Crise Financeira e Ilusões de Liberdade

 

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Pensamos que somos livres. Para acabar com a ilusão, tentem responder às perguntas seguintes:
1-    Somos visados e condicionados pela razão, pelas emoções ou por ambas ao mesmo tempo? O que tem mais poder de persuasão em nós? Porquê?
2-    Somos realmente condicionados de forma absoluta ou a nossa própria cultura e capacidade de reflexão e deliberação permite que façamos das formas de manipulação objectos do nosso próprio pensamento? Quer dizer, há ou não identificação total entre os conteúdos e métodos mentais aprendidos e as ideias e imagens que nos imprimem? Por outras palavras, somos um mero reflexo de conteúdos exteriores, ou podemos reelaborá-los, analisá-los, criticá-los com o nosso pensamento educado?
3-    Quando nos achamos livres, não será o momento em que estamos mais condicionados? Quando julgamos que estamos a pensar e a agir por nossa livre vontade, não será porque estamos a fazê-lo por termos sido determinados nas nossas ideias e escolhas por forças e instituições sociais? Não será porque não estamos realmente a pensar ou deliberar mas apenas a reproduzir ideias que nos inculcaram e actos que imitamos porque há forças sociais que lhes dão um certo mas incerto valor?
4- Somos realmente livres de pensar quando pensamos, por exemplo, que somos os culpados pela crise do país por gastarmos acima das nossas possibilidades? Ou será porque gastámos acima das possibilidades do país, e não das nossas possibilidades mantidas na expectativa de que iríamos manter o mesmo nível de solvência pelas agências de publicidade que foram contratadas pelas grandes empresas e pelos Estados do Norte da Europa para  lhes comprarmos a produção sem que pela nossa parte produzíssemos o suficiente para não desequilibrar a nossa balança de pagamentos?
A nossa falsa felicidade foi enriquecendo as grandes multinacionais, com as suas engenhocas de fascinante prestígio mágico, de satisfação fácil e facilmente frustrada pelo mecanismo da obsolescência, pela rapidez com que se tornam ultrapassados, pela celeridade com que perdem a verdade suprema do momento presente, pois o presente não é sem passado nem futuro, e endividando o país.
E não será também porque os nossos governos (Continente e Madeira), ao serviço de clientelas e de empresas capitalistas, desatou a financiar em excesso grandes obras de construção civil que, dado não serem bens transaccionáveis nem meios de produção, e dado o princípio de que as empresas privadas ficam com o lucro e o Estado com o prejuízo, redundou em cada vez maior procura de financiamento no estrangeiro por parte do bancos e do próprio Estado?
E não será também porque grande parte do capital saiu do sistema bancário português para o sistema de agiotagem internacional, investindo-se em dívida soberana alimentada pelo seu próprio vampirismo?
E não será porque os grandes bancos e os países poderosos, a partir dos quais operam e que controlam (o banco central americano não é propriamente falando o banco central do estado, mas um organismo composto por agentes e meios  financeiros dos grande bancos e que intervém nas grandes linhas da actividade financeira mundial) não estão interessados em deixarem-se controlar por governos que deveriam estar ao serviço dos povos, evitando que o produto do trabalho sirva em grande parte para engordar a especulação financeira?
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Maquiavel escreveu em O Príncipe que as pessoas são enganadas pelo que vêem e assim é possível manipulá-las facilmente, levando-as ao auto-engano. É que aquilo que está oculto pelo que vêem é a causa do que está para eles à vista e que é muito pouco. Produzimos pouco, ganhamos demais e consumimos muito. Mas esquecem-se de que a União Europeia nos transformou em consumidores e pagou para reduzirmos a produção, que a deslocalização nos converteu em consumistas à custa da mundialização da divisão do trabalho e da exploração miserável dos asiáticos, latino-americanos e africanos, que grande parte da riqueza produzida vai para o circuito bancário mundial, que por sua vez financia o consumo, estrangula a indústria, desequilibra a balança de pagamentos, endivida os Estados e fragiliza a segurança social, o ensino e a saúde, fazendo-se pagar a juros especulativos, que é para isso que lá estão, conquistando com isso a própria soberania efectiva dos Estados.
Não! Quando dizem que somos livres apenas reforçam a ideia que temos de nós como seres conscientes que pensam pela sua própria cabeça e decidem o voto na altura da escolha partidária. Nunca somos tão pouco livres como quando julgamos que somos senhores de nós próprios.
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