Pessoa e o Fascismo


A seguir à Revolução democrática portuguesa de 25 de Abril de 1974 veio à estampa um livro intitulado Os Maiores Poetas São Fascistas. Não é inteiramente verdade mas esse título levou a colectânea para as bocas do mundo e provocou grande mal-estar entre as gentes de esquerda, não sem razão. Todavia, é um facto que alguns dos maiores poetas do começo do século XX tinham uma atitude elitista, aristocrática e se inclinavam para posições políticas de extrema-direita.
Fernando Pessoa foi um génio da literatura, um dos criadores do modernismo a nível mundial, tal como T. S. Eliot e Ezra Pound. Mas assim como estes, embora de maneira ainda mais dissimulada e dificil de discernir nas suas obras maiores (Álvaro de Campos, além da Mensagem, é mais explícito do que os outros heterónimos na expressão desta ideologia, ao adoptar um futurismo moralmente indiferente e que, por isso, só pode satisfazer a elite da classe dos vencedores), tinha algumas simpatias pelo fascismo, claro que reflectido pelo seu prisma particular. Acreditava, com o cepticismo próprio do seu papel de intelectual afastado da vida política e das tragédias económicas efectivamente experimentadas, num sistema capitalista politicamente governado por uma elite cultural predestinada para grandes feitos nacionalistas, sabemos agora que de uma grandeza ridícula. Além do cepticismo referido, mantinha um equilíbrio impossível entre o desprezo aristocrata pela democracia e uma certa fraternidade em geral ou abstracta com todos os homens, e só na medida em que estes são os agentes da energia industriosa que move o capitalismo para a sua fase mais apaixonante, transformadora, titânica, dinâmica e imperialista.
A dúvida permanente, misturada de um panteísmo cosmopolita que perdeu o racionalismo do estoicismo clássico, acerca do valor dos sentimentos universais pelos seres humanos levantada pelo entusiasmo da revolução industrial que consome nas suas fornalhas homens, mulheres e crianças, entranha-se todavia na própria alma de Pessoa e manifesta-se em vários dos seus poemas:

“Eu, que sou mais irmão de uma árvore que de um operário,
Eu, que sinto mais a dor suposta do mar ao bater na praia
Que a dor real das crianças em quem batem
(Ah, como isto deve ser falso, pobres crianças em quem batem –
E porque é que as minhas sensações se revezam tão depressa?)”

(Álvaro de Campos, A Passagem das Horas) 


Fernando Pessoa expressou na sua obra a situação complexa e ambígua da sua passagem pelo mundo como artista pequeno-burguês afastado do protagonismo das grandes mudanças, aliás como Portugal, a desafeição, vivida com uma atitude efectivamente conformista mas poeticamente insatisfeita na forma de um estoicismo resignado, de uma nostalgia pastoril, de um atavismo provinciano reactivo, uma desafeição como tal relativa à mesquinhês da existência (da sua existência) pequeno-burguesa num Portugal periférico e ultrapassado que vive da grandeza humilhante de antanho. A paixão de Fermando Pessoa pelo capitalismo industrialista deveria ser equilibrada pela necessidade de este ter uma face nacional, patriótica, de ser o instrumento de rejuvenescimento do sentido dos grandes feitos que teriam de resgatar o país da mediocridade e falta um horizonte. Tal era a confusão e até a contradição de cosmopolitismo e de nacionalismo, de renúncia, de conformismo estóico e de entusiasmo travado pela consciência aguda da impotência de uma nação dobrada aos ditames dos impérios maiores. O conservadorismo industrioso de Pessoa era um tradicionalismo do futuro, mas de um futuro equivocado pela crença desesperada na recuperação da grandeza de Portugal.
Mas, em todo o caso, teria que ser nesse cosmopolitismo industrialista e comercial que o país e os seus habitantes deveriam beber para que o porvir de uma ideia eterna da nacionalidade e dos seus homens fosse mais do que um fado  dos fracassos repetidos. E, contudo, nesse paradoxo repetido por quem sabe demais mas que não aceita afectivamente a realidade amarga, Pessoa também possuía a consciência dolorosa de que nada se repete e que a grandeza do Ocidente, historicamente decisiva e gloriosa, talvez passe, como tudo passa:

“Grécia, Roma, Cristandade,
Europa – os quatro se vão
Para onde vai toda a idade.
Quem vem viver a verdade
Que morreu D. Sebastião?”
(Mensagem)

