Onde Fica a Beleza ou A Montanha Mágica

 

 
No sanatório alpino de A Montanha Mágica de ThomasMann, o protagonista Hans Castorp na noite de Carnaval tenta seduzir uma bela tuberculosa russa (significativas associações à Dostoievski) elogiando-lhes as formas simétricas e profundas das radiografias que a beldade teve de fazer para avaliar a progressão da doença. Ao que ela respondeu que ele, o engenheiro de barcos em doca seca, ele Castorp, vindo das planícies industrializadas, não passava de um ingénuo sedutor, muito cortês, muito polido, nada malicioso, nada dionisíaco, muito alemão.
E ofereceu-lhe o lápis que trazia consigo para que se recordasse dela quando se fosse deitar no leito solitário do seu quarto.
Qual o simbolismo do lápis que Castorpimediatamente adulou, qual feitiço primitivo num instrumento de frio intelecto próprio para formular a beleza?
Uma ironia? Uma armadilha platónico-pitagórica personificada por Diotima que descobrira a beleza na ascese até às formas-modelos universais ideais – muito acima das Shiffer e Campbel -, das quais os homens e as mulheres não passam de exemplos imperfeitos, cuja carnalidade e singularidade amamos apenas por sermos dados às impressões ilusórias dos sentidos?
Qual Lucinda, qual Cristina? A mulher em si, desnuda pelas radiografias e pelos lápis, pela anatomia, pelas efusões químicas, pela teoria da evolução. Todas e nenhuma mulher. A beleza interior da forma perfeitamente formulada.
Mas do que a bela senhora tuberculosa guardou segredo foi da paixão inominada que avassala o coração e não desvenda o seu sentido último, sempre mutável e cavando mais fundo nos interstícios físico-culturais de cada um de nós.
Se há beleza interior (triste consolação das feias), não podemos radiografá-la nas transparências geométricas dos raios-x ou nos fluidos moleculares que dela são sinal nem na ideia transcendente do amor à figura imperfeitamente habitada pelo objecto do desejo.
Se há beleza interior não se encontra nesse mistério espiritualista e cientista que rebaixa e priva a matéria, que, pelo contrário, se desenvolveu nas comunicaçõessemióticas da carne, envolvida e cultivada pela civilização de que ela necessitou, produzindo-se reciprocamente.
Beleza interior é exteriorizar-se em ser o sujeito e o objecto do desejo de si-mesmo no desejo do outro, é uma dança entre os dois lados da porta da casa, um mover-se entre a cozinha, com as suas receitas conhecidas de venenos químicos accionados por rezas mágicas, e os horizontes socialmente imaginados no longe que não se alcança.
Beleza interior é a surpresa da forma táctil da matéria visível, dotada dos valores físico-sociais que suscita nos amantes finitos o fogo da união impossível. Beleza interior é a simpatia das cumplicidades almejadas, quase pensadas no serem sentidas, essa fogueira em que arde a esperança e de cujas cinzas as sementes nascem.
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