Namorar, Acasalar e a Beleza – Quem Vence: A Biologia ou as Ciências Humanas? Ou a Filosofia?

 

 
A psicologia evolucionista defende que a beleza e a escolha de parceiros são biologicamente determinados e que a biologia (paradigma actual para a compreensão do Homem) venceu, no dizer arrogante e ingénuo de alguns psicobiólogos, as ciências humanas na sua capacidade explicativa.
Lê-se esta proclamação em artigos de revistas, científicas e de divulgação, assim como se ouve dizer em documentários de televisão (vi um desses hoje). Não será o contrário a prevalecer no futuro?
Nem uma nem outra área do conhecimento vencerão. Nenhuma detém o saber completo sobre o homem. Nem sequer são complementares uma da outra mas essencialmente insuficientes nas suas próprias áreas. É preciso ter cuidado com as recaídas científicas na metafísica que o especismo profissional e as tendências ideológicas e políticas induzem.
Lá por haver parâmetros universais de beleza e por a mulher suportar o peso da gravidez, que pede à mulher a escolha de homens com certas característica (vital sobretudo na pré-história), isso não significa que esses mesmos parâmetros sejam estímulos instintivos que o código genético guarda e reproduz de geração em geração.
Basta, em primeiro lugar, conhecer os casos dos “meninos selvagens” para entender que os padrões de beleza, ainda que universais, são o resultado, não da evolução biológica por si só mas dos desenvolvimentos social e individual humanos, ou seja, produto de processos históricos e ontogenéticos.
Da pré-história à actualidade e do feto ao adulto, as relações sociais produziram, pela sua acção na biologia humanas, efeitos na fisiologia e anatomia dos indivíduos, nomeadamente a posição bípede, mudanças nas proporções corporais e na fisionomia do rosto, etc. Além disso, o desenvolvimento social alterou hábitos de higiene, enriqueceu e diversificou a gestualidade, o rictus facial, promoveu cuidados na aparência e multiplicou o simbolismo que significa todos esses fenómenos. A beleza é também técnica estética e gestualidade corporal.
Em segundo lugar, basta conhecer a cultura Zulu para perceber que os riscos e as exigências biológicas da gravidez não determinam que as mulheres tendam a escolher homens mais abonados de finanças. É que, se fosse essa a causa, então em todas as sociedades teria que se dar o mesmo fenómeno. E isso não acontece. O caso dos Zulus, em que as mulheres, por deterem mais poder, não escolhem os homens pelos seus bens, refuta esta conjectura superficial.
O mais curioso foi ouvir um psico-evolucionista reconhecer nesse programa televisivo o caso (sei que não é o único) excêntrico dos Zulus, não tendo ele todavia percebido que estava a enunciar a contraprova que falsificava a sua própria teoria! Ignorância de lógica e de método.
Enfim, ninguém ganha. Quem fica a perder são certos adeptos do pan-biologismo, da ideia de que todos os factos humanos são essencialmente biológicos.
Mas a essência do homem, o que o distingue, para além das suas características e potencialidades biológicas, base original que torna possível e necessário o desenvolvimento humano, é o conjunto das suas relações sociais.
É a dialéctica que vence, a reciprocidade da integração das investigações feitas pelas várias disciplinas que contribuem para o conhecimento do mesmo assunto, e não a metafísica, o isolamento disciplinar, o conceber que o seu cantinho científico é melhor que o do vizinho. Mas essa consciência só a filosofia a pode dar.
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