Fernando Pessoa, enfim, contrapunha à mediocridade mórbida da vida quotidiana pequeno-burguesa, não uma sociedade igualitária, fraterna, internacionalista e humanista, mas, cedendo ao conformismo perante o carácter supostamente inevitável, e até desejável, dos poderes capitalistas, que aliás glorificava nos seus aspectos cruéis e competitivamente entusiasmantes, a aspiração – teimosa, apesar de a glória antanha ir “para onde vai toda a idade” – de os orientar para a realização de uma ideia de Nação. Esta ideia estaria, pois, predestinada a refundar uma civilização centrada na língua de Camões e na expansão dos seus valores simultaneamente tradicionais ou católicos, inventivos e futuristas, através de uma nova era de Descobrimentos, que já não seria tanto de conquista mas eventualmente de educação e de proselitismo, e sempre de vanguardismo cultural greco-romano-cristão:

“Dá o sopro, a aragem – ou desgraça ou ânsia -,
Com que a chama do esforça se remoça,
E outra vez conquistemos a Distância –
Do mar ou outra, mas que seja nossa”.
(Mensagem)

Nessa Nação a luta de classes desapareceria e as contradições sociais seriam superadas pela assunção comum de uma espiritualidade maior – a do Vº Império, um ideal mais ou menos vago mas congregador -, a fim de todos (do mais miserável ao mais rico) servirem o destino da pátria – a realização da unidade do poder industrial e comercial com a civilização lusa, rosto do Ocidente na sua Ocidental praia, com o destino de unir o mundo nos valores cristãos de Portugal.

“Que símbolo divino
Traz o dia já visto?
Na Cruz, que é o Destino,
A Rosa, que é o Cristo”.
(Mensagem)

“Com duas mãos – o Acto e o Destino –
Desvendámos. No mesmo gesto, ao céu
Uma ergue o facho trémulo e divino
E a outra afasta o véu.

Fosse a hora que haver ou a que havia
A mão que ao Ocidente o véu rasgou,
Foi alma a Ciência e corpo a Ousadia
Da mão que desvendou.

Fosse Acaso, ou Vontade, ou Temporal
A mão que ergueu o facho que luziu,
Foi Deus a alma e o corpo Portugal
Da mão que o conduziu”.
(Mensagem)

Fernando Pessoa defendia, em suma, uma espécie de harmonia nacional sobrevivente no caos mundial, uma síntese entre o cosmopolitismo empreendedor sob valores capitalistas e o capitalismo interno, nacionalista, o qual todavia estava em oposição ao caminho da História, ao avanço do capitalismo imperialista, de cuja frente Portugal iria ser afastado.
As suas ideias representam a reunião inconsistente dos valores nacionalistas com os pequeno-burgueses, estimulados pela ascensão gloriosa do capitalismo e vagamente esperançados, sob a protecção do Estado, de poder participar, ao lado das grandes nações, da exploração e civilização luso-greco-romano-cristã do planeta. Estão aqui as sementes do fascismo.
Ferrando Pessoa é. no seu conservadorismo, muito explicito em alguns textos ou fragmentos de ideias, que, de filosóficas, só têm a pretensão por  serem apenas declarações, isto é, por causa da falta de argumentos bem fundamentados. Eis um dos textos mais virulentos que ele produziu contra o comunismo, que mostra que não compreendeu nada deste movimento e que fixou o registo e a forma do anti-comunismo intelectual, com base visceral, até aos nossos dias:
«Ao contrário do catolicismo, o comunismo não tem uma doutrina. Enganam-se os que supõem que ele a tem. O catolicismo é um sistema dogmático perfeitamente definido e compreensível, quer teologicamente, quer sociologicamente. O comunismo não é um sistema: é um dogmatismo sem sistema – o dogmatismo informe da brutalidade e da dissolução. Se o que há de lixo moral e mental em todos os cérebros pudesse ser varrido e reunido, e com ele se formar uma figura gigantesca, tal seria a figura do comunismo, inimigo supremo da liberdade e da humanidade, como o é tudo quanto dorme nos baixos instintos que se escondem em cada um de nós.
O comunismo não é uma doutrina porque é uma antidoutrina, ou uma contradoutrina. Tudo quanto o homem tem conquistado, até hoje, de espiritualidade moral e mental – isto é de civilização e de cultura -, tudo isso ele inverte para formar a doutrina que não tem.» (Ideias Filosóficas/Fernando Pessoa).
Ora, de que civilização e cultura fala Pessoa? A sua crença e a desesperança dela sumariam-se nestes versos:

“Senhor, os dois irmãos do nosso Nome –
O Poder e o Renome –
Ambos se foram pelo mar da idade
À tua eternidade;
E com eles de nós se foi
O que faz a alma poder ser de herói.

Queremos ir buscá-los, desta vil
Nossa prisão servil:
É a busca de quem somos, na distância
De nós; e, em febre de ânsia,
A Deus as mãos alçamos.

Mas Deus não dá licença que partamos”.
(Mensagem)
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