O Mercado da Angústia

 

 
A nova mundialização (a do século XIX consistiu na guerra pela apropriação de matérias-primas, a actual consiste na obtenção de mão-de-obra barata e na expansão do mercado de consumo) criou a sociedade planetária, rede de negócios e informação instantânea, de rápida proliferação de modas e do modo de vida dominante, americano, com o seu sonho de riqueza, de tecnologias virtuais e de lucro, junto com a reprodução dos descendentes destinados, pela convicção que dá a força da realidade, que se impõe, a continuarem pela senda dos progenitores. É nesse movimento que parece o ser do antigo Xenófanes de Colófon, onde há mudança sem nada mudar, que consiste o fim terreno da vida social. Vive-se agora num movimento pendular de euforia sensorial tecnologicamente desenvolvida, onde tudo é um jogo, e de sentimento incómodo pela perca dos valores clássicos da ligação à natureza, da relativa continuidade duma cultura integrante, da solidariedade intensamente vivida na família. Está-se entre a vertigem do instante e a angústia da eternidade perdida. Nem esta é desejável que volte nem o nosso momento é sustentável de ser. Mas é disso mesmo que o sistema económico presente precisa: tornar repetidamente presente o que se precisa permanentemente de mudar: de carro, de casa, de homem, de mulher, de telemóvel, de x-box, por ironia o torna-te naquilo que nunca podes continuar a ser e que não queres repetir. É este o mercado da angústia, o nosso. Esse, de que falou Henri Pradal.
«O esgotamento da concepção animista do universo, coincidindo com a emergência e o desenvolvimento planetário da civilização industrial, provocou uma crise de valores-guias. A angústia sagrada foi substituída por uma angústia colectiva que já não diz respeito ao sentido da vida e que tende a parcializa-se em angústias de colectividades atiradas umas contra as outras. No seio dos diferentes grupos aos quais o homem social está intimamente ligado, o indivíduo aprende que é vão fazer surgir os seus próprios desejos, elevar a sua personalidade acima do nível imposto pela sociedade global. Não contente em multiplicar os desejos contrariados, as frustrações e alienação, a nossa sociedade controla-as e orienta-as por meio de exutórios como a televisão, o álcool, o tabaco e as drogas oficiais ou não, o automóvel, os clubes de férias ou de lazeres, cuja finalidade é visivelmente regressiva: para diferir, senão impedir, o afrontamento do indivíduo com a sua própria angústia, tornou-se vital criar um “ersatz” de euforia afectiva e sensorial, primeira etapa da luta para a “hebetude”.» (PRADAL, Henri, “Le Marché de l’Angoisse, p. 32).
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