Utopia – Constatadores e Contestadores

 

Há dois tipos de pessoas: os constastadores e os contestadores.
Os constatadores nunca têm razão mas acertam sempre nos factos.
«A maioria só olha para o seu umbigo», «a soberba é generalizada», «a inveja é um pecado de nascença», «acaba sempre por se descobrir a maldade em todos os homens», «só a cobiça faz mover o mundo», «quem é pacífico acaba por colher tempestades», «todos fazem por terem mais privilégios e boa-vida do que os outros, porque só assim são felizes», «da guerra se faz o progresso com que há-de lucrar a paz», «para além do valor da vida, a concorrência é o valor supremo», «a justiça só tem em conta a vida, a propriedade e a liberdade de dizer disparates», «a lei do dinheiro comanda a vontade», «sem patrões e assalariados nada de jeito se faria», «com tanta gente no mundo há-de haver sempre ricos e pobres», «a solidariedade será sempre um privilégio», «o ideal da moral que põe acima de tudo a interdependência da actividade de realização pessoal, no saber, no saber-fazer e na felicidade, com o desenvolvimento do saber e da tecnologia para os fins do progresso da justiça social é uma miragem e só tem servido para criar mais umas ditaduras».
Mas se o mundo fosse só feito de constatadores, quão mais pobres seriam os pobres e quão menos ricos seriam os ricos! Quão sensaborões os dias, quão sem sentido a vida, apenas a existir para fabricar o que comemos, vestimos, fantasiamos e dormimos, repetindo vezes sem conta: «é assim a vida e o resto são filmes»!
Quando oiço alunos meus – que geração conservadora e desiludida – a dizer «As utopias nunca se realizam e o que há a fazer para não estragarmos a vida é ser cada um por si porque ninguém é por todos», vejo neles constatadores, mesmo que usem roupas imaginativas, cabelo comprido e peças de metal espetadas na carne. Depois, antevejo um mundo que se resume ao saber-fazer, a sandes de carne picada com batatas fritas, ao cuidado da aparência (longe de mim depreciá-la, pois como escreveu Hegel, e digo-o com ironia, «a essência aparece, a aparência é essencial») e a uma arte de constatações ou de fantasias terapêuticas e comerciais, ao género de Hollywood e de Bollywood. É que nem só de pão vive o homem e é preciso compensar por desvio, freudiano ou marxista, a necessidade reprimida de uma existência mais realizada, com mais tempos autodedicados, com mais actividades espontâneas e criativas, uma vida menos rotineira, menos comandada, menos arrebanhada, através do desenvolvimento tecnológico (decerto motivador para quem o produz) de um mundo paralelo, de ficção, onde nos imaginamos sermos livres vivendo aventuras no conforto de utopias que jamais hão-de ter lugar, para satisfação e enriquecimento de poderosos e de criativos que venderam alegremente a alma ao diabo, e para anestesia nossa.
Contudo, a verdadeira utopia é o futuro do presente, o que há-de criar o lugar que não tem.
A verdadeira utopia é o lugar da prática do inconveniente.
É então agora que entram os contestadores.
Os contestadores nunca acertam nos factos mas têm sempre razão.
Porque os factos são o presente contrário da utopia. Porque a razão é a teoria e a prática que nega o ser idêntico a si mesmo, eterno e imutável, repetido de geração em geração, na sua pressuposta essência que, todavia, nada mais é do que um salto indutivo para uma justificação sem fundamento, embora muito credível.
Ora, se essa utopia tão denegrida pelos constatadores fosse apenas um horizonte que jamais pudéssemos tocar, mesmo assim seria ela que nos permitiria traçar as linhas de perspectiva com que visamos e medimos os projectos da realização de nós próprios como seres humanos em constante processo de reinvenção do mundo e daquilo que somos.
Foi o horizonte que nos deu o fogo, a navegação, a democracia, a crítica social e de costumes, a inquietude contra a sobranceria, uma ideia de novidade positiva contra o conservadorismo, uma alternativa contra o uniforme.
Que seria a arte de Ésquilo e o nosso prazer dela se não fosse o aguilhão da justiça? Que seria das aventuras de Ulisses se nunca tivéssemos deixado Penélope? Como pensaríamos as nossas dúvidas se não fosse a hipérbole de Descartes? Como seriam os nossos medos se Dante não os tivesse contado? Não seria mais pobre o sorriso se Leonardo não o tivesse pintado? Teríamos menos fantasmas se Sade não os tivesse exposto? Estaríamos melhor sentados nos lugares comuns do espaço se a mecânica quântica não tivesse descoberto o princípio de dualidade? E Copérnico terá perturbado o equilíbrio do mundo?
Podia Marx ter descoberto a lei do desenvolvimento humano caso nos tivéssemos negado a andar? Teríamos ido à Lua se nos deixássemos ficar em terra? Teria dito Amstrong «Um pequeno passo para o homem, um grande passo para a Humanidade» caso os passos dele não fossem diferentes dos outros?
É por tudo isto que a utopia é também um facto.
Mas quando oiço alunos meus a confundirem os factos da lógica com a lógica dos factos, a chamarem utopia aos lugares que apenas ainda não existem, apetece-me andar à chapada aos caras-pálidas para ganharem cores, não nas roupas, que essas são muito alegres.
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