Metafísica Versus Filosofia Marxista

Karl Marx
Karl Marx (Photo credit: Dunechaser)

O debate acerca do sentido da Metafísica, da procura sistemática de uma razão para o mundo em forças suprasensíveis, nas quais se deveriam buscar também o significado e o fim do homem e de todas as coisas da experiência de que ele é sujeito, tem a dignidade das meditações académicas intermináveis, ‘secula seculorum’.
É também claro que, desde aquele filósofo grego que pontapeou uma pedra para provar a existência do movimento (prova dolorosa cruelmente acusada de ser fraco argumento, a não ser para a justificação de ligaduras e unguentos), se procurou mostrar o carácter absurdo e antropologicamente derivado de tais elevações do desejo ao plano cósmico da causa espiritual de todas as causas.
Duas das mais recentes, tendo em conta a vastidão do tempo histórico, e significativas advertências, verdadeiramente ofensivas, contra o suposto valor intrínseco da Metafísica vieram da Filosofia Crítica de Immanuel Kant, no século XVIII, e do Materialismo Histórico-Dialéctico de Karl Marx, no século XIX. Os seus argumentos são distintos.
Kant, cume das Luzes que assimilou o materialismo individualista fisiológico, herdado dos filósofos franceses, ao seu idealismo teórico hipotético, e o dobrou reflexivamente ao seu idealismo prático incondicional, viu na Metafísica uma questão psicológica e um mal da cabeça, todavia suficientemente pacífico para poder ficar em regime aberto em qualquer hospital de loucos muito parecido com qualquer das sociedades de que temos conhecimento.
Marx, por sua vez herdeiro de um mundo que começou a olhar o individualismo burguês como uma expressão da exploração económica e da alienação social por parte dos beneficiários directos dos direitos humanos, interpretou a persistência da Metafísica em termos de mistificação sociológica como uma inversão, tão natural como a dos objectos na retina, das verdadeiras relações reais, em particular quando concebe a alienação humana como um estado natural e teológico das coisas em vez de ser a expressão mental da alienação material a que uma força puramente mundana e nada teológica havia conduzido o homem. Essa força era o próprio homem na relações sociais contraditórias a que o seu desenvolvimento histórico havia conduzido. E não era bonito atribuir as culpas ao Espírito do Mundo, ao Deus dos filósofos.
A racionalização dos pecados do mundo tinha sido muito bem posta em forma duma história de ideias pelo filósofo alemãoHegel, e Marx, apesar de lhe ter elogiado algo da sua metodologia dialéctica (confronto contraditório que leva ao progresso), apercebeu também nela a mais consumada das mistificações da ‘via crucis’ humana. E cascou na sua doutrina. Marx e os seu continuadores, cujo argumento vamos expor aqui de maneira sumária.
A dialéctica especulativa de Hegel explicita e oculta o fundamento da alienação identificando-a com toda e qualquer objectivação. Arrebatando as operações económicas de desapossamento, existentes num contexto histórico de apropriação capitalista do produto do trabalho, no plano do absoluto, confunde a manifestação sensível das aptidões com o aspecto de positividade da auto-negação do sujeito, o qual se recupera negando, por sua vez, essa alteridade e descobrindo no infinito do Espírito auto-reflexivo a sua verdadeira substância. Porém, visto que o indivíduo é, por definição, uma consciência-de-si como consciência, quer dizer, um ser diante do seu ser-outro, de forças estranhas em que precisa de objectivar as potencialidades para subjectivar aquelas forças na forma de necessidades, permanece necessariamente, enquanto ser finito, na condição de um ser alienado da sua essência.
