Filosofia Analítica – Nova Escolástica e Resistência

 

Close-up of Antigo

Image via Wikipedia

Agora que a Filosofia Analítica se tem imposto cada vez mais no ensino, fazendo dos domínios e dos temas (ética, estética, etc.) apenas pretextos para o exercício das suas técnicas logísticas, procedimentos argumentativos e reducionismo do real à forma atómica proposicional, metendo nessa matriz ‘a priori’ e especulativa, escolástica, tudo o que ao humano diz respeito, há que voltar a dizer basta! A lógica do mundo não é o mundo da lógica proposicional: ultrapassa-a e é muito mais rica e imprevisível. Colocar a lógica simbólica no pedestal do saber é voltar, na substância, mais de quinhentos anos atrás, à Idade Média, é amesquinhar o homem prendendo as suas dimensões concretas na grelha dum raciocínio elementar e totalitário. Há que perceber que a lógica simbólica, com os seus procedimentos atomísticos e finitários, não esgota (Gödel provara-o já em 1931) nem o pensamento nem a realidade e que é pelo menos preciso repensar, de espírito aberto, a lógica dialéctica, que não suprime a formal mas a subsume, e reintroduzi-la no ensino.
Por isso, para quem nunca soube o que ele era, fica aqui um sumaríssimo resumo da mesma.
MÉTODO DIALÉCTICO OU HISTÓRICO-GENÉTICO:
Surgiu com a necessidade de captar, já não as relações funcionais de fenómenos da Natureza, cujos factores independentes, conjugados numa determinada proporção e sequência, produzem sempre o mesmo efeito, com a hipotética excepção do que os astrofísicos chamam de singularidades, como os buracos negros ou os momentos iniciais da hipotética origem do nosso universo.
Leis permanentes no período de espaço-tempo estável e indefinido e relativas às suas escalas, quando aquele e estas são referidas à nossa finitude e dimensão ínfima, relações portanto repetíveis entre as mesmas grandezas, relações reversíveis no tempo supostamente irreversível: posso fazer cair a mesma pedra um número incalculável de vezes e obter sempre a lei da queda dos graves; fazendo percorrer uma corrente eléctrica na água separo-a sempre em oxigénio e hidrogénio.
Dois factores contribuíram para o surgimento de teorias da História e do devir. Primeiro, as condições das transformações históricas e sociais que aceleraram no século XIX e, segundo, as do desenvolvimento psicológico do indivíduo, mudanças essas irreversíveis e que parecem surgir duma unidade íntegra, sem factores independentes, não subsistentes por si, mas gerados numa certa forma histórica de sociedade (formação económico-social) ou numa certa idade fisiológica e psicológica.
O aparecimento da escravatura e o dinheiro, assim como os direitos humanos e o movimento de capital por acções, resultaram de alterações histórico-sociais, não se acrescentaram de fora para criar essas alterações. A capacidade de pensar abstractamente só surge, em média, por volta do 14-15 anos. Estas formações históricas ou ontogenéticas devem-se a um processo de maturação geral composto de factores interdependentes, que se interconstituem em unidades que tendem, pela acção recíproca e dependência mútua desses factores, a modificar-se, conduzindo a processos de decomposição, de ruptura ou de passagem a unidades ou estádios mais elevados ou complexos.
Por isso, Émile Jalley escreve que «O método que consiste em restituir o movimento do objecto total opõe-se, em metodologia das ciências, àquele fundado sobre a definição operacional de um conjunto restrito de variáveis independentes. O segundo método pertence a uma tradição de pensamento [que começa em Galileu] passando porDescartes e Claude Bernard, ao passo que o primeiro provém da corrente de pensamento dialéctico.» (Prefácio a Wallon, Henri, La Vie Mentale).
A realidade é concreta, mas se ela é o ponto de partida real da actividade do pensamento, enquanto este é um certo reflexo daquela, na forma de representações conceptuais, é todavia o ponto de chegada do mesmo pensamento enquanto síntese ou unidade teórica do diverso: aqui se dá o conhecimento de que os factores (não compostos por variáveis independentes) existem devido ao todo em mudança e de que o todo existe devido aos factores em mudança.
Assim, o movimento do pensar desce, por assim dizer, do concreto confuso ao abstracto resolutivo dos factores relativamente diferenciáveis, nomeadamente no seu desenvolvimento histórico (“lei do valor”, por exemplo), e ascende do abstracto ao concreto, reproduzindo o objecto na sua totalidade, dentro do possível dos conhecimentos prévios e meios da época.
Abstrair, ou analisar, significa decompor mentalmente o fenómeno ou o objecto nas suas partes, propriedades, relações internas e externas, nas fases do seu desenvolvimento, etc., como se faz, por exemplo, no estudo de um ovo, que se transforma num embrião e de seguida num feto.
Hegel, como idealista, considerava que no processo de ascensão do abstracto para o concreto o pensamento cria o próprio objecto, tal como o Espírito criaria a realidade. A lógica dialéctica de Hegel é a de uma realidade que se vai tornando cada vez mais complexa. Há nela uma identidade histórica entre ser e pensar.
Marx vê nesse movimento de análise-síntese de factores e aspectos somente a reconstituição, sempre incompleta, no pensamento do objecto na totalidade almejada das suas conexões.
A lógica de Marx considera também que a realidade se vai complexificando no tempo histórico, desde a matéria inorgânica ao reflexo consciente e aos sistemas sociais, mas, ao contrário de Hegel, não identifica o pensamento com a realidade no seu desenvolvimento: o pensamento depara-se com uma realidade já dada e independentemente dela, que precisa de analisar nos seus aspectos e reconstituir ou sintetizar o seu objecto nas conexões que o constituem, e que não são só conexões funcionais estáticas (eternas e imutáveis, o que acontece em especial na física e na química, antes da ideia de que a própria Natureza tem história) como também e sobretudo conexões que se transformam na sua acção recíproca.
Assim a reconstituição sintética do objecto é igualmente o acompanhamento das suas mudanças necessárias, da maneira como se torna num novo objecto.
O movimento do pensamento que vai do sensorial-concreto através da abstracção até ao concreto como síntese das suas determinações, é a lei do desenvolvimento do conhecimento teórico.
Mais ainda, esse movimento tem de compreender as contradições que conduzem uma unidade à sua auto-transfiguração enquanto permanência ou enquanto mudança.
Por exemplo, muito abreviadamente, para se compreender a Revolução francesa e o longo processo de consolidação do capitalismo, precisamos de dar conta: a) da contradição crescente entre as forças produtivas detidas pela burguesia e a sua situação político-legal no Antigo Regime; b) da Constituição de 1795 como um dos mecanismos legais básicos para inverter aquela situação; c) da criação inevitável de instrumentos económicos reguladores de uma economia cuja espontaneidade levaria ao caos; d) da luta da burguesia posteriormente instalada no poder contra as aspirações igualitárias dos assalariados que ela própria criou como condição da sua existência, assim como e)… de outros variadíssimos factores; w) factores todos eles relacionados e coo-determinados pelo próprio processo global concreto, individual, único e irrepetível, com relevâncias distintas.
Anúncios