Agora que Voltaram os Exames de Filosofia

 

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Reflexão teórico-prática sobre uma questão profissional mas que interessa a todos os que passaram pela escola e que têm filhos nela.
1. Tenho para mim que uma didáctica razoável na leccionação filosófica (a perfeição é impossível e a conjuntura é muitas vezes um adversário refulgente) poderá consistir na leitura e análise de textos, esclarecimento de conceitos e apresentação de exemplos significativos, através dos quais os temas possam ser problematizados e situados no presente vivido pelos alunos. O diálogo/debate docente/discente é privilegiado, mas sempre a partir de vivências articuladas com conhecimentos de base minimamente consolidados nas aulas, como ponto de partida para o seu desenvolvimento e operacionalidade em diversos contextos existenciais, teóricos e práticos. É também de promover a execução de trabalhos/ensaios temáticos, nos quais se deverá apelar para a criatividade e para a interacção entre experiência pessoal e universalização das questões. Os alunos devem chegar à conclusão de que as reflexões dialogadas feitas no decorrer das aulas têm relevância para o entendimento do mundo em que vivem.
2. Mas aqui começam a surgir as dificuldades. Por um lado, a apresentação das temáticas na generalidade dos manuais actuais da disciplina é feita através de textos excessivamente densos, demasiado técnicos e abstractos, de modo que se torna muito difícil articulá-las com a vivência, que, só ela, pode fornecer ao alunos as suas significações concretas. Por outro lado, as matérias/tópicos – segundo o plano do programa, cujos defeitos são agravados pelos manuais em geral – são apresentados fora da exposição global dos quadros filosóficos – que são concepções do mundo ou modelos da realidade e do pensamento –, só sob os quais as suas problematizações e tomadas de posição ganham inteligibilidade e fundamento, pelo que se impede que os alunos obtenham uma visão de conjunto – ou um conjunto de visões de conjunto – que poderia oferecer coerência e clarividência a toda esta – e perdoe-se-me a expressão – paródia de aprendizagem. O aluno mergulha numa massa incoerente de saberes específicos sem ter a possibilidade de alcançar a forma global em que se insere aquilo que supostamente aprende.
3. Quanto à avaliação, basta dizer que ela é simultâneamente vítima do método acima denunciado e carrasco de alunos que não têm culpa de desvarios alheios. – Deve notar-se que a disciplina de Filosofia não é um instrumento (teórico) de produção, como são por exemplo, as disciplinas de Matemática e de Ciências Físico-Químicas, sendo antes um meio de reflexão sobre a totalidade do real e da vida humana, pelo que é, não só aceitável, como desejável, uma maior diversidade, ou liberdade, na abordagem dos assuntos, o que não é contrário ao cumprimento dos tópicos do Programa mas se opõe a uma constituição absolutamente idêntica de planos didácticos, de tempos, de formas de avaliação, agravada pelas orientações ideológicas, duvidosamente pluralistas, subjacentes ao programa.
4. Creio nunca ser demasiado insistir na ideia de que a Filosofia, no seu uso pedagógico – e aqui poderia chamar em minha defesa nomes como DiderotRousseauKant, Piaget, para além de muitos outros -, deve ser um exercício para a liberdade, exercício este que empenha tanto os alunos quanto os professores. Ora, sabendo que tal empenhamento é o da responsabilidade da divulgação e debate sobre concepções do mundo, do conhecimento, dos valores e das práticas, devemos nós, os docentes, na minha opinião, começar por impedir-nos de negar a nós mesmos – concertando-nos sob os princípios da solidariedade, da tolerância, da transparência e da confiança – o exercício, para bem dos alunos, e da nossa própria dignidade, dessa liberdade de pensamento que tem de ser o fim pedagógico da disciplina de Filosofia.
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