Katyn, Fome e Outras Estatísticas – Hitler e Estaline ou o Império das Trevas

Lavrentiy Beria

Lavrentiy Beria (Photo credit: Wikipedia)
Ficamos surpreendidos quando esgravatamos nas narrativas da História a propósito de acontecimentos que dividem as mais profundas convicções das pessoas. É uma autêntica Caverna de Platão. Como sair dela?
Um exemplo refere-se ao caso muito comentado nos últimos anos do massacre de Katyn, da responsabilidade do paradoxal e sinistro Estaline, reaberto por Gorbachov e Yeltsin em 1991 e reconhecido por Putinem 2010.
Um blogue, entre muitos dos que se fazem eco do massacre, tem por título “Revolução Russa: Uma Tragédia Humana”, de Jefferson Brando, professor de História de S. Paulo, Brasil, ilustra, pelo que diz e pelo que cita, o facto de os nossos conhecimentos da História não passarem de Noite e Nevoeiro.
A seguir, uma notícia do New York Times vem desmentir – o que depende da credibilidade da fonte – a tese primeiramente afirmada por Goebbels, que tivessem sido os comunistas a terem perpetrado tal massacre. Ora, esta notícia é de 1945, muito perto no tempo do acontecimento de 1940/41 e lança a dúvida sobre a identidade dos cadáveres.
Mas, fica esta pergunta: não fizeram o que é actualmente básico, a exumação dos cadáveres e não compararam o seu ADN com o dos seus descendentes? Contudo, para maior confusão,  tanto os adeptos da versão de Goebbels quanto os da versão de Estaline concordam no facto de os cadáveres serem de oficiais e intelectuais polacos.
A descoberta dos documentos incriminadores de Beria e de Estaline é de 1990/91. Vem depois à luz o filme Katyn do realizador polaco Andrej Wajda, cujo pai terá sido morto no mesmo ano pela NKVD mas em Karkov, não em Katyn, como alguns julgam, um filme que dá por garantida a tese de Goebbels e do governo polaco.


