Murais ou Graffitis?



Graffiti in Bethlehem





Não me refiro a murais mas a graffitis (traços, riscos em latim).


Superabundância de energia criativa ou subcultura do individualismo e do subjectivismo na estética? Subcultura da marca pessoal ostensivamente obscena, da evacuação do mau gosto ou rebaixamento das conquistas culturais pelo gosto da desordem, do caos inconsciente na rua? Subcultura do desprezo pelo espaço público quando este, raramente, materializa traços da inteligência humana? Subcultura da ausência de critério, mesmo do critério da negatividade sábia, da ruptura com padrões esgotados? Subcultura da pura negação do saber artístico, que se extasia quando por vezes consegue algo um pouco mais elaborado? Subcultura da satisfação por um pouco menos de incompetência, mas que não se sustenta em qualquer reflexão artística sobre as grandes questões éticas, existenciais, políticas, sociais, científicas, sobre as questões estético-artísticas acerca da relação entre forma e conteúdo? Subcultura que não produz verdadeiras obras-de-arte, porque não se eleva a elas pelo trabalho de expressão plástica dos grandes problemas históricos, sociais, subjectivos, pelo trabalho reflexivo, amadurecido, sobre o conhecimento e sobre os valores? O problema, como tal, não está nos murais mas na sua qualidade e também na oportunidade ou respeito pelo contexto arquitectónico e paisagístico.


Quando Robert Rauschenberg pintou os seus quadros todos brancos em protesto contra o excesso e a vulgarização das imagens de um passado recente já demasiado banal e banalizado, não estava à espera de ver estas nódoas na paisagem, que, por si só, é quase sempre uma nódoa.

Dito isto, torna-se evidente que, para referir apenas alguns artistas dos séculos XX e XXI, Siqueiros, Ozorco, Rivera, Haring, Basquiat e, com alguma condescendência, Bansky (ver mural acima), entre outros (de quem se pode ver alguns murais aqui), não são grafiteiros mas fizeram murais, obras de arte, melhores ou piores mas de cunho original (ninguém os confundiria na sua espontaneidade cuidada mas autêntica, às vezes surpreendente mas sem efeitos gratuitos, não se ficando pela estética superficial do engraçado, da imaginação gratuita) e com sentido crítico (um mundo formalmente muito próprio associado a tomadas de posição éticas e sociais).


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