Compras e Felicidade

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Há pessoas (a maioria, arrisco) que depositam a esperança na sua felicidade nos objectos que compram, como se eles nos compreendessem através duma transferência mágica da resposta aos nossos desejos. Como se os objectos comprados nos ouvissem silenciosa mas obsequiosamente. Como se objectivassem e, nisso, integrassem em si a nossa própria subjectividade numa permuta que acaba por nos tornar presas objectivadas pelo prestígio da vontade dessas coisas.

Começamos a desejar e a agir em função daquilo que elas nos têm para dar, começamos a respeitá-las como se precisássemos do seu carinho e como se, em troca, devêssemos alimentá-las com o nosso amor.
Mas os objectos comprados, as coisas que olhamos com a ansiedade de uma solidão que suplica redimir-se através da sua resposta, não nos ouvem. Somos nós que colocamos ouvidos neles ou nelas.

A relação com um objecto comprado (o acto de compra confere um valor especial à coisa, espiritualiza a coisa como valor; é desprezado, mal-cuidado, o que não se paga, o que não nos exige um sacrifício) obedece, como se fosse uma lei, a três tempos.

O primeiro, o fascínio, a expectativa assoberbada, a espera da felicidade prometida. É a felicidade prometida pela publicidade. É todavia, em última análise, uma miragem que resulta da combinação indissociável das nossas carências e da desnaturalização económica e emblemática das coisas.

Resulta disso a projecção, a objectivação e reificação nelas do trabalho humano, que se perde na figura do próprio objecto e adquire o poder do seu valor em dinheiro, trabalho abstracto esquecido, incorporado nos bens, as coisas tomando o aspecto de valerem, pelo que valem para nós, por si-mesmas.

Assim, os objectos comprados, os artefactos, a natureza mercantilizada, as coisas parecem-nos capazes de preencher as nossas carências humanas. Elas são produto do trabalho humano universal, realizando e interpretando os interesses comuns, mas ao mesmo tempo diferenciadores, em termos de estatuto, pelo custo que têm, pela forma da sua distribuição.

Ao contrário das relações de interesse egoísta, de uso, de poder, de incomunicabilidade causada pelas oposições que os indivíduos estabelecem entre si, há uma comunicação pacífica e de compreensão mútua de nós com as coisas. São o melhor amigo do homem, não o lobo do homem.

Mas eis que uma segunda fase começa. É o tempo da desilusão. As grandes expectativas desabam. Quanto mais alta a esperança, maior a queda.

Mais ainda. Podemos vingar-nos dos objectos comprados. Podemos ignorá-los, molestá-los. Porém, não nos respondem. Uma vingança sem resposta nada vale. A verdadeira comunicação, se possível, ainda que agressiva, só pode acontecer entre os homens. É essa a descoberta, e é essa a grande queda.

A solidão absoluta instala-se, assim que descobrimos que já ninguém nos quer pelo que somos pois o que somos é apenas a paixão pelas coisas. As pessoas, apesar de nos fazerem o mesmo, não perdoam esse supremo desprezo de serem preteridas por objectos comprados.

O último momento da nossa relação com as coisas é a de uma tentativa de recuperar a amizade dos únicos seres que podem ter empatia connosco: os nossos próprios inimigos humanos.

Muitas vezes perdeu-se qualquer possibilidade de reconciliação e tudo (até as coisas, que, com dificuldade, tentamos passar a olhar como simples objectos utilitários) se divorcia de nós.

Recordo-me de um casal (ele arquitecto, ela desconheço) que se separou porque ela o traiu com uma paixão por um edifício que estavam a acabar de construir ao lado, com apartamentos de suposto luxo. Recordo-me ainda de um outro, cuja mulher se recusava a emprestar o carro e o Mac portátil ao marido (chegava mesmo a escondê-lo), com medo que ele os estragasse.

O que se estragou foi evidentemente a relação. Mas não estaria já ela estragada, quando um homem é trocado por uma coisa?

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