Ora, no sitio Mythcraker, é transcrita uma entrevista que denuncia a falsidade destas descobertas, e que resume a investigação de  historiadores russos como Ilyukhin, Yuri Zhukov, Alexander Kolesnik e Alexei Plotnikov.
“23. As primeiras três páginas da “carta de Beria” não foram escritas com a mesma máquina de escrever da página quatro (há até o parecer de um perito que comprova isso24). Uma corte entenderia que isso seria impossível em uma carta autêntica do NKVD, porque se você muda o início de um documento após o comissário do povo tê-lo assinado, isso é o cometimento de um crime. 24. A página quatro foi escrita numa máquina de escrever utilizada em outras cartas de Beria reconhecidamente autênticas, enquanto as três primeiras páginas foram escritas numa máquina de escrever cujos tipos não foram encontrados em qualquer uma das 15 cartas de Beria no período de dezembro de 1939 a setembro de 1940 encontradas nos arquivos até hoje.
Isso revela o caminho mais provável na falsificação da carta.”
Porém, a página 4 não menciona qualquer mandado de execução.
Alguma vez saberemos a verdade? É que não basta termos informação da crueldade do punho de ferro de Estaline contra todas as dissidências, umas reais, outras talvez paranóicas, enviando muitos milhares para campos de trabalho forçado (pervertendo a própria ideologia comunista, que era a sua, os comunistas reinventaram a escravatura com o fito, dizem algumas más línguas, de forçarem a industrialização num país mal preparado para o socialismo, coisa de que os defensores do sistema capitalista também se podem orgulhar, e muito mais, pois criaram um mercado de escravos mundial de fazer inveja aos romanos) e outros para o fuzilamento, a fim de fazer dele um sanguinário maníaco que seria ao mesmo tempo a consequência lógica de qualquer regime comunista. Será uma imagem decerto conveniente – muito conformista, ou trotskista, aliás – para condenar o mundo actual à impotência de aceitar as coisas como são, à falta, supostamente, de uma alternativa fora do sistema capitalista, como se o socialismo e o comunismo fossem uma história encerrada. A não ser, talvez, e porque do mal o menos, segundo Lord Shawcross, um novo Hitler. Goebbels foi um mestre da propaganda que continua a ter muitos e bons epígonos. E, no entanto, não podemos negar que Estaline foi um dos maiores facínoras do Século XX e da História, só ultrapassado pelo voluntarista Mao e pelo ditador capitalista Hitler. O movimento comunista nunca mais poderá enveredar por esse caminho para desenvolver o socialismo.
Citemos, finalmente, estas duas passagens do blogue ”Revolução Russa: Uma Tragédia Humana”:
Josef Stalin assinou um pacto de não agressão com Adolf Hitler em 1939, dividindo a Polônia em duas partes, uma nazista e uma comunista. Em setembro de 1939 a Polônia foi derrotada, depois de ter sido invadida simultaneamente pelos nazistas, a Oeste, e pelos comunistas, a Leste. Os soviéticos ficaram com uma zona de ocupação de duzentos mil quilômetros quadrados. A partir da derrota da Polônia, os soviéticos massacraram nessa zona, sob as ordens escritas do infame ditador Stalin, vários milhares de oficiais poloneses prisioneiros de guerra – mais de 4 mil em Katyn (perto de Smolensk), local onde foi descoberto posteriormente pelas tropas alemãs que expulsaram os soviéticos e passaram a controlar a Polônia, os alemães encontraram também um dos mais famosos ossários, além de outros 21 mil em vários locais. Deve-se adicionar a essas vítimas cerca de 15 mil prisioneiros soldados comuns, provavelmente mortos por afogamento no Mar Branco, este fato histórico ficou conhecido como Massacre de Katyn.
   No dia 16/03/1984, Lord Hartley Shawcross, que fez as orações de abertura e do encerramento do Tribunal de Nuremberg, e que foi o chefe da delegação britânica na parte das acusações contra os nazistas, levados à forca, declarou o seguinte, numa conferência na cidade de Stourbridge:
“Nos julgamentos de Nuremberg condenamos a agressão e o terror nazista. Acredito agora (após 38 anos) que Hitler e o povo alemão não queriam a guerra, mas nós declaramos guerra contra a Alemanha decididos a destruí-la, de acordo com nosso princípio de equilíbrio de poder e fomos encorajados pelos americanos ao redor de Roosevelt. Ignoramos o apelo de Hitler para não entrar em guerra. Agora somos forçados a reconhecer que Hitler estava certo! Ele nos ofereceu a cooperação da Alemanha, ao invés disso estamos desde 1945 enfrentando o imenso poder da União Soviética”.
Mas ainda nos faltaria citar uma enormidade de afirmações acerca dos supostos crimes dos comunistas, que parecem não saber fazer uma coisa aparentemente boa sem que lhes saltem de imediato os seus instintos facínoras. Como, por exemplo, a história do assassinato de Salvador Allende, não por força do ataque do fascista Pinochet ao Palácio do Governo, mas a mando de Fidel Castro, como Juan Vivès, um refugiado cubano em França, antigo membro das forças de segurança do regime cubano, faz menção de dizer que aconteceu tal como citado num livro “anti-castrista”:
“O assassinato de Allende por Patrício de la Guardia (seu próprio segurança e que pertencia ao serviço secreto cubano) já não é novidade depois do lançamento do livro Cuba Nostra de Alain Ammar (Ed. Plon, lançado em 2005) com o testemunho do próprio Juan Vivés. Segundo o autor, depois de financiar a campanha de Allende para as eleições chilenas de 1970, Fidel exigia uma postura mais ativa e radical do Presidente chileno em prol da revolução e das mudanças mais abruptas na sociedade. Com as dúvidas, os vacilos e os receios de Allende, que Fidel achava um fraco, não restou outra opção a Castro senão ordenar o seu assassinato. Em consonância com esta versão há dois fatos: a saída dos agentes cubanos do Palácio de La Moneda sem um arranhão sequer e o corpo de Allende não apresentar evidências de suicídio.”
É verdade, por mais verdade que seja, isto não me passava pela cabeça. Talvez eu esteja a viver e a pensar o mundo ao contrário. Um dia, hei-de compreender que, tal como me tentou ensinar a Escola Económica de Chicago, não há fascismo mas regimes que tiveram que ser mais autoritários para repelirem a ameaça do terror vermelho.
E podemos citar ainda um artigo do Partido Comunista de Porto Rico, que tem uma versão completamente oposta à versão oficiosa dos poderes ocidentais e mesmo chineses (mas então há coisas nas quais os ocidentais, para além da Mercedes e da Apple, estão em conluio com os chineses?) a respeito dos chamados Kemeres Vermelhos:

