Arte, Filosofia e Ciência – Digressões 2

 

 
Isto não quer dizer que a especulação não tenha podido ou possa contribuir com reflexões pertinentes para o avanço do conhecimento objectivo, visto que ela própria exprime, quer duma maneira “real” quer ilusória (ambas reflexos das condições sociais e históricas de vida), “intuições”, imaginações ou inferências de experiências directas, por um lado e, por outro,[1] formas de relação ideológica e subjectivacom o mundo objectivo, que é possível deduzir daquelas.[2]O que não se lhe permite é eximir-se à prova da praxis, ela-mesma, por se situar na história social, condicionada tecnologicamente e invadida por supostos ideológicos. Mas, precisamente pelo facto de ser praxis, de condicionar as próprias teses a hipóteses submetidas ao critério da prova empírica, não se deixa aprisionar por elas, e estabelece assim a sua autoridade de última instância crítica em constante auto-teste.[3]
Daí a importância de obras como as de Merleau-Ponty, de Sartre e de outros, que, não fornecendo um conhecimentodos tópicos e dos factos por eles tratados, exprimem, ao nível da reflexão,[4] as vivências, as preocupações, as perplexidades sociais, existenciais, estéticas, epistemológicas e ontológicas da sua época, proporcionam aos homens em geral e aos estudiosos em particular uma noção menos pragmática, conformista, egotista, privativa, estreitada de algum modo, e uma ideia mais consciente, ainda que não necessariamente verdadeira, das grandes questões que os envolvem. O seu estudo, assumido como facto social, permite-nos aprofundar o conhecimento da vida humana, aprendendo sobre a necessidade de emancipação dos indivíduos face aos constrangimentos históricos, expressa no poder da mente de se elevar, em termos relativos, acima das imposições “substanciais” da existência.[5] Aprendemos a maneira como estas ideologias se formam nos intelectuais enquanto reflexos, social e culturalmente filtrados, das condições “substanciais”, imediatas, dadas, de vida (Estado, Direito, costumes, estruturas civis e militares, Igreja, relações e meios de produção, etc.)[6]
Merleau-Ponty, por exemplo, exprime a revalorização contemporânea do corpo, a importância dos sentidos na constituição da personalidade,[7] e o facto de que nem a espécie humana nem os indivíduos surgem predestinados por uma essência providencial histórica, de base sobrenatural,[8]nem a sua existência está precedida por uma natureza originária determinando, em termos de espécie, de sexo, de raça ou de classe, o seu ser no mundo. Descobre que alguém já se lhe havia antecipado, ao nível da projecção estética e através duma ideia ainda pouco reflectida mas profunda da realidade.
Esse alguém fora Cézanne, e o filósofo francês, cultivado nas leituras do mais intelectualista Husserl, tratou de promover a sua arte ao estatuto de figuração desse novo e pertinente movimento filosófico denominado Fenomenologia na sua expressão existencialista.
Há no filósofo Merleau-Ponty, tal como no pintor Cézanne, uma vontade de imanência sensível, de mundanidade, mas ao mesmo tempo, em contra partida, a tendência para uma nova forma de espiritualização do corpo, o corpo como vidente e auto-visível que se revê, não manipulado de fora, para além de toda a razão constrangedora, na originalidade duma Natureza muda, não submetida ainda às categorias da morfologia moral e económica nem à sintaxe de um universo de coisas que o homem tem por função manter. Descobre-se, pois, neles a nostalgia duma Natureza ainda intocada pelo utilitarismo da civilização, que fez do homem um seu instrumento e o terá afastado de tudo aquilo que ele é “antes da reflexão”, do “berço das significações”.
É evidente que não se trata ainda de explicar a realidade, de penetrar nas suas leis através da transformação social e experimental e da “observação razoada e seguida”, como dizia Buffon no Prefácio da sua Histoire Naturelle de 1749, mas de a interpretar em função do desejo, no seu caso duma bela nostalgia, a qual, porém, se apresenta como uma maneira de contrapor a uma razão estreita – tornada “utensílio” de exploração humana e de guerra, portanto, segundo nós, razão irracional e não ciência mas manipulação ideológica e política das conquistas da Física, da Biologia, da Psicologia – uma significação humanista do conhecimento, obtida por um retorno espiritual à identidade originária, nascente e correlacionadora, do homem com a Natureza, da qual aqueles saberes operacionais teriam surgido e para a qual teriam de se manter virados.
Escreve, pois, Merleau-Ponty que a Fenomenologia
«É o ensaio duma descrição directa da nossa experiência tal qual é, não dizendo respeito à sua génese psicológica e às explicações causais […]»,[9]
para mais à frente enunciar, num registo “quase” egotista, atese radical da sua filosofia, que se destina a descrever omundo percebido e não a dar uma explicação da percepção do mundo, explicação que é já uma relação segunda, esquematizadora e instrumental, com esse mundo, e não aexperiência vivida:
«Eu não sou um “ser vivo” ou mesmo um “homem”, ou mesmo “uma consciência”, com todos os caracteres que a zoologia, a anatomia social ou a psicologia indutiva reconhecem a esses produtos da natureza ou da história – eu sou a fonte absoluta, a minha existência não vem dos meus antecedentes, do meu ambiente físico e social; ela vai para eles e sustenta-os, porque sou eu que faz ser para mim (e portanto “ser” no único sentido que a palavra possa ter para mim) essa tradição que escolho retomar, esse horizonte cuja distância em relação a mim se cavaria, pois que a fonte absoluta não lhe pertence como uma propriedade, se não estivesse lá para a percorrer pelo olhar.»[10]
Em suma, para a Fenomenologia de Merleau-Ponty, que vê no conhecimento um obstáculo à experiência da verdade das coisas ou das coisas de verdade,
«Voltar às coisas mesmas é regressar a esse mundo anterior ao conhecimento e de que o conhecimento sempre fala, e a respeito do qual toda a determinação científica é abstracta, significativa e dependente, tal como a geografia a propósito da paisagem em que aprendemos antes de tudo o que é uma floresta, uma pradaria ou uma ribeira.»[11]
Demos aqui um exemplo[12] da ambivalência da metafísica: por um lado denunciadora e problematizadora e, por outro, mistificadora e dada com facilidade ao irracionalismo.
Por isso, precisamos de desvalorizar o suposto alcance gnoseológico não só da vetusta mas persistente atitudeescolástica como das aventuras contemporâneas da pura especulação, ainda que tenham partido duma crítica da ciência.

