Prostituição e Liberdade

Se há prostituição (feminina e masculina), existem causas muito diferentes para elas e compete-nos, não discriminar nem condenar moralmente a pessoa que a pratica. Quem o faz deve ter os direitos sociais de todos aqueles que vivem das suas actividades. Porque, se há prostituição, e ela é uma profissão milenar (e houve até civilizações em que era também religiosa), existe uma necessidade subjectiva, pessoal, com origem social objectiva para a sua presença permanente. As prostitutas têm de lutar pelos direitos que lhes garantam a defesa contra a exploração.
Proibir, discriminar, condenar moralmente quem a pratica não são soluções. Mais, constituem atitudes hipócritas (lavo daqui as minhas mãos) ou ignorantes. Também – manda a ideia de liberdade como livre-arbítrio – cada qual pode usar o seu corpo como lhe aprouver.
Mas há uma outra questão, moralista, poderão dizer. É que a moral não é um sistema de mandamentos transcendentes, não tem um sentido necessariamente pejorativo: é o conjunto de valores (cultural e historicamente diverso) necessário para nos definirmos como pessoas. E a ética é uma reflexão sobre o que somos e como devemos existir no mundo à luz do que julgamos ser a nossa dignidade e realização como seres humanos. Não é também uma questão de obrigar aos nossos valores mas de discuti-los, de não ter ideias feitas.
E, já agora, a prostituição não será mais um sinal de opressão sexual (não só das prostitutas) do que de liberdade? É que uma das características da sociedade burguesa que a distinguem do feudalismo é a liberdade de comércio e de escolha do tipo de emprego. Ora, na bela imagem do nosso grande Espinosa, a criança julga ser livre quando deseja o leite e todavia é a necessidade que desconhece – ou que não comanda pelo seu livre-arbítrio incondicionado – que lhe impõe esse desejo.
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