El régimen genocida polpotiano no fue comunista y los comunistas lo derribaron

Agosto 9, 2010
Con motivo del juicio al jefe del centro de torturas del régimen falsamente comunista que martirizó al pueblo de Camboya de 1975 a 1979, se ha puesto de actualidad dicho régimen.
Las cosas se torcieron en la Revolución camboyana cuando en el segundo congreso del Partido de los Trabajadores de Kampuchea realizado en 1966 tomó el poder una nueva generación de dirigentes que desplazó a los comunistas que habían integrado el Partido Comunista de Indochina (PCIn) fundado por Ho Chi Minh y habían luchando contra el colonialismo francés, llamados Issarak. La monarquía de Sihanuk había asesinado al secretario general del Partido Tou Samouth y su cargo fue ocupado por el maestro de escuela formado en Francia Pol Pot. Para marcar su ruptura con los camaradas vietnamitas estos nuevos dirigentes cambiaron el nombre al partido que pasó a llamarse Partido Comunista de Kampuchea (PC de K). En ese año de 1966 Pol Pot realizó su primer viaje como flamante secretario general a China donde comenzaba la nefasta “revolución cultural”. Mao, Lin Biao y los ultraizquierdistas lo recibieron con honores, le regalaron las Obras Escogidas de Mao y forjaron una alianza que duró hasta avanzados los años 80. El PC de K se retiró al campo para preparar la lucha armada contra la opinión de los comunistas vietnamitas que en aquel momento se batían contra el imperialismo y sus lacayos sudvietnamitas y constituían de hecho la vanguardia de la Revolución socialista en Indochina, Asia y el Tercer Mundo. En 1969 los norteamericanos invadieron el país e instalaron en el poder al general Lon Nol que había empleado Sihanuk para cazar a los comunistas. La China del Mao senil y la “Banda de los cuatro” aumentó su ayuda al PC de K mientras cortaba traicioneramente la ayuda a la resistencia comunista vietnamita. En 1973 los gringos bombardearon masivamente Camboya. Los comunistas exiliados en Vietnam que se integraron en unidades del PC fueron destituidos y asesinados por la dirección maoista del Partido. El PC de K apoyándose en un rancio nacionalismo kemer empezó a afirmar que Vietnam era el enemigo hereditario. En las zonas liberadas este Partido mostró una línea extremista contra toda forma de propiedad privada. El 17 de abril de 1975 sus fuerzas entraron en la capital, Pnom Penh y proclamaron la República Democrática de Kampuchea. Abolieron el dinero, las escuelas, los mercados, la propiedad y la religión. Se negaron a reconocer el rol fundamental de Vietnam en la derrota imperialista en Indochina. Deportaron a los habitantes de las ciudades al campo, expulsaron a 150 mil vietnamitas, emplearon sistemáticamente la tortura, las ejecuciones y las matanzas masivas. El partido polpotiano maoista pasó a ser clandestino y llamarse “Angkar” para mejor ejercer su dictadura. En 1977 atacaron Vietnam. Se basaban no en el marxismo sino en un nacionalismo mesiásico que exaltaba la pobreza y despreciaba el desarrollo de las fuerzas productivas similar al que guió en China “El gran salto adelante” y la “revolución cultural”. Las fuerzas comunistas camboyanas sanas crearon el Frente Unido Nacional para la Salvación de Kampuchea que llamaron en ayuda al Vietnam revolucionario que el 7 de enero liberó Pnom Penh del terror maoista polpotiano. Se reconstruyó el Partido Revolucionario Popular de Kapuchea (PRPK) heredero de las buenas tradiciones del comunismo camboyano y se proclamó la República Popular de Kampuchea (RPK) apoyada por Vietnam y el campo socialista con la Unión Soviética a la cabeza Los criminales polpotianos apodados “Kemeres rojos” se retiraron a Tailandia para hostilizar mediante terrorismo a la nueva república con el apoyo simultáneo de EEUU y de China que aún no se había liberado de la nefasta influencia de la “revolución cultural”. En 1998 esos bandidos disolvieron sus organizaciones y la justicia nacional e internacional se encarga de juzgarlos por sus crímenes que costaron la vida a un millón setecientos mil personas de 1975 a 1979.”
Estou cada vez mais confuso. Já nem sei em que mundo vivo.
Mas vejam mais esta, do chamado Holodomor ucraniano, que talvez traduza uma vez mais o aforismo de Goebbels “uma mentira repetida muitas vezes transforma-se em verdade”, porque não terá havido um genocídio mas um estratocídio, a chacina pela fome e pela deportação dos proprietários de terras, não só na Ucrânia mas noutras repúblicas da URSS, por se oporem à colectivização, que se tornava necessária – face à resistência à cooperação do kulaks – para ser quebrado o maior foco de resistência ao socialismo (os kulaks), industrializar o país e robustecê-lo na preparação para a guerra com o nazi-fascismo (mas a que preço! – à volta de seis milhões de mortos por inanição e fadiga):






