Prostituição e Direitos das Prostitutas

Há uma diferença entre alugar uma competência para realizar uma actividade exterior à minha pessoa e alugar a minha própria pessoa como objecto. Se esta diferença não é importante, é uma questão a considerar.
É claro que, como actriz, e como em qualquer outra profissão, usas o corpo para expressares aos espectadores sentimentos, emoções, ideias, atitudes, e eles fazem uso do teu corpo no sentido de que são receptores das tuas mensagens através dele. O que fazes é ofereceres uma competência, pela qual te pagam para viveres. O preço dos bilhetes não compram o teu corpo-pessoa por um certo período de tempo, pagam apenas a produção de algo que tu criaste mas que não és tu mesma. Não se trata, pois, de alugares o teu corpo-pessoa como se ele em si tivesse um preço, fosse uma coisa, um objecto com um custo mercantil à semelhança, ao nível, das coisas que fabricamos. Creio que há aqui uma grande diferença.
Desculpa se me faço valer de novo de Espinosa: a liberdade é o conhecimento e a capacidade de agir de acordo com as nossas necessidades. Não há, portanto, antagonismo entre desejo, vontade, liberdade, necessidade.
Mas isto leva-nos à ideia de que podemos agir como se fossemos livres sem o sermos, porque desconhecemos muitas vezes os motivos das nossas acções e as suas consequências. Poderia também chamar para aqui Schopenhauer, Marx, Nietzsche, Freud e outros. Há conflitos familiares, aliados a certas propensões para lidar com eles desta ou daquela maneira, que podem orientar uma rapariga para a prostituição sem que ela alguma vez saiba explicar por que se prostitui. Quem vai às putas, conhecerá, na maioria dos casos, as razões mais profundas do seu desejo? Será porém que se sentem livres quando lhes pagam?
Sim, o sexo não é pecado, é, para começar, uma função biológica e, depois, uma necessidade afectiva dependente de construções sociais e de valores.
Também o meu quadro de valores se prende com o mínimo de julgamento do próximo e o máximo de justiça para com ele. Contudo, como já reparaste, não estou a julgar o próximo, nem sequer os seus actos, porque isso implicaria, primeiro, que existe um sistema de valores absoluto e ‘a priori’, supra-humano, segundo, que as pessoas são dotadas de livre-arbítrio, ou seja de liberdade absoluta, duas crenças cristãs.
Ora, na medida em que procuro a justiça, tenho que julgar, mas não as pessoas em si, por tudo o que já disse. É a condição humana que julgo, são os valores que julgo, são as condições económicas que julgo. Não é também a expressão verdadeiramente livre das suas necessidades, ou seja, da sua realização como pessoas, que devo julgar como se fosse um ser divino dotado de omnisciência e soubesse o que é bom para elas sem margem para dúvidas. A verdade, como dizia Sartre, é que, apesar de tudo isto, tenho que tomar partido. Sobretudo contra a exploração das pessoas umas pelas outras.
A razão da minha interpelação está, pois, no facto de me parecer que nesta luta legítima e imperativa pelos direitos das prostitutas se tende por vezes a confundir a prostituição com uma profissão qualquer. É que acho não ser possível acreditar que a maioria das prostitutas se sente realizada como mulher por ser penetrada por milhares de homens que não conhece de lado nenhum?
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