Escreve Bottigelli que «No fundo, a noção de alienação em Hegel era o reflexo das contradições que existem no mundo capitalista. Era a tradução na linguagem especulativa duma realidade que Hegel aceitava tal como os economistas clássicos a haviam analisado. Transpunha no absoluto as contradições [empíricas, históricas] do mundo real.», justificando a sua perpetuação efectiva ao considerar, nessa medida, a consciência-de-si a essência humana, deixando indistinta objectivação e alienação, vendo no indivíduo um ser espiritual em derradeira instância. Estes dois resultados paralelos foram detectados por Marx na página XVIII do “caderno III” do manuscrito autógrafo de Paris:
«A apropriação das forças essenciais do homem tornadas objectos e objectos estranhos é, portanto, em primeiro lugar apenas uma apropriação que se processa na consciência, no pensar puro, i. é, na abstracção, a apropriação desses objectos como pensamentos e movimentos de pensamento, pelo que já na fenomenologia […] está […] latente o positivismo incrítico e do mesmo modo o idealismo incrítico da obra posterior de Hegel […]»
Se a dialéctica hegeliana é a forma das mediações deste pseudo-processo, desta mistificação, da identificação do homem com a consciência-de-si, duma actividade espiritual que se manifesta como negatividade, sendo esta que está na sua base, deixa de ser utilizável para uma concepção materialista do indivíduo e da sociedade que representa a objectividade como o próprio da sua realização, a consciência um produto consequentemente actuante da actividade material, objectiva, humana.
A dialéctica especulativa é a racionalização lógica da alienação real, e, num certo sentido, a sua forma mais abstracta e alienada, tal como a metafísica é a metamorfose e a fundamentação pseudo-racional do antropomorfismo religioso.
É isso que Marx significa com esta célebre passagem dos Manuscritos Económico-Filosóficos de 1844:
« – A lógica – o dinheiro do espírito, o valor de pensamento, o [valor] especulativo, do homem e da Natureza – a sua essência tornada completamente indiferente face a toda a determinidade real, e por isso essência irreal […]»
A verdade da dialéctica hegeliana oculta-se sob o véu inefável da transposição metafísica da alienação real na objectivação espiritual, transposição que é apenas o reflexo numa mente filosófica do facto alienante do trabalho intelectual separado do trabalho prático, portanto, reduzido à esfera da reflexão, assim como do facto da instrumentalização (alienação) da objectivação produtiva, chocante para o filósofo, que trata logo de sublimar a corrupção da carne e a opressão da vontade na forma duma lógica espiritual. A lógica de Hegel é a lógica dum espírito alienado por um mundo alienante. É por isso que podemos dizer com Bottigelli: «O criticismo de Hegel não era senão aparente, pois, tendo reconhecido a alienação, justificava-a, dava-lhe um fundamento, em lugar de a suprimir. Por outras palavras, a filosofia de Hegel não passava, no fim de contas, da justificação, pelo pensar, da ordem existente.» A doutrina hegeliana em nada contribui para o progresso efectivo da liberdade e da dignidade, pois a sua lógica, que é a da realização do Espírito como tal, “é indiferente face a toda a determinidade real”.
A dialéctica hegeliana deve, portanto, ser entendida, parafraseando Michel Vadée, como uma abstracção fundada na alienação real do homem.
Mas, na medida em que o é, exprime, embora de um modo idealista, em termos de movimento espiritual, as contradições reais, donde vai buscar as ideias de oposição dialéctica e de devir, assim como o seu conteúdo devidamente adaptado.
Este argumento filosófico-sociológico é muito interessante, mas ainda conserva um certo respeito para com a vetusta dignidade da Metafísica.
Coisa que o diagnóstico médico de Kant não admite minimamente, como vamos ver pela citação de uma passagem da sua obra, de nome Antropologia do Ponto de Vista Pragmático, e que faz cintilar mais os nossos neurónios habituados no presente ao paradigma de uma explicação fisiológica para todos os devaneios, não deixando sequer de evocar a semelhança de tal doença com a dos participantes de um programa que existe na televisão portuguesa desde o tempo dos dinossáurios (e ninguém se lembra de fazer nada pelos pobres coitados!):
«A desrazão (vesania) é a doença de uma razão perturbada. O doente mental descola para lá de toda a escala da experiência, põe-se a perseguir princípios, não tendo de modo algum em conta a pedra-de-toque da experiência, e imagina conceber o inconcebível. A descoberta da quadratura do círculo, do ‘perpetuum mobile’, a manifestação das forças suprasensíveis da natureza e a compreensão do mistério da Trindade estão em seu poder. É o mais calmo de todos os pensionários do hospício e, na medida em que a sua especulação está fechada sobre si-mesma, a mais distanciada do estado de furor: porque, plenamente contente de si-mesma, deixa de lado todas as dificuldades do que explora. Esta quarta sorte de desarranjo [a seguir à perca de todo o sentido, ao delírio e à insânia] poderia ser chamada de sistemática.»
Meus amigos frequentadores do programa de filosofia leccionado em Portugal, bem vindos ao hospício.
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