Vejam agora (supostamente) a vida no Gulag:

 
Os números da fome (1931-1933) e das purgas (1930-…) vai dos cálculos de seis milhões a mais de cem milhões de mortos. Mas como enquadrar este imenso massacre com a evolução da demografia na URSS, cujos números (será que manipulados pelos órgãos oficiais?) se podem ler num artigo da Wikipedia sobre a URSS em 1990? Este gráfico lista dados do Império Russo e da URSS:
Date Population
January 1897 (Russian Empire): 125,640,000
1911 (Russian Empire): 167,003,000
January 1920 (Russian SFSR): 137,727,000*
January 1926 : 148,656,000[2]
January 1937: 162,500,000[2]
January 1939: 168,524,000[2]
June 1941: 196,716,000[2]
January 1946: 170,548,000[2]
O seguinte quadro – também muito significativo, até porque é publicitado pela CIA – é extraído de relatórios do censo de 2001 e tem as seguintes fontes: CIA World Factbook, and the State Statistics Committee of Ukraine:
Population of the Ukrainian SSR according to ethnic group 1926–1939
Ethnic
group
census 19261 census 19392
Number  % Number  %
Ukrainians 23,218,860 80.0 23,667,509 76.5
Russians 2,677,166 9.2 4,175,299 13.5
Jews 1,574,428 5.4 1,532,776 5.0
Germans 393,924 1.4 392,458 1.3
Poles 476,435 1.6 357,710 1.2
Moldavians / Romanians 257,794 0.9 230,698 0.8
Belarusians 75,842 0.3 158,174 0.5
Greeks 104,666 0.4 107,047 0.4
Bulgarians 99,278 0.3 83,838 0.3
Tatars 22,281 0.1 55,456 0.2
Roma 13,578 0.0 10,443 0.0
Others 103,935 0.4 174,810 0.6
Total 29,018,187 30,946,218
1 Source: [3]2 Source: [4].
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