Eduardo Chitas – É Sempre Tempo de Recordar e de Homenagear

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Reponho aqui a minha homenagem a Eduardo Chitas, que publiquei em Março de de 2011, aquando do seu falecimento.

Eduardo Chitas, meu inesquecível orientador de dissertação, faleceu. Apenas fisicamente. Ficará para sempre na minha memória e na daqueles que acreditam na emancipação espiritual e material do homem. Fica aqui um extracto de um seu texto, rigoroso como todos, intitulado “O Sentido do Mundo Sem Deus”:«Para mim, sentido do mundo significa pelo menos três conjuntos de coisas interdependentes: experiência humana, categoria de totalidade, cultura mundial. (…)
Nenhum dos três conjuntos que balizam ou coordenam o meu “sentido do mundo” carece da presença tutelar de um demiurgo (Platão), de um arquitecto ou relojoeiro de mecânica celeste (Voltaire e outros deístas do seu tempo), de um ser supremo (Rousseau) ou do deus-homem morto na cruz.
«Por toda a parte encontro o sobrenatural imaginado, concebido, instituído ou transfigurado à imagem e semelhança das comunidades humanas que o imaginaram, conceberam, instituíram ou transfiguraram. Por tudo isso, por mais do que isso, Deus é para mim, de raiz, um problema de antropologia, presente como tal na história das ideias e das civilizações, na história da arte e da ciência e, claro está, na fé que vive numa parte da humanidade. Mas presente também, de outros modos, em múltiplos sistemas de dominação, em alianças milenares do despotismo com a superstição, em piedosa resignação com os males do mundo e até, – impossível esquecer isso – na aliança do Evangelho com a libertação dos oprimidos no aquém terreno.
«Do que precede talvez se infira sem dificuldade que, se Deus é um problema de antropologia, então a teologia (literalmente, a “ciência de deus”), quer se lhe chame revelada ou natural, só pode ser compreendida como uma analítica da fé, isto é, para me exprimir à maneira de Kant, como um cânone de deduções formais, como um corpus de proposições dedutivas, não como um organon do conhecimento. Retire-se à teologia a fé, desaparece a pedra de toque da sua validade formal. Nesta perspectiva, as “ciências teológicas” (expressão que por vezes se ouve ou lê) só podem constituir, para o não-crente, um suave equívoco de linguagem.
«Resta um último tópico, que assinalo sem nele entrar: observou Marx que o prefixo a-, na palavra ateísmo, ainda traduz (ex negativo, por assim dizer) uma derradeira ligação ao problema de Deus. Aos ateus que pensam pertence talvez trabalhar a dificuldade, para além desse último vínculo de pensamento e de linguagem.»

Eduardo Chitas está “acima”, se posso assim exprimir-me, do “ateu”. O “ateu”, disse-me ele uma vez, num dos momentos em que tinha o privilégio de aprender com a sua palavra presencial, empenhada, frontal e esclarecida, ainda mantém uma certa ligação, de debate, e de polémica, com a questão da existência de Deus. O materialista histórico-dialéctico não entra nesse debate, não se coloca, pois, numa posição de intolerância, nem de desprezo, mas aborda a questão religiosa dos ponto-de-vista histórico e antropológico, pelo lado das necessidades humanas e da sua alienação, e, por causa do seu carácter ambíguo, como instrumento por vezes de opressão e outras de luta e aliança, equívoca mas muitas vezes positiva, pela liberdade dos oprimidos.

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