar-nos a consciência da ilusão, porque ele é a ideologia com que se mascara uma realidade mais cedo ou mais tarde enganosa.
O protótipo do ironista é Sócrates: benevolentemente dá ao enganado os meios de se desenganar a si próprio pela sua própria inteligência. Todavia, Mefisto está à espreita e inverte a ironia socrática: Sócrates é um alucinado, pois não vê o que todos vêm. Maquiavel conhece Mesfisto e os poderes da mandrágora. Ele sabe por isso (escreveu-o ao Príncipe) que as pessoas são facilmente enganadas por aquilo que vêm. É esse o calcanhar de Aquiles com que a multidão é derrotada.
A ironia pode ser também um discurso de silêncio. O silêncio é de ouro. Mas o silêncio normalmente ou é tomado como um poder que se cala ou como o último recurso da ignorância, e fica sem efeito.
Há diferenças subtis no uso da ironia. Há o tipo semântico, a antífrase: dizer uma coisa e significar o contrário (Kissinger mereceu o Nobel da Paz). Há o tipo formal, a litote: a figura que nega (x não é y; o FMI não é a Misericórdia).
A litote vai contra a repetição. É palavra discreta, enunciado mínimo, pudor de afirmar.
Segundo Pascal, a litote é demonstração de poder. Mas sem exibição. Quanto mais económica for a litote, mais expressiva e negativa é.
Há também o oxímero: reunião de duas oposições (a fraqueza do forte). Era, como se nota, muito praticada pelos românticos, espíritos de fortes contrastes.
A ironia é ethos. Na Ética a Nicómaco Aristóteles escreve: “A ironia é disposição e atitude intelectual de certo tipo de homem”. É distanciamento, recuar para ir mais adiante. Como, por exemplo, quando disse Sócrates: “Só sei que nada sei”. Mas há outros tipos de homem, mais credíveis e que nunca tiveram de tomar a cicuta, e que disseram. “Nunca tenho dúvidas e raramente me engano”. São os mais honrados e os mais perigosos.
Nos românticos, de que já falámos, a ironia é oposta à mimesis dos clássicos. A ironia romântica, prefigurada teoricamente por Kant, é embriaguez da subjectividade transcendental e ao mesmo tempo um sentimento de perda (em relação à segurança dos cânones clássicos e à sua verdade). Por isso, Schllegel afirmou que a arte é em simultâneo criação e autodestruição. Lembremo-nos deHaman e do ensaio A Escrita Oblíqua.
Schllegel escreveu também que a ironia consiste na imperfeição como sinal do infinito. A ironia é a consciência de que o imediato é imperfeito. A ironia vê através dos fracassos a plenitude possível e a exigência de superar o fracasso. Mas ironicamente. Por isso, o fragmento é a ruptura do sistema idealista clássico pela disrupção romântica.
A ironia romântica é a consciência do fracasso inevitável da obra. Novalis, o poeta engenheiro de minas, o geólogo ou arqueólogo do espírito, é a figura do fracasso genial e criador: encarna como ninguém o ideal romântico. Novalis é a realização de uma promessa fracassada.
Werther de Goethe é a ficção da própria ironia:  primeiro herói moderno, nega o valor moderno da produtividade pela produtividade, ou pela concorrência.
Tudo isto parece um círculo-vicioso e também um paradoxo, que Hegel vai denunciar, assimilando-o. Contudo, Hegel compreende e ama a ideia da imperfeição criadora portada pelo particular, pelo indivíduo.
A ironia é, com efeito, um discurso sério oblíquo, portanto irónico, que quer ser levado a sério na sua ironia, é uma dialéctica de momentos paradoxais mas que se paralisa quando se lhe pede para criar figuras novas, a não ser novas figuras de ironia.
E, contudo, elas podem ser muito perigosas. Houve uma perversão fascista da ironia romântica. Essa perversão expressa-se desta maneira: viver é dominar e dominar é lançar-se para a morte.
A expressão Reich dos Mil Anos vem de Novalis. Uma utopia que Novalis foi buscar ao Apocalipse, o qual caiu em cima dos judeus dois mil anos depois. Mas em Novalis era apenas a realização prometida do absoluto, de um futuro de liberdade, da realização da subjectividade transcendental. Ora, esta pode ser vista, de forma perversa, como o englobamento totalitário dum sistema único. O romântico é um utópico que teme a sua utopia, um burguês renegado que não quer renegar a sua classe. Um anarquista, em suma. Porque, diga-se a verdade, também se apercebe que se cai então na burocracia do ideal utópico, na administração, no reino do terror.
Voltando a Sócrates e a quem segue o seu exemplo. A ironia socrática, clássica, é heurística (procura o conhecimento). A ironia romântica, vitalista, é nihilista, céptica. Não é por acaso que o clássico Hegel faz a condenação moral da ironia na sua forma romântica, do oxímero.
Hegel sabe bem que a ironia clássica (antífrase e litote) é a ironia dos deuses, que prescreve um destino aos homens. Hegel sabe ainda mais, que a ironia clássica é a ironia real da ironia mitológica, uma partida que os homens fizeram a si mesmos e da qual, portanto, se podem e devem libertar. Há ironias e ironias. As da literatura e as da vida.
A História é a ironia absoluta.
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