[1] O que se encontra misturado com frequência.
[2] Por exemplo, uma determinada forma de concepção do “útil” só poderia ter surgido e se transformado numa categoria fundamental da filosofia e da ideologia de vanguarda nas condições de ascensão duma certa classe social em dada época.
[3] É assim que algumas das teses das transformações económicas enunciadas por Marx se viram refutadas pelaprática social. A “ortodoxia” marxista é, portanto, uma negação do próprio marxismo.
[4] A filosofia dum período histórico, segundo Hegel.
[5] Parafraseando Hegel.
[6] Aquilo a que Hegel chamava, de modo genérico, “espírito objectivo”.
[7] Interpretando, à sua maneira, o abalo sofrido pelo poder da Igreja, a laicização do Estado, da economia, a renaturalização do corpo e as investigações duma ciência recente, a Psicologia.
[8] A noção cristã do homem e do universo viu os seus dogmas abalados pela ascensão da burguesia e só se pôde conservar, adaptando-se aos novos tempos, por causa das contradições capitalistas entre a promessa da felicidade terrena pelo consumo e os aspectos alienantes duma existência dedicada tanto à produção desse consumo quanto ao consumo dessa produção, frustrante por o sentido geral da vida se ter orientado para o sentido limitado da apropriação de bens “materiais”. Todas as sociedades criam as suas frustrações e, portanto, a sua religião.
[9] MERLEAU-PONTY, M., Phénoménologie de la Perception, Gallimard, Paris, 1945, p. I.
[10] Idem, Op. Cit., p. III.
[11] Idem, Op. Cit., p. III.
[12] De teoria “paracientífica”, de acordo com a classificação de Piaget. A Fenomenologia intenta alcançar um modo distinto do conhecimento científico, que o fundamenta e desmistifica, atribuindo-lhe um carácter operacional e não cognitivo, emergido da “experiência primordial”, sua verdade e limitação.